AS NARRAÇÕES DE BYUNG-CHUL HAN
Recentemente houve um terremoto nas nossas vidas, e as paredes dos labirintos nos quais, em qualquer tempo, todos nós nos movemos, mudaram de lugar: embora a comunicação tenha ficado muito barata e muito, muito rápida, as pessoas continuam a agir como se ainda morássemos na Torre de Babel – mais se briga e cancela nas redes sociais do que se procuram compreensões.
Por isso começou a circular a expressão “guerra de narrativas”, e fomos, na minha opinião, atropelados pela linguagem e pela ideologia da publicidade que, com frases competentes, quer nos obrigar a participar de um único jogo – o do consumo. Ordens; convites a pagar dois e levar três, quando só precisamos de um; photoshops e edições de lugares e pessoas; canhões que arremessam narrativas de um lado... de outro... Novas e velhas guerras explodindo ali e acolá...
Infelizmente e como sempre, tudo isso flui para um oceano irreparável de desigualdade e de violências nas quais uns ganham muito e a maioria sofre, presa no xadrez de que é apenas peça.
Talvez vocês estejam pensando que fomos, na verdade, invadidos pelas fake news, mas publicidade e fake news são jogadores do mesmo time: diz-se a notícia de tal forma que ela confirma vieses ideológicos. Por exemplo, houve um comício. Na guerra de narrativas instalada no dia seguinte, parte da população diz que compareceram a ele 14.000 pessoas, a outra diz que foram 400.000. Em resumo: já não é possível acreditar nem nos números, pois eles estão a serviço de ideologias políticas que se digladiam e tentam anular uma à outra. E convenhamos: se você pagar, um publicitário dirá que seu produto é bom, mesmo que não seja. E, infelizmente, dono de habilidades linguísticas que é, será capaz de convencer um número razoável de pessoas, inclusive dizendo que o comprador será o grande beneficiário na aquisição. Mas, de verdade, quem lucrará, caso se compre o produto, será o dono da loja ou o fabricante. E o comprador? Bem, ele perderá o dinheiro, se o produto não prestar.
A indústria farmacêutica, companheira de viagem de vocês, infelizmente, entra nessa roubada.
Quando eu estava pensando essas coisas meio subversivas, ouvi falar de um livro chamado “A crise da narração”, do filósofo coreano Byung-Chul Han, e não me contive: pedi-o de presente de aniversário à minha irmã no ano passado. Essa irmã não deixa de dar presentes de aniversário, mas o faz sempre muito atrasada, de forma que recebi o livro este ano, embora meu aniversário tenha sido no segundo semestre do ano passado.
Qual não foi minha surpresa! Reconheci na argumentação do filósofo minha implicância com a publicidade!
Han opõe storytellings a narrações (às vezes, ele escreve a palavra com “t” e, às vezes, com “s”, confundindo o contar com o comprar, numa tradução ligeira).
Acusa as storytellings de não gerarem vinculação; de só veicularem autopromoção e anúncios; de se deixarem apropriar pelo Capitalismo; de funcionarem de forma aditiva, dificultando a presença do contraditório. E as culpa pelo aparecimento recente de populistas e extremistas tribais cujas teorias, na sua opinião, intensificaram a crise narrativa e tomaram o lugar das “palavras” propostas, sentido e identidade. Constata que postar, curtir e compartilhar são ações simplistas e de um imediatismo irresponsável, acrescentando que a velocidade do espalhamento é agora inimaginável.
Acontece, diz Han, que nossa memória é narrativa e, portanto, as storytellings entram por um ouvido e saem por outro. Ou entram por um olho e saem por outro. Elas não vinculam, nem marcam, nem garantem compreensão. Apagam tão completamente o olhar do outro que reina absoluta uma única versão ou visão. E o outro se torna consumível e descartável feito uma coisa.
