terça-feira, abril 21, 2020

DESPEDIDA


Há tempos
sem luto:
os mortos
são tantos
que perderam
o que têm por último:
as horas
sagradas
que os vivos
lhes dão
de despedida.
E o cálice
de lágrimas. 

Mas os astros
contam mentiras:
o tempo
não está guardado
nos relógios,
nem nos círculos mudos
de suas órbitas.

E, mesmo agora,
esta palavra
é capaz
de velar
estes mortos
sem rosto,
afora que
mais tarde
guardará
para sempre
sua memória.

sexta-feira, março 20, 2020

IDENTIDADE


Não sou feliz, só alegre:
é que não perco
a morte 
de vista.

Se me perguntam
quanto anos tenho
digo “não sei”:
olho para frente
não posso saber
(veio tão forjando-se
o que sou
que valho
mais que ontem).

A morte
me ensina
a guardar
o voo,
não o pássaro.

quinta-feira, fevereiro 20, 2020

NOSSA ONTOLOGIA


Muita coisa
precisa conspirar
para criar
outro mundo.

Ninguém
dá conta
desse tudo,
ainda que 
rios
nasçam
de gotas.

Diferente
dos mapas,
todo tempo
se desenha
com angústias
e violências:
há sempre
água fresca
escorrida
do cálice imperfeito
das mãos.

O real
não se traduz.
O tempo 
dá sustos.
O erro e o acerto
são verdades inseparáveis.
A soletração
convoca velhos ódios
em espelhos vazios.

Mas as estações
não são iguais:
cada inverno
chora suas lágrimas;
cada verão
destila seu suor.

Estamos onde somos:
a oculta fábrica
que cria novos tempos
e seus conseguintes desesperos.

segunda-feira, janeiro 20, 2020

NOTÍCIA (para Arthur Costa)

A noite só
anunciava ausências:
no rio sujo
nada parece vida;
na rua
o que se move
é ferro.

Mas a capivara
ignora o nada
que a cerca
e surge inesperada
feito um milagre:
ela noticia
que nem tudo
está perdido.

sexta-feira, dezembro 20, 2019

OUTRO TEMPO (para Ítalo Almeida)

Se deixarmos,
tudo se vai
sem palavras.

Na teia
desse perigo,
acumulam-se
ausências
e solidões:
seremos 
prisioneiros
de casas sem saída;
saberemos 
que a vida
é cheia de
coisas esperadas
e perdidas.

Se não nos
rendermos,
tudo será
herança:
seguiremos
próximos
uns dos outros,
guiados
e não subjugados
pelo passado.

domingo, novembro 03, 2019

O DIREITO À LITERATURA (IV)


