quarta-feira, abril 18, 2018

Guardando lugar no mês de abril...

domingo, março 18, 2018

Raimundo Carrero e o politicamente correto

Falar sobre Raimundo Carrero é uma tarefa desnecessária: nós todos o conhecemos bem, ele é dos nossos. Mas é claro que se pode conversar sobre ele, para mais nos conhecermos uns aos outros. Como não posso deixar de ser a professora de literatura para jovens que sempre fui, me arvoro do direito de dar uma aula de literatura para começar a organizar as ideias. Acho que preciso começar falando do Regionalismo e suas “faces” na literatura brasileira, para iniciar pensando o que Carrero não é.
Na verdade, o Regionalismo brasileiro nasceu romântico, fruto da necessidade de busca da identidade nacional, um longo e árduo percurso histórico ainda em curso, é claro. O processo colonial e todas as suas injunções criaram dificuldades inomináveis para o projeto de independência política e, consequentemente, cultural do país. Durante 300 anos, o Brasil não passou de um apêndice de Portugal, que, aqui, detinha poder absoluto.
Em 1822, uma série de episódios culminou com a Independência. No âmbito da cultura, coube ao Romantismo a tarefa de construir a correspondente independência cultural e, portanto, a consciência e o orgulho da nacionalidade. Nessa altura, o Brasil ainda tinha o "álibi" do processo colonial, ou seja, tudo o que havia de errado, aqui, devia-se à instalação, entre nós, desse pacto injusto e desfavorável: escravidão, atraso, dependência... Descortinava-se, então, no horizonte, um futuro grandioso – estávamos livres da “mala sem alça” que nos condenava ao negativismo e à vergonha de ser colônia.
Nesse contexto, o Romantismo descreveu o Brasil de modo idealizado. Florestas virgens, praias de areias brancas, mares verdes como esmeraldas líquidas, fauna ímpar (araras, jandaias, onças...), clima bom, céu de anil... Nesse verdadeiro paraíso terreal, colocou-se um habitante forte, orgulhoso, perfeito, bonito, bom, heroico. É nesse berço que nasce o nosso Regionalismo, filho do escritor cearense José de Alencar.
Nosso primeiro escritor de âmbito nacional, Alencar planejou sua obra, no sentido de construir um painel histórico-cultural do país. Ambientou livros nos séculos XVI, XVII, XVIII e no seu próprio tempo (primeira metade do século XIX), pois pretendeu descrever o país de cabo a rabo. Percorreu sua História, descreveu suas geografias, inventou o índio como herói necessário (o elemento que estava aqui antes de o português chegar; portanto, o mais genuíno brasileiro) e visitou as suas "sociologias". Foi no projeto dessa brasilidade que nasceu o seu Regionalismo, o qual mencionou tanto o sertão nordestino como os pampas gaúchos, dentro, é claro, desse mesmo diapasão idealizante – paisagem e homem são igualmente perfeitos.
Nos caminhos abertos por ele, o carioca Alfredo Taunay, descrevendo o Centro-oeste, e o cearense Franklin Távora, o Nordeste, proporcionaram ao país uma visão de si mesmo, necessária à construção do conceito de pátria que nascia.
Esse Regionalismo romântico não deixa de ser uma espécie de escapismo no tempo e no espaço; tem a ver com um desejo de compensação e fuga da realidade, típico do Romantismo, somado a uma necessidade de representação desse novo espaço social e político que se desenhava no Brasil – o país livre. Constrói-se pela supervalorização do pitoresco, da "cor local" (como diz a crítica). Ou seja: o Romantismo agrega à região valores, cores, sentimentos e qualidades que, na verdade, não lhe pertenciam, mas à cultura que nascia e precisava deles para crescer. Paralela à hipertrofia imagística e estilística, uma complacência com os aspectos negativos das respectivas regiões aparece, e somente é mostrado o seu lado positivo.
O tiro pela culatra desse Regionalismo é que ele beira a xenofobia.
No final do século XIX, o Regionalismo muda de roupa: despe-se do saudosismo, do escapismo e da idealização românticos para ganhar os contornos deterministas e cientificistas do período – o herói ganha estatura trágica, pois luta contra um ambiente inóspito e adverso que o vence, necessariamente. É o caso de outro cearense, Domingos Olímpio.
Mais tarde, já na década de 30 do século XX, o Regionalismo reaparece, no formato modernista; escrito numa linguagem e numa forma francamente antitradicionalistas, ele mantém a linha de determinação ambiental do século anterior e acrescenta à “receita” uma visão de esquerda, a princípio, que depois deságua em denúncia das questões sociais e políticas regionais, potencializadas pelo clima, quadro típico do Nordeste brasileiro. Observe-se que o Regionalismo, aqui, denuncia a estrutura agrária latifundiária, uma persistência colonial que resiste à modernização do país prometida pela Revolução de 30. A narração do confronto entre opressores e oprimidos ou entre adversários políticos esclarece o desenho dessa combinação explosiva de injustiça climática e política para o resto do país, que tinha curiosidade sobre essas especificidades (coronelismo, seca, retirada, messianismo, cangaço, latifúndio, patriarcalismo...).
Os paraibanos José Américo de Almeida e José Lins do Rego, a cearense Rachel de Queiroz, o alagoano Graciliano Ramos e o baiano Jorge Amado descrevem, a partir de várias perspectivas, um tempo de mudança, quando o país tirou o poder da mão dos proprietários de terra e o colocou na dos comerciantes, revirando a região e mesmo o país de ponta-cabeça. Esses escritores analisam, explicam, levantam causas, hipóteses, efeitos dessas transformações e o fazem por meio de um retrato realista e mesmo até naturalista da região. Com aspereza, saudade ou maciez, fotografam um mundo em mudança enquanto apresentam ao Brasil a região que deu o estopim da Revolução de 30.
