domingo, maio 27, 2018

Outro amor e seu tempo - para Ana e Yves


Nesta escuridão,
apenas tocam-se
coisas mortas.

O milagre de ver
não é gratuito:
só um esforço
de luz enxerga
as vestes de folhas
das árvores;
a frescura do vento
invisível
com o enfeite inútil
dos pássaros;
a água do rio
que salva
sem saber;
o mar e suas marés
insistentes;
as auroras,
resumo
do giro mudo
das galáxias...

Assim, não se mede
pelo tempo
nem somente
pelo