É claro que minha cabeça começou a funcionar, e fui juntando exemplos para mostrar para meus alunos essas ideias: “aquilo que realmente vocês aprendem”, eu lhes disse, “não é o que eu digo, mas a relação que vocês criam entre o que digo e suas próprias experiências”. É que aprendemos o nome de uma pessoa que acabamos de conhecer, relacionando-o a outros que estão dentro de nossa História, por exemplo. Ou entendemos uma informação nova quando a relacionamos com a nossa perspectiva de observação. Com certeza precisamos de um tempo para atrelar essa ideia nova a tudo que já sabemos e sentimos.
O problema é que esquecemos duas palavras bem parecidas – devagar e divagar. A primeira é um advérbio e significa “sem pressa”; a segunda é um verbo e significa “desviar-se de um foco principal para outros pensamentos, devaneios ou memórias”, de acordo com a Inteligência Artificial, a quem perguntei.
É nesse desvio que se dá a construção de novos e nossos caminhos e saberes. Com certeza, as frases prontas e simples que se disponibilizam para que ganhemos a discussão e calemos o interlocutor são só isto: elas são uma muleta que ajuda a ganhar e calar, é verdade. Porém nós perdemos, já que suas simplificações não são capazes de traduzir nossas complexidades, nem de fomentar a empatia e a escuta atenta e respeitosa, necessárias para vivermos razoavelmente bem uns com os outros.
Ao contrário das storytellings, as narrações e os narradores nos emprestam as suas experiências, e elas se tornam tão nossas que as passamos adiante como se fossem nossas... E isso é bem capaz de construir margens de milagre e germinação de novos sentidos os quais nos deem a força e a habilidade para lidar com as paredes novas que surgem o tempo todo nos nossos labirintos, sejam eles sociais ou subjetivos. Elas também nos ajudam a entender que somos uma trança de gente e de palavras e que a felicidade é, ao contrário do que diz a gramática, um substantivo coletivo – ninguém é capaz de ser feliz sozinho, trancado no vigésimo andar de um condomínio fechado e cercado de muros. Nem dentro de um carro enorme com vidros blindados.
Num tear, as narrações tecem, com fios de início soltos, tecidos lógicos em que o acaso e a desvinculação viram necessidade e vinculação.
Viver sem a roupa das utopias narradas é desistir dessas margens de surpresa e de fé no humano e se conformar com o “é assim”; é não sonhar com conexões causais, temporais e concessivas e, assim, apagar de vez o olhar do outro e cair na armadilha da Narcizo.
Daí – dessa percepção autoimune – nasce uma sequência aditiva de presentes indecifráveis que achamos que controlamos e que até nos empoderam, mas nunca nos libertam; que criam grupos de consumidores (de coisas, de frases feitas e de versões), não comunidades; que estimulam exageradamente e, em seguida, viciam, transformando-nos em usuários, ou seja, seres detentos e incapazes de inventar outros caminhos. Uma reforma na casa, uma família real, um perigo no mar, uma cobra na Amazônia, uma baleia cheia de creca, uma receita de salada, uma blefaroplastia... Enfim, a sequência aditiva não tem qualquer lógica, nem sentido. E nos sequestra de tal forma que nos desconectamos das pessoas de verdade que estão ao nosso lado.
Mas o que tem isso tudo a ver com a abertura de um seminário para médicos? É que o final do livro nos presenteia com um capítulo cujo título é Narração como cura, e estou aqui tentando ordenar suas ideias a fim de que elas nos ajudem a dar um passo adiante.
Byung-Chul Han, nesse antepenúltimo capítulo do livro “A crise da narração”, começa a pensar a partir do texto “Imagens do pensamento”, de Walter Benjamin, um pensador alemão difícil de definir: foi ensaísta, tradutor, filósofo, sociólogo e crítico literário ao mesmo tempo. Foi ele que me apresentou ao silêncio dos soldados da Primeira Guerra Mundial – uma guerra tão diferente e cruel que não pôde de imediato se transformar em “sustância narrável”, usando expressão imperdível de João Guimarães Rosa, que também é difícil de definir, pois era médico, escritor, diplomata e feiticeiro da língua portuguesa.