Nesse momento, acham-se já delineados todos os “ingredientes” daquilo que se entende por Regionalismo, que tira sua substância não só da paisagem (clima, topografia, flora, fauna, elementos que afetam a vida humana na região...), mas também das riquezas culturais ou maneiras peculiares da sociedade humana estabelecida naquela região e que a fizeram distinta de qualquer outra (linguagem – modos de expressão nativos e populares, ritmos e sotaques diferentes; reações dos indivíduos; tradições; cultura; civilização; etnia; formas de cozinhar, vestir, morar; lendas; mitos; tipos; imagem; simbologia...).
A partir da publicação do colosso “Grande sertão: veredas”, do mineiro João Guimarães Rosa, desenha-se um novo Regionalismo na nossa literatura – o Regionalismo universalista, se é que se pode juntar as duas “palavras”. Tornado uma metonímia do mundo, o sertão de Minas Gerais, nessa obra, mantém suas especificidades, milimetricamente descritas no livro, mas ganha também contornos filosóficos, quando se torna o “mundo” ou o planeta onde se passa a vida dos homens. O narrador desse livro luta com as palavras escritas e faladas, e tudo o mais que se possa imaginar de experimentalismos e invencionices linguísticos, para contar sua história que pretende ser, espelhando a Bíblia, “a” história ou as histórias de todos os homens, na sua errática e difícil trajetória material. Também aqui se “encaixa” o paraibano Ariano Suassuna, cuja obra está contida nesse espaço tanto regional como humanístico.
É depois de Guimarães Rosa e Ariano Suassuna que está a obra do pernambucano Raimundo Carrero – nesse “locus” que não é mineiro nem pernambucano, nem paraibano. Mas tudo isso e mais coisas além.
Entretanto, não se pode dizer que Carrero é um escritor regionalista, como ainda se pode afirmar sobre Guimarães Rosa e Ariano Suassuna. Ele localiza suas histórias em lugar nenhum − com o homem dentro, sem livre arbítrio, carregado por um destino implacável, totalmente diferente do de Guimarães Rosa, cujo personagem Riobaldo, por exemplo, escreve (ou fala) e se escreve ou reescreve e reconstrói sua história ao longo do livro. Esse personagem é autor de sua narrativa e de sua vida; fez conscientemente suas escolhas, experimentou, pensou, refez caminhos e, na narração de sua vida, entende, explica, pensa, opina, analisa, analisa-se... Ariano também: na sua obra, no fim, Deus justifica, ordena e explica tudo, perdoa tudo; a ontologia esperançosa dos seres humanos é sua redenção... Em Ariano, tudo tem um sentido espiritual: os seres humanos encontram sua verdadeira natureza depois da morte.
Carrero não tem o olhar otimista de Guimarães Rosa, nem a aflita mas esperançosa visão de Ariano Suassuna: ele nos descortina o pior do ser humano – incesto, traição, estupros, assassinatos, tortura, loucura, exercício espúrio do poder, inversão de valores – em comportamentos incompreensíveis e inexplicáveis. Todos esses temas estão presentes em Guimarães Rosa e Ariano Suassuna, é verdade. Ou em qualquer grande escritor. Mas, em Carrero, não há sentido, nem perdão, nem redenção, nem esperança, nem explicação. Só, como diz João Guimarães Rosa, “o escuro, escuros”: Carrero não nos dá o alento de uma explicação, de um sentido; seus curtos romances terminam sem fim, seus personagens não se entendem, nem se explicam. São mamulengos de seus instintos animalescos e de forças inconscientes e ininteligíveis. São presas dramáticas do destino. Sua “acomodação” num enredo sem referências de tempo e lugar, numa ambiência fantasmagórica parecida com a das tragédias gregas antigas, obriga-os a agirem sem entender suas próprias ações. E isso tudo nos carrega para “trás” dos poucos acontecimentos, onde estão localizadas as forças animalescas e brutais, próprias daquela natureza que todos sabemos que temos, mas que decidimos esconder no curso de nosso processo civilizatório.
Como num jogo de cartas em que nada se pode prevenir, alguns dos seus personagens são empurrados para experienciar o Mal que existe em si mesmos e para materializar as mais sórdidas e estapafúrdias ações, as quais nunca surpreendem os outros, pois de cada um ou de todos se esperam apenas brutalidades e violências.
Inicialmente localizado por Ariano Suassuna no Movimento Armorial (que reconfigura o popular regional imbricando-o com o erudito, numa ludicidade que se fortalece no casamento entre forma e conteúdo), Carrero, na verdade, nem se compromete com a região Nordeste e o popular, nem com a tradição temática erudita, muito menos com a exuberância linguística e descritiva de Suassuna. Ao contrário:  sua linguagem lacônica e claudicante, cheia de pontos finais, nos obriga a parar o tempo todo e a respirar curto, como depois de correr, o que expande o paroxismo do conteúdo.
    Embora sua ambiência, sua temática e sua linguagem sejam essas, Raimundo Carrero não está só − é herdeiro de uma linha que quebra o beletrismo de nossa tradição literária; Lima Barreto, Augusto dos Anjos, Rachel de Queiroz, José Américo de Almeida, Graciliano Ramos ou mesmo João Cabral de Melo Neto são companhias mencionáveis, em virtude do fato de suas obras quebrarem o conceito de “lírico”, “belo” e “lógico”, à proporção que inauguram, a seu modo, novos conceitos de belo. Como eles, Carrero quebra expectativas e conceitos, tematizando as profundezas humanas num tempo que quer apagá-las.