         Dadas as características multipolares de nosso século XXI, é claro que seria ótimo que tivéssemos todos mais contato com o texto literário que não é apenas um inocente equipamento social – ele confirma valores e, às vezes, os nega; é caminho de fuga e denúncia; é arma para luta social e, ao mesmo tempo, pode escamotear a realidade... Feito a vida que ela representa, reelabora, ressignifica. 
  Então: por meio da literatura podemos aprender a viver, com nossas diferenças e complexidades, dialeticamente. Nossos matizes étnicos, ideológicos, culturais, de gênero e de classe são riquezas imperdíveis, e precisamos aprender a viver com eles, não nos servindo deles para justificar injustiças indefensáveis ou para inventar novas censuras, violências, vinganças e distâncias.   
            Recentemente, parece que estamos nos distanciando desse caminho: vivemos uma tirania simplificadora e polarizadora. Exigimos comportamentos, interrompemos uns aos outros, obrigamos uma pessoa a dizer da forma como queremos ouvir, não queremos escutar, só ser escutados... Na verdade, estamos reduzindo todos os recursos de expressão − a ênfase, a ironia, as repetições, os tons, os gestos auxiliares da comunicação oral... – a inadequações comportamentais e linguísticas, chegando, após uma discussão, a dizer que a pessoa até tinha razão, mas a perdeu em virtude do modo como falou. A língua com que temos de falar deixou de ser nossa, deixou de refletir o plural que somos ou que podemos ser...     
            Antônio Cândido, no seu ensaio de 1988, justifica o direito à literatura com uma cândida argumentação: ele afirma de início que, em uma sociedade com menos desigualdade social, todos teriam e gostariam de ter acesso à literatura; que a literatura humaniza e que os governos deveriam garantir a todos acesso a ela; em seguida, acrescenta que, no Brasil, o usufruto geral é impedido, em virtude das imensas desigualdades de renda, e que as classes dominantes não se interessam realmente por literatura, aproximando-se dela apenas por esnobismo; em contrapartida, depois de narrar um par de experiências, afirma que as dominadas têm uma “sofreguidão comovente” por ela. 
            Quero que se reconheça, nas suas ideias, o contexto do século XX – a presença das palavras “igualdade” e “desigualdade” e dos raciocínios bipolares.
       Já bem entrados no século XXI, é evidente que levantaríamos argumentos diferentes: com a Globalização e as migrações em curso no mundo inteiro, o exercício da tolerância que a literatura proporciona talvez a justifique e certifique agora.
            Ler um romance é passar alguns dias vendo o mundo na perspectiva do autor; é exercitar se colocar no lugar do outro − já que o narrador explicita os temperamentos, as personalidades e os pontos de vista das diversas personagens −; é aprender a reconhecer que o outro é diferente e, ao mesmo tempo, tão humano quanto nós, pois vive os mesmos dilemas, sente as mesmas dificuldades e dores, comete os mesmos erros...
      Evidentemente, aceito a argumentação de que documentários, notícias e reportagens também nos ensinam sobre outras culturas, outros pontos de vista e outras opiniões. Mas Contardo Caligaris me ajuda a estruturar o que estou tentando dizer: a literatura tem “uma mágica complementar”, porque, à proporção que ensina a diferença, ela ensina a semelhança, esse tutano comum que me obriga a ver uma pessoa diferente de mim como um semelhante humano como eu, apesar de suas idiossincrasias.        
Enfim, infelizmente, eu não observei nenhuma sofreguidão das classes dominadas em direção aos bens culturais, quando elas melhoraram seu acesso à renda; como as dominantes, as dominadas, até por uma questão de demanda reprimida, consumiram, quando puderam, celulares, carros e viagens aéreas, em detrimento de bens culturais. E se vê, por todo lado, o triunfo da cultura de massa que não é inocente, mas amplificadora dessa simplificação, uma vez que reduz seres humanos a consumidores. De coisas que não servem para dar um sentido satisfatório para a vida. Nem observo confiança das pessoas com as quais convivo nas informações que lhe chegam por meio desses maravilhosos meios de comunicação dos quais dispomos.