Numa das cenas do livro, Benjamin evoca o que chama de cena originária da cura – uma criança doente repousa numa cama, e sua mãe começa a lhe contar histórias.
Essa narração cura, de acordo com Benjamin, por vários motivos: proporciona relaxamento, cria confiança, acalma, acaricia, fortalece vínculos, apoia... É que as narrativas infantis falam de um universo resguardado (que transforma o mundo em um lar familiar) e a maioria delas obedece ao modelo básico da superação de uma crise.
Nesse contexto, a narração termina por ajudar a criança a superar a crise que a doença constitui. Han chama a atenção para o fato de que Benjamin fala não só de uma mão que cura, ou seja, de mãos que carregam uma expressividade tão forte que seria indescritível – “era como se narrassem uma história” –, mas ainda de magia cuja estrutura também é narrativa.
E, então, Han sequencia: “toda doença revela um bloqueio interno que pode ser removido por meio do ritmo da narração; a mão que narra libera a tensão, o congestionamento e o endurecimento.” E revela que Benjamin se fez duas perguntas – a primeira: não seria toda doença curável, caso se deixasse arrastar pela corrente da narração? A segunda: a narrativa que o doente faz ao médico, no início do tratamento, já não seria o início do processo de cura?
Nessa altura Byung-Chul refere Freud, o qual também entende a dor como um sintoma indicativo de um “dique” na história de uma pessoa e exemplifica com os transtornos psíquicos que expressam, na sua opinião, um bloqueio narrativo cuja cura consiste na verbalização. De acordo com ele, “o paciente é curado no momento em que se narra mais livremente.”
Sendo assim, a narração é terapêutica, e uma das explicações para isso é que sua estrutura coloca a doença no passado, e esse deslocamento a impede de afetar o presente.
Nesse ponto do texto, Han usa uma concessiva para dizer que embora o storytelling esteja fortíssimo, o clima narrativo está desaparecendo: ninguém escuta ninguém; os médicos também não escutam, nem narram mais, não têm tempo, nem paciência para escutar, vencidos que estão pela lógica da eficiência. Como conhece a eficácia das histórias, Han usa uma para tornar suas ideias mais compreensíveis – “Momo”, do escritor alemão Michael Ende. Nessa narrativa, a menina Momo pode curar as pessoas simplesmente escutando-as de uma forma especial: é que ela não só ouvia o partilhado, mas se concentrava na pessoa, “no quem do outro.” E acrescenta que o toque também tem seu poder de cura, evocando outra cena originária em que o toque da irmãzinha cura o irmão onde dói.
A questão é que vivemos numa sociedade sem diálogo e sem toque: só queremos discursar e não dialogar (usando as palavras de Vilém Flusser, filósofo checo e meio brasileiro) e é impossível acariciar objetos que são passíveis de apenas serem agarrados e apropriados. Desgraçadamente, a pobreza das narrativas não anda só, mas com a avareza do toque as quais estão nos deixando depressivos, solitários e ansiosos. Em suma: a crescente conectividade, paradoxalmente, nos isola, desvincula e adoece, principalmente do ponto de vista psíquico, mas não só, como se pode constatar nos consultórios de vocês, provavelmente.
Eduardo Galeano contou que, certa vez, fez uma palestra e, quando foi aberta a palavra ao público, alguém da plateia perguntou para que servem as utopias que ele tinha referido, e ele confessou que ficou paralisado de terror. Mas o cineasta argentino Fernado Birri, que estava ao seu lado, na maior calma, explicou: “A utopia está no horizonte. Sei muito bem que nunca a alcançarei. Se eu caminho dez passos, ela se distanciará dez passos. Quanto mais a procure, menos a encontrarei. Ela vai se distanciando à proporção que me aproximo. Para que ela serve? Para isto: para caminhar.” Essa narrativa é linda. Mas não é bem assim que penso. Elas servem para caminhar, é certo, elas norteiam, feito uma bússola, nossos passos e ações para que continuemos na sua direção... Inclusive meu tio e mestre Ariano ensina que devemos ser realistas esperançosos.