Vem daí a verdadeira utilidade de seus textos nesses tempos politicamente corretos e simplificadores, tão contrários à literatura e suas funções mais escondidas, porém não menos importantes...
Esse “fogo amigo” do politicamente correto não é o primeiro inimigo da literatura: a religião talvez a tenha perseguido de início; depois foi a vez dos totalitarismos todos – de direita e de esquerda, infelizmente – que impuseram ou tentaram impor a ela censuras, fogueiras, exílio e toda sorte de mordaça... Mesmo nas democracias, houve impedimentos ao exercício pleno de todas as suas potencialidades. Mas nelas pelo menos se podia arengar e, paulatinamente, avançar na direção da ampliação da liberdade de expressão. E permanecer vivo. Que o diga Flaubert. No fundo, uma democracia precisa tolerar dissidências, sob pena de não poder ser considerada como tal.
Nascido da mais improvável brecha da democracia, o politicamente correto é uma espécie de cartilha (ora visível, ora invisível) que direciona como se deve falar ou escrever o que se quer falar ou escrever. Por incrível que possa parecer, esse comportamento existe – circula pelo WhatsApp, por exemplo, um “Manual para o uso não sexista da linguagem”. Difícil de ser questionado e relativizado, o politicamente correto carrega as melhores intenções. Mas é daquelas questões que terminam batendo no inferno pelo caminho das fórmulas dogmáticas e simplistas.
O problema que o politicamente correto tenta resolver é bem preocupante: há um empobrecimento dos sujeitos que se projeta no empobrecimento da linguagem. Jornalistas, professores, alunos, técnicos que projetam políticas educacionais... pretendem simplificar o aprendizado de língua no afã de democratizar a Educação. Nesse contexto, a sugestão, a conotação, a polissemia e a ironia, por exemplo – em última estância, uma espécie de tecnologia de ponta da comunicação – passaram a ser ferramentas mal conhecidas ou desconhecidas e, sem elas e sem o exercício de abertura dos sentidos que elas possibilitavam, a comunicação travou. E se fechou à alteridade, às nuances, às discordâncias, à complexidade, nossa mais primeira e tão esquecida característica. Tudo isso junto impede a reflexão. Por conseguinte, a razão invisível da simplificação mais inaceitável foi tomando corpo e realizando a afirmação infantilizada de uma verdade escrita em cartilhas que não traduz a heterogeneidade e a complexidade de nossa ontologia; e, portanto, de nossos pensares e sentires e falares e saberes...
A aceitação cega desse comportamento escamoteia uma colonização difícil de invisível. E nos divide em “bonzinhos que falam certo” e “mauzinhos que falam errado e por isso devem calar”. E nos subdivide em dois times de estátuas que se olham e se odeiam. Bataille e Freud já alertaram para o perigo disso: há uma diferença significativa entre ter feras visíveis, estudáveis, estudadas, pensadas, faladas, espetacularizadas na literatura (ou num zoológico ou num circo como metáforas) e soltá-las entre pessoas: é a diferença entre a convivência minimamente possível e a barbárie. 
Aquilo sobre o qual não se fala não desaparece – fica ali “nos crespos do homem”, conforme diz João Guimarães Rosa, e pode nos assaltar de repente. A literatura, portanto, seria uma prevenção contra esse “invivível”; ela elabora o conteúdo desses crespos ao passo que impede que ele se materialize em perseguições e assassinatos e violências de verdade; ela permite a ressignificação desses crespos de modo a tornar a nossa vida social possível, mesmo que não perfeita, o que de resto ela nunca será.
Carrero não é politicamente correto. Ele fala de assuntos ofensivos, é verdade.  Entretanto exercita a nossa capacidade de ouvir o que gostaríamos de silenciar; instiga-nos a mensurar o tamanho de nosso apreço à liberdade de expressão e desafia as nossas negociações tão difíceis nos terrenos da comunicação; convida-nos a enfrentar a vida (e seus inerentes medos, dificuldades, dores, tristezas, perdas, alegrias...) e a nossa ontologia e sua natureza sem nome de tão complexa e profunda. É desses escritores cuja leitura nos faz recuperar esse conteúdo sufocado (não perdido, nem apagado) pelo processo de civilização. E o melhor: nas palavras, podemos ressignificá-lo sem correr riscos, nem derramar sangue.    
Quem pensa que a arte deve se tornar politicamente correta não pensa: ameaça sufocar tudo com a fumaça de nossos crespos, por falta de cano de escape. E nos empurra no abismo de realizarmos a barbárie, não nas palavras, mas no real. Uns contra ou outros... Como deve ter acontecido com nossos ancestrais pré-históricos, quando ainda estava por nascer isto que chamamos de “humanos”.
Francamente não sei como terminar este texto com tantas ideias. Talvez com uma frase do crítico literário português Jacinto Prado Coelho, que disse não ser a literatura uma ferramenta para ensinar. E sequencia: “é a reflexão sobre a literatura que nos ensina”. Portanto, agradeço a Raimundo Carrero, que me ajudou, com seus textos e seus temas, a pensar nos motivos conscientes e inconscientes que me levam a olhar o politicamente correto com um pé atrás, a defender sempre a irrestrita liberdade de expressão e a justificar a literatura como um bem irrenunciável que nos auxiliou a chegar até aqui – neste tempo em que, apesar das náuseas referidas, começamos a falar e a pensar em tolerar a diferença e aceitar a diversidade. Tudo isso são palavras, ainda ameaçadas com armas e, mais recentemente com leis, é bom lembrar...
Enfim: cada palavra dessas é uma flor. Incompleta e feia, é verdade. Mas é uma flor.