Nesse contexto, reitero a importância da “escuta literária”, ou seja, ler com calma textos literários (poemas, romances, novelas, contos, crônicas, peças de teatro) para não esquecer das figuras de linguagem, da paleta de cores, sabores, cheiros e texturas possíveis que existem na nossa expressão, das liberdades possíveis... A fim de acertar a derrubar as prisões desnecessárias dessa ortodoxia polarizada que está nos jogando uns contra os outros, quando tudo já permite diversidade.
E o tal direito à literatura, quem o garante? Proponho um mutirão do Estado, da Universidade, das bibliotecas, da Escola, da família, das organizações não governamentais, dos meios de comunicação e do próprio cidadão.
O Estado deve ampliar as políticas de aquisição de livros para bibliotecas públicas e escolares e apoiar, financeiramente, projetos diversos; juntamente com as Universidades, deve também repensar as bibliotecas existentes e criar novas (pelo menos uma em cada município do país), formando entre elas uma rede de partilha de experiências exitosas em projetos para a formação ou o amadurecimento de leitores literários; mais especificamente, essa mesma Universidade, por meio de seus cursos de Letras, Pedagogia, Biblioteconomia, Artes Cênicas e Visuais, poderia se comprometer com a formação de leitores e mediadores que atuariam nessas bibliotecas, para que elas fossem mais acolhedoras e mais ativas no papel do letramento literário; a Escola, além de suas ações pedagógicas ordinárias, tanto poderia se empenhar em efetivar projetos escolares, como feiras de conhecimento, com o propósito de incrementar a leitura literária, quanto poderia organizar grupos de alunos no contraturno para rodas de leitura e discussão de textos literários ou para visitas nas bibliotecas e outros espaços sociais, onde vivências de leitura literária estivessem acontecendo; a família se disporia a ser coadjuvante dessas ações, não  só participando da concepção e da execução dos projetos escolares, quando fosse possível, mas também viabilizando e incentivando a presença das crianças e dos adolescentes nos diversos eventos sociais por acontecer, além de se esforçar para ler e, assim, dar o exemplo às crianças e aos adolescentes sob sua guarda; a televisão e o rádio, com todo o poder que têm, poderiam participar de várias formas – montando peças teatrais famosas, como já aconteceu e, infelizmente, não mais acontece, adaptando obras literárias para outras linguagens e incrementando programas de entrevistas e documentários com escritores e roteiristas, para mostrar a todos a importância de um olhar plural sobre os problemas que nos afetam, elencar possíveis saídas para eles, aprofundar percepções, a fim de entendermos que soluções não caem do céu, são construídas de mãos dadas; as Organizações Não Governamentais, como a UBE e a CULTURA NORDESTINA, por exemplo, poderiam participar executando palestras, workshops, concursos, maratonas de recitação, cursos de leitura e escrita criativa e dando apoio logístico a projetos sociais de valorização da leitura literária. Por fim cada um de nós deve entender a importância da leitura e da escrita na participação social e deve fazer um esforço para se aparelhar a fim de construir sua própria cidadania e viabilizar seus direitos (incluso aí o direito à literatura), os quais, ao fim e ao cabo, são construções subjetivas. Não dádivas.
Acredito que essa teia de ações permitirá que possamos escolher nossas leituras sem sermos dirigidos pelo “Mercado”.  E que possamos nos tornar, além de consumidores, agentes construtores de uma sociedade mais compreensiva e mais inclusiva. 
Mas nada disso será possível enquanto não se distribuírem melhor nossos bens materiais e não se democratizarem condições dignas de trabalho e de vida, pois o usufruto dos bens culturais (inclusa aí a literatura) depende de tempo livre usado em prol do autodesenvolvimento e, por conseguinte, do desenvolvimento de todos. 
Essas palavras são lembretes, para que não percamos a direção. 