Entretanto meu caso é bem mais grave; minha esperança sufoca, irremediável e irresponsavelmente, a realidade! Aí para terminar a minha fala, vou começar a colocar no horizonte dez ideias impossíveis. Bem impossíveis...
Primeira: vamos esquecer a língua que se usa na publicidade; cheia de imperativos, ela só sabe jogar o jogo do consumo e nos transforma em máquinas obedientes, ou seja, em coisas que não pensam. Ou em máquinas autoritárias que não aceitam contradição, ou seja: em coisas que não pensam. A receita médica já é nessa língua – na consulta, vamos tentar manter a palavra em movimento. Sem o diálogo, caímos no abismo das relações intermediadas pela língua bruta da advocacia que sequestra nossa palavra e entende que fala bem por nós numa língua presa nas paredes da Lei. Não é uma palavra presa e velha que será capaz de corrigir o labirinto novo em que estamos.
Segunda: vamos esquecer a língua das redes sociais; cheia de tretas, ela tem revelado apenas o nosso lado pior. Caso observemos com cuidado, constataremos que somos basicamente melhores e mais tolerantes do que nelas nos mostramos.
Terceira: ouçamos com atenção a história dos jogos de Rubem Alves – nossa palavra não deve ser a bola de um jogo de vôlei, tênis ou tênis de mesa nos quais arremessamos com tanta força e de tal forma a bola que aquele que joga conosco erra. Ou seja: esses jogos nos obrigam a arremessar a bola para o outro fracassar, pois nós queremos vencê-lo. Não é o que acontece com o frescobol: nessa, digamos, brincadeira, o arremesso é cooperativo, joga-se a bola de forma cuidadosa, para que quem joga conosco acerte a mandá-la de volta da mesma forma, e o jogo continue. O objetivo não é vencer, mas movimentar a bola (ou a palavra) para lá e para cá. E, como já disse por aí, e sempre repito quando posso, quando há palavras em movimento, o sangue não corre.
Quarta: escutemos como no frescobol também – sem querer achar no discurso do outro as bases para desqualificá-lo ou atacá-lo ou mesmo cancelá-lo.
Quinta: façamos de nossa palavra uma palavra autoral, inaugural, viva, no sentido de deixar de repetir frases feitas e mortas que já foram ditas e ditas muitas vezes e não foram articuladas por nós. Elas não nos ajudam a achar um mundo melhor. Não há lógica no ato de se dizer o que já foi dito. Só pobreza e preguiça.
Sexta: resistamos ao “é assim” e jamais percamos a força para dizer, quando possível, como, na nossa opinião, pode ser diferente, como estou, timidamente, fazendo aqui.
Sétima: sejamos sábios, a fim de não perder oportunidades de diálogos reais – neles alguém diz uma surpresa, e outro alguém descobre com ela. E ambos ganham.
Oitava: tenhamos coragem para derrubar a ideia corrente de que é impossível conversar com quem pensa diferente de nós. Se não reforçarmos isso, provavelmente, acharemos um caminho (ou outro assunto) no qual haverá uma brecha por onde algum entendimento possa entrar.
Nona: desconstruamos a ideia de que pensar é pensar numa única direção dentro de uma bolha (a história não tem lado, principalmente lado certo e lado errado. Na verdade, ela vive bêbada, pois nós a fazemos como somos – errados e certos).
Décima: não percamos de vista que são homens ricos que vivem em países ricos que criam e manipulam e dirigem os algoritmos para que nos comuniquemos fora do frescobol de Rubem Alves, a fim de ficarem cada vez mais ricos. E todos nós mais pobres. Não é uma pobreza resumir as possibilidades de relacionamentos entre nós a uma trincheira suja e sem saída?
Tudo isso é bem impossível, não é? Também acho. No entanto convido vocês a colocarem isso no horizonte... São “coisas” que talvez não iremos obter... Mas não vamos nos eximir de tentar, nem vamos perdê-las de vista: a imaginação, às vezes, se esquece do que é e vira realidade.
Obrigada.


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