quarta-feira, fevereiro 21, 2018

"Os Sertões", de Euclides da Cunha



Em virtude do programa do vestibular seriado da UPE, começo minhas aulas do terceiro ano do ensino médio tendo que conversar com meus alunos sobre o livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, que abre o Pré-modernismo, aqui no Brasil. Embora eu fique imaginando como deve ser estranho para os meus alunos ouvir falar de questões tão distantes de sua atual realidade mental, confesso que gosto de provocá-los e de pensar que participo um pouquinho da apresentação de fatos que ajudam a compreender os problemas do país e vislumbrar saídas. Mais do que tudo, acho que tenho que explicar com calma a eles que a guerra de Canudos não é, de jeito nenhum, uma realidade distante de nós. Na verdade, não dá para pensar o país sem lançar mão desse livro colossal – está tudo lá, ou estamos ainda lá.
“Os Sertões” chegou às livrarias em dezembro de 1902, cinco anos depois do fim do conflito que o gerou. Publicado pela editora carioca Laemmert, alcançou êxito imediato de público e de crítica. Já teve mais de 50 edições em português e foi traduzido em mais de 10 idiomas. Resultou da cobertura jornalística do conflito de Canudos, feita por Euclides para o jornal “O Estado de São Paulo”. O autor testemunhou os últimos meses da guerra (entre setembro e outubro de 1897), tendo participado da quarta e última expedição que dizimou Canudos sumariamente. Graças a ele, temos ideia hoje da real fisionomia dessa guerra: uma campanha de extermínio inaceitável, mesmo naquele violento final do século XIX, no violento país que acabava de sair do violento período da escravidão.
O problema talvez tenha aí seu ponto de partida: a abolição incompleta que foi arquitetada aqui no Brasil. Ou seja: os escravos restaram sem inserção, pois não houve reforma agrária, nem ampliação do acesso à educação no país; ficaram à margem da economia e, consequentemente, da sociedade. Nesse contexto, retirantes de seca, escravos fugidos, sem-terras, ex-escravos desempregados, isto é, excluídos de toda sorte começaram a se aboletar numa espécie de fazenda abandonada no sertão da Bahia e, liderados por Antônio Vicente Mendes Maciel, terminaram por fundar uma cidade marginal chamada Belo Monte, às margens do rio Vaza-Barris. Esse, digamos, acampamento começou a ameaçar a ordem política vigente na época, e algumas escaramuças surgiram; a primeira, em virtude de uma serraria não ter entregado aos sertanejos a madeira já paga com que eles pretendiam fazer uma igreja nova. A guerra toda durou quase um ano (de novembro de 1896 a outubro de 1897) e trucidou 5 mil soldados e entre 10 e 25 mil sertanejos, não há como saber ao certo.
Esta semana alguns episódios me fizeram lembrar o livro: um recado numa faixa que os habitantes da Rocinha mandaram para o STF (“Se prender Lula, o morro vai descer”); a solução para o problema da violência, proposta por um dos candidatos a presidente nas próximas eleições (metralhar as favelas); e a possibilidade de uma intervenção militar no Rio de Janeiro.
Para entender a relação entre os episódios, é preciso explicar devagar o que foi Canudos: uma guerra civil entre o que Euclides chamou de dois “Brasis” – um litorâneo e outro interiorano. De acordo com ele, o primeiro se ombreava com os países da Europa e tinha acesso à cidadania possível tanto lá como cá; o segundo era constituído de excluídos, como se diz hoje, ou de “brasileiros mais estrangeiros no Brasil do que os imigrantes da Europa”, como ele disse, já que não dispunha do conceito e da palavra atuais. Euclides tinha estudado engenharia na universidade determinista de seu tempo e, pago por um jornal carioca, serviu de correspondente da guerra. Saiu do Rio de Janeiro crente que ia ver uma realidade. Mas viu outra. Do morro da Favela, de onde testemunhou a luta na planície à sua frente, enviou para o jornal os primeiros textos acerca do fato. Depois da destruição do arraial, lutou cinco anos com as palavras e as ideias de seu tempo (lembro que já li alguém dizer que elas constituíram uma verdadeira camisa de