domingo, outubro 20, 2019

O DIREITO À LITERATURA (III)


              O cimento que cola os direitos humanos e a literatura é o reconhecimento de que aquilo que é indispensável para mim é também indispensável para o outro. De cabo a rabo. Ou seja: se Tolstoy é importante para mim, devo colocá-lo numa cesta básica de bens à qual todos teriam, sem exceção, acesso, inclusive os femininos e os etcétera que estão no masculino plural, de acordo com as regras da língua portuguesa. Pois segurança alimentar está, sim, ligada com integridade espiritual. Negar a primeira, neste tempo em que temos condições técnicas e materiais de garantir alimentos a todos, é estapafúrdio. E negar a segunda, neste tempo em que dispomos de meios de comunicação tão eficientes e baratos, é uma mutilação.
            E o que têm os atuais meios de comunicação a ver com nossa integridade espiritual? Tudo: eles poderiam viabilizar a circulação tanto das ideias dos dominantes quanto dos dominados e, portanto, o tal “equilíbrio de ideias” proposto pelo escritor nigeriano Chinua Achebe, já que quase todos têm um celular com que são produtores de conteúdo e com que opinam sobre conteúdos enviados nas redes sociais. Por conseguinte, “direitos espirituais” − como liberdade individual de crença, de escolha, de orientação e de expressão; acesso à arte, à cultura, à informação e ao lazer – seriam expandidos e partilhados... E poderíamos, assim, nos desenvolver mais equitativamente também do ponto de vista psíquico e espiritual, até porque essa circulação plural terminaria por construir mais compreensão e, por conseguinte, mais tolerância. 
Acontece que nada disso está ocorrendo: nesses meios de comunicação, continuamos sectários, intolerantes e violentos. Na contramão de nosso século XXI, tempo que permite a pluralidade, talvez a mais verdadeira identidade dos seres humanos. 
Está em curso, na verdade, uma espécie de hipocrisia: a maioria das pessoas (aí incluídos políticos, empresários e donos de meios de comunicação) concorda com a ideia de que deveríamos dividir melhor todos os nossos bens; não se regozija, nem acha subterfúgios religiosos, como já aconteceu, para brutais desigualdades, mas, efetivamente, não se esforça para que haja mudanças. Talvez porque não saibamos ainda o que fazer para seguir em frente num caminho novo? Enquanto não sabemos, viramos estátuas raivosas, porque brigar é o verbo mais fácil. 
Além do mais, podemos todos falar na internet, mas não com as palavras que escolhemos sozinhos ou num consenso social – somente com as que foram escolhidas ninguém sabe por quem. São sempre frases na voz passiva, sem os agentes da passiva. Dentro de bolhas algorítmicas: as redes sociais reforçam a tendência comum de buscar informações e argumentações que se alinhem às nossas opiniões, comportamento que, provavelmente, cria uma sensação de pertencimento a grupos identitários. Mas dificulta o achamento de estratégias de tolerância.
Inventou-se um vocabulário asséptico com que todos devem falar... No entanto, essa língua é como usar uma roupa alheia com que não nos sentimos bem... Com que nunca nos acostumaremos, porque não fomos feitos para ela e por ela e com ela... Os “proprietários” dessa língua não só interrompem, boicotam e impedem o fluxo idiossincrático da verdadeira expressão (a palavra “idioma” tem o prefixo “idio” que significa “próprio”), mas também cristalizam e mumificam as palavras e as expressões, dificultando a relação particular que cada um de nós tem com uma palavra e não com outra, com uma expressão e não com outra... E empobrecendo as buscas, as metáforas, as nuances, as ironias, as brechas, a imaginação... Perder tudo isso é como perder delicadezas e riquezas e sentidos... Tanto apego ao literal... E nada faz sentido... 
Os recursos de expressão e nossas escolhas vocabulares e sintáticas não são aleatórios, são reflexo de nossa subjetividade. Escolha, liberdade, erro, acerto, conserto, busca, consenso... É tudo isso junto que cria um idioma de verdade e o renova, alargando as apreensões, de acordo com Wittgenstein. Porque se precisamos de novos caminhos, precisamos de novas palavras. Palavras “fatigadas de informar” (como diz Manuel de Barros) e de brigar não inventarão um futuro melhor que é o que no fundo desejamos: “um futuro que fale a nossa língua”, como diz Mia Couto.
O absolutismo linguístico e mesmo ético e ideológico decorrente desse vocabulário detento é de uma pobreza lamentável. Há poucos dias uma aluna veio conversar comigo sobre se deveria haver limites no humor. E acrescentou:
− Uma pessoa que faz humor com negros é racista, e quem ri também...
− Então, no “Auto da Compadecida”, a cena de João Grilo dizendo que Deus é muito queimado revela o racismo de Ariano Suassuna e, quando nós rimos, revelamos nosso racismo enrustido? É isso? – eu perguntei.
− Não, ela respondeu com uma expressão surpresa...  
O direito à literatura está no meio de toda essa discussão. Na literatura, as palavras andam soltas da prisão do dicionário, e aí podemos brincar na rua com elas de esconde-esconde, de Academia, de seguir o mestre, de inventar línguas, de pular, de passar o anel, de cantar, de telefonar sem fio, de rimar, de contar sílabas, de cruzá-las, de caçá-las... E de crescer com elas, nelas, por elas... Como sujeitos e como proprietários de um idioma que é nosso e de muitos e cujo uso nos faz seres exclusivos e sociais ao mesmo tempo.