varas para Euclides) e terminou por escrever uma das obras fundamentais da nossa inteligência – um texto com que um brasileiro descobriu o Brasil e registrou-o, ultrapassando o jeito de pensar europeu: feito muitos cariocas, Euclides interpretava o episódio como uma revolta monarquista que queria atrasar o Brasil; mas, ao chegar lá, o que viu foi um problema político e social e uma população que desmentia tudo o que aprendera. Em outras palavras: embora aquela população pertencesse a uma “raça inferior”, na verdade, resistia heroicamente às investidas do exército e sobrevivia sem o Estado e sem a Igreja, num ambiente inóspito. Repousa aí exatamente a questão central do arraial e da região que o continha: essas instituições, que deveriam garantir uma assistência mínima àquela população, estavam concentradas na região sudeste e, na verdade, tinham-na abandonado à sua própria sorte. Ou melhor: tinham não só esquecido aquela população mas também estavam ali fortemente armadas atirando contra ela. A indignação de Euclides ao longo de seu texto traduz muita coisa, mas, principalmente, a violência contra o diferente e mais fraco.
O que temos hoje a ver com isso? Simplesmente, tudo.
Ao longo do século XX, a população do campo veio para as grandes cidades do litoral e se instalou nas favelas, uma verdadeira remontagem do arraial de Canudos sob nossos olhos coniventes. A ligação é tão forte, que a palavra “cortiço”, usada no final do século XIX, foi trocada por “favela”, aquela que vinha da pena de Euclides quando identificava o lugar de onde observou o conflito naquele distante e próximo 1897. Sem possibilidades de inserção e excluída dos serviços básicos do estado, essa população – agora urbana – constitui ainda um segundo país e precisa de ferramentas de cidadania, como escolas e profissionalização, bancos, projetos políticos inclusivos de saúde e de proteção ou segurança, como nós outros brasileiros. Entretanto continuamos cometendo contra ela o mesmo erro lá do final do século XIX: armados até os dentes – o que inclui o coração –, fazemos invasões e intervenções preconceituosas e brutais que tentam calar sua voz que, como pode, exige ser ouvida.
Cada assalto que se encena nas nossas atuais cidades nada mais é do que a atualização desse conflito entre dois “Brasis” que não acertam a caminhar juntos: a polícia e, às vezes, o próprio exército continuam a fazer o papel de atirar em uns a mando dos outros, tudo temperado com preconceito, ignorância e interesses escusos em manter o status quo estapafúrdio de conservar um país inteiro para usufruto de apenas 10% de sua população.
É difícil viver num país tão cheio de contradições. Mais difícil ainda quando, ao pensar nelas, colocamos sexo, cor e classe nas ideias. Mais difícil ainda quando resolvemos usar armas e não palavras nos enfrentamentos...
Mia Couto talvez me ajude a terminar este texto aflito de hoje: no seu livro “A confissão da leoa”, ele trabalha os efeitos nefastos do processo colonial que vitimou seu país e o nosso e diz, corajosamente, que costumamos responsabilizar “os de fora” pelos nossos problemas e não enfrentamos as questões “de dentro”. Encaremos: somos um país com um povo cortado dentro, temos sequelas daquela divisão colonial que nos separava entre senhores e escravos. Está mais do que na hora de nos ouvirmos uns aos outros. Quando há circulação de palavras, o sangue deixa de correr. A palavra dita, buscada, escrita, sonhada, desejada, ouvida, partilhada... é, como diz Mia Couto, a única roupa que temos contra a violência com a qual insistimos em viver e que nos vitima cotidianamente. Basta de repetir erros que já cometemos no passado, por preguiça de ler e discutir com respeito e profundidade. E de achar que manchetes simplórias dão conta de nossas complexidades. Somos seres com passado, inescapavelmente, e precisamos ir na direção de um futuro que fale a língua da tolerância, um idioma que só pode ser inventado quando o exercício da palavra tomar o lugar das armas.

sábado, janeiro 20, 2018

Verdade

Não sei quem és:
uma fração do que desejo
outra não?

Estava só
na minha frágil
e sutil
coerência...

Aí vieram
de várias direções
ventos
inevitáveis
que compuseram
o quase
a que estou
reduzida.

quarta-feira, dezembro 06, 2017

Destino

Meu projeto
inacabado sempre
de ser
evolui...

Metade dele
é irredutível:
repousa
descansado
nas minhas
razões
escondidas.

A outra
mora no mundo
e desordena
as formas achadas
com sua marés
de impasses...

segunda-feira, novembro 20, 2017

Fundamento

Só longemente
coerente,
minha mão
pegou a tua.

Teve medo,
é claro.

Mas é
próprio meu
também
o diferente.

domingo, outubro 15, 2017

AMOR

Gosto muito de palavras e tenho uma especial curiosidade sobre elas. Um amigo que sabe disso me provocou, perguntando-me a diferença entre as palavras “amor” e “amizade”. Eu não acertei a responder de imediato; passei um tempo pensando e, em seguida, comecei a ler e a fazer perguntas a mim mesma ou a outras pessoas... Quando começo a fazer isso, as palavras sobre as quais estou pensando começam a revelar os seus ladinhos, como um diamante, e a minha relação com elas muda totalmente... E elas ficam minhas de um jeito bem particular... De início, conforme já disse por aí, procuro-as nos dicionários, mas isso nem sempre traz resultados satisfatórios: neles as palavras estão meio mortas, fora de contexto, não têm a beleza de pertencerem a alguém ou de serem colocadas em lugares inusitados e criativos, certas pessoas têm essa habilidade...
Pois bem, em português a palavra AMOR tem uns quatro ou cinco significados, de acordo com o meu Houaiss; confesso que não acertei direito a contá-los: o de ser um sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem; um sentimento de dedicação absoluta de um ser a outro, ou a uma causa; ou uma inclinação ditada por laços de família; ou mesmo pelo sexo; um apego profundo a valor, coisa, ou animal; ou uma devoção extrema ou o objeto mesmo do amor. Se não acertei nem a contar os significados, vê-se que não apreciei o resultado da pesquisa. Aí fui lá nas raízes antigas de nossa língua e terminei por achar algumas palavras que me ajudaram a arrumar melhor as compreensões.
A primeira palavra que achei foi PHILAUTIA, o amor que sentimos por nós mesmos, isto é, a autoestima. Esse amor corre o risco de aparecer de forma falsa, traduzida em arrogância e narcisismo, temperados com gosto pelo dinheiro, pela fama e pelo poder. Em contraste a essa postura, entretanto, uma saudável aplicação desse amor resulta em compromisso de cuidar de nós mesmos e, por conseguinte, dos outros. Parece que todos os outros amores resultam desse, pois só é capaz de amar aquele que se ama. E aquele que sabe que o amor é a favor de todos os envolvidos.
A segunda palavra é STORGE, que é o amor demarcado, como diz João Guimarães Rosa, entre irmãos ou parentes: nós não os escolhemos... Por algum propósito invisível, eles vieram ao mundo para dividir conosco muitas espécies de espaços. Viver esse amor é aprender a dor de tudo repartido. Pior: tudo importante repartido. Esse amor pode ser bem difícil, pois essa partilha obrigatória exige reciprocidade, disciplina e grande esforço de compreensão e de perdão. Em contrapartida, se exitoso, esse amor pode ser um de nossos últimos abrigos: todos conhecem irmãos que se tornaram grandes amigos na última parte da vida. Essa forma de amor pode não ser entre iguais, conforme o caso de pais que amam seus filhos de tal forma que sacrificam por eles a comodidade de uma vida inteira. Dizem as más línguas que é por causa desse amor que existem psicólogos e psiquiatras, mas eu discordo. Na verdade, somos um todo indivisível e, quando erramos num amor, tendemos a errar nos outros, isto é, se não acertamos a exercer o amor STORGE, temos grande chance de errar no EROS, por exemplo, cometendo o mesmo erro. O problema é que não conseguimos enxergar e seguimos levando a vida de embolada, como dizia a minha avó...
ÁGAPE é o amor com que Deus nos ama e com que devemos tentar amar o próximo. Acredito que amamos o distante ou o diferente com a palavra “tolerância”, que não está muito presente aqui. As palavras com que se pode temperar este amor chamado ÁGAPE são “aceitação” e “incondicionalidade”. É um amor que não espera nada em troca e com o qual podemos amar até nossos inimigos. Ele também traduz o sentimento desprendido e abstrato de algumas pessoas pela humanidade, pelo planeta, ou pelo universo. Talvez seja esse o amor que algumas pessoas têm pelos animais.
A quarta palavra é PHILOS, que é o amor escolhido dos amigos. Acho que ninguém optaria por viver sem eles, já que somos seres sociais. Pode ser mais fácil do que o STORGE, se bem que cada amor apresenta certo grau de dificuldade, pois amar é um desafio, às vezes, desconcertante. O PHILOS é a forma de amor menos natural, já que nela não existem laços de sangue, nem de desejo; é também o amor da troca, pois acontece entre iguais. Costumamos mais traduzi-la com o verbo “gostar”.
A quinta palavra é PRAGMA, que é um amor com que pretendemos alcançar um bem maior: nele o romance e a atração ficam secundarizados, evidentemente sem serem anulados, em favor de metas compartilhadas. Esse tipo de sentimento aparece em casais que se formaram a partir de matrimônios arranjados, ainda comuns em algumas partes do mundo; ou inspira outros a manterem o relacionamento por causa dos filhos ou da concretização do conceito de família funcional ou estruturante, aprendido por capilaridade social ou familiar; ou é um ponto de chegada evolutivo de relações que começam por motivos que não são suficientes para conservá-las por muito tempo. O segredo desse amor é a dose de sexualidade com que se consegue temperar a relação para não deixá-la vulnerável ao ataque do vendado Eros, deus mitológico que atira aleatoriamente e costuma acertar algumas flechas nos mais desavisados pragmáticos. Algumas de nossas disfunções familiares acontecem em virtude da quebra desse verdadeiro pacto, a qual tem feito rios de lágrimas ao longo de nossa história; ou da incapacidade de alguns de permanecerem no patamar desse amor que se apoia em altruísmo e não em exigência.
Por fim, alguns textos referem uma diferença entre as palavras LUDUS e EROS. LUDUS seria o oposto de PRAGMA, embora possa crescer para outras formas, à medida que o tempo passe e as circunstâncias mudem; a forma LUDUS de amor é definida como brincadeira, alegria e falta de compromisso, como no caso de amigos que fazem sexo; dizem os entendidos que, com o tempo, ela tende a desaparecer ou a se transformar em PHILIA ou EROS. Por sua vez, o amor EROS não é um amor de troca, principalmente, uma vez que tem certo apelo ou expectativa de satisfação pessoal. Ainda que possa incluir sentimentos verdadeiros pelo outro, EROS é mais um amor próprio do que altruísta. Liga-se à atração física e ao sexo e é dele que falamos quando dizemos as palavras “amor” e “paixão”. Apesar de perigosíssimo, nós o perseguimos e, quando o encontramos, somos totalmente dirigidos e dominados por ele, que nos tira de tempo e de lógica. É por causa desse amor que cometemos os crimes passionais e nos metemos nas maiores encrencas; esse tipo de amor, na maioria das vezes, tem prazo de validade de poucos anos, pois esgota os amantes, que se sentem, com o tempo, asfixiados e isolados do convívio social do qual terminam por sentir falta. Alguns de nós só conseguem viver o amor, se sentirem “esse” amor, e seguem trocando de parceiros vida afora, sem conseguir estabilidade emocional, sempre dentro do turbilhão destrutivo de sentimentos que só EROS é capaz de trazer. Manuel Bandeira tem um poema muito bonito chamado “Arte de amar”, no qual afirma que, caso se queira sentir a felicidade de amar, tem-se que esquecer a alma, a qual só encontra satisfação em Deus ou fora do mundo, além de ser incomunicável. Finaliza asseverando que só os corpos se entendem. Seu raciocínio leva a crer que, diferentemente do acima constatado, EROS é um tipo de relacionamento que leva à compreensão e à paz, as quais, de fato, não são atingíveis quando tão grandes e exigentes doses de autossatisfação são entremeadas – é claro que as crescentes demandas de gozo e satisfação exaurem os amantes, depois de, muitas vezes, os terem levado a ações questionáveis, como brigar, agredir, matar, mentir, trair, cobrar, abandonar filhos, as quais, na sua vigência, parecem apenas apimentar a relação, mas, na verdade, ferem e ameaçam a felicidade possível de muita gente.
Na minha opinião, transitamos o tempo todo entre esses amores e os intercambiamos. Às vezes, nossa autoestima está baixa, às vezes alta; de vez em quando, passamos por crises no STORGE que duram muitos anos, mas conseguimos reverter; ao longo de um relacionamento amoroso, o amor EROS ou o PRAGMA dirigem nossas ações; temos períodos em que buscamos mais ou menos a companhia de nossos amigos; encaramos o sexo de forma mais ou menos lúdica... Entretanto uma coisa precisamos entender: o amor, seja ele qual for, não nos traz só felicidade. Drummond, num poema lindo chamado “Campo de flores”, refere-se às duas mãos do amor − uma que acaricia, outra que carrega o “grão de angústias”... E, às vezes, nem acho que é só um grão, é sofrimento grande e difícil... O amor, embora tanto o queiramos e o liguemos à nossa felicidade, é difícil, exige tolerância, ação e diálogo, machuca, confronta quereres e, o pior: cursa imprevisivelmente, porque é um componente da vida que, diferentemente da navegação, é imprecisa, como bem o disse Fernando Pessoa (revendo com cuidado essa colocação, percebo que, mesmo a navegação inclui desastres assombrosos, já estou na dúvida se o poeta foi tão feliz assim na sua metáfora).
Estou pensando agora que, no contexto de nossas relações amorosas, feliz ou infelizmente, não sei ao certo, esgotamos experiências num patamar da nossa existência e, para continuarmos nos desenvolvendo, precisamos ir adiante... Mas com o nosso parceiro ou parceira não acontece a mesma coisa... Nessa situação, que pode incluir separações conjugais, antigamente, precisávamos armar as maiores hipocrisias sociais, por dependência econômica, impossibilidade de novos formatos conjugais, questões jurídicas... Hoje nada disso é impedimento para um número cada vez maior de pessoas: independentemente da idade – já que usufruímos de uma maior expectativa de vida –, nos separamos, recasamos ou não, moramos em casas diferentes, armamos relacionamentos abertos, homoafetivos e mais coisas além, inventamos “harmonias bonitas e possíveis sem juízo final”, como diz Caetano Veloso, e continuamos a fazer História que, no fundo, são cisões comportamentais e cognitivas adaptativas. É claro que entre nós sempre há e haverá níveis maiores ou menores de adesão ao acervo de tradições e formatos históricos mais conservadores; entretanto verifico que nunca vivemos, como espécie, numa sociedade tão plástica e tão acolhedora de novos arranjos matrimoniais, embora eu não possa deixar de verificar as violências ainda existentes, em virtude das ambiguidades e dificuldades inescapáveis à nossa condição humana.
O que não podemos é desistir da utopia de nos relacionar a dois com afeto. Não sei direito o que significa essa palavra (de novo o dicionário não ajudou). Mas desconfio de que posso, inclusive, fixar neste texto um significado: estou usando-a num sentido próximo de “generosidade” e “esforço”. A experiência de doação/posse irrestrita e íntima, decorrente de um processo de desnudamento muito além do corpo, é das mais comoventes entre nós. Reduzi-la a um embate apenas material é perder de vista aquilo que há em nós de possibilidade de acolhimento profundo do outro. Não quero encobrir o vigor inegável com que se dá esse encontro, que, inclusive, é uma das realizações mais bem acabadas das incongruências em que nos movemos. Nem idealizar nossas relações tão cheias de defeitos. Quero contemplar nossas complexidades e nossas fomes e sedes, que não são apenas de alimento e água: também carecemos de ser psiquicamente acolhidos, e isso não é possível quando apenas a biologia é considerada. Esse algo além do corpo, que é nosso tutano primeiro, implora por gestos e permissões inventados, dialogados e compartilhados “parmente”, o que termina por gerar em cada dois uma gramática relacional única e bonita.
A história de que “sexo” e “amor” são duas palavras separadas, não tem lógica; pode até ser mais simples pensar assim ou pode ser um jeito de garantir satisfação sexual num tempo hedonista em que se confunde desejo com direito. Mas não acho que simplificações estão trazendo felicidade, só liberdade – e uma sem a outra, pelo menos para mim, não é suficiente. Também não acho que ser feliz a dois independe, por completo, das narrativas sociais, pois o amor, o afeto e outras “palavras” que usei aqui são também uma construção grupal. Enfim, não acredito na felicidade de um casal alcançada com traição e mentiras: o afeto é um rio de água limpa, e a generosidade não pode existir entre dois se não estiver presente entre muitos; conforme já disse, não acredito que uma pessoa seja generosa em apenas uma das esferas de sua vida, já que não somos seres com gavetas comportamentais.
Amar a dois é difícil: por ser o amor uma construção histórica e, portanto, mudar de sentido; por envolver pessoas cujas funções, papéis e ontologias são também mutantes; por exigir o melhor de nós; por obrigar a alteridade; por atuarmos num palco ambíguo e contaminado por nossos defeitos; por estarmos lidando com novos conceitos de “feminino” e “masculino”, por sentirmos tudo isso como ameaças a que devemos reagir; por vivermos num tempo em que alimentamos demais os interesses pessoais... Em contrapartida, em nome do amor, criamos descendência; riquezas; valores; sentidos; identificações; novos desejos, trajetos e compreensões... Infelizmente, cada repressão suplantada revela tantas outras dificuldades... Esse acervo de erros e acertos está guardado nas nossas palavras: poemas, narrativas, depoimentos, roteiros de filmes e peças teatrais preservam nossos êxitos, decepções, lágrimas, expectativas, medos, sonhos...
Então: partindo do poeta argentino Fernando Birri, finalizo dizendo que a palavra “afeto” agora é minha utopia: ela está lá no horizonte... Quando dou dois passos na sua direção, ela se afasta dois passos; quando dou dez passos, ela se distancia dez passos... Caso me perguntem para que raios serve tudo isso, eu explicarei: a palavra “afeto”– a que agreguei os mais delicados gestos e os mais exclusivos desejos – é uma bússola que me ajuda a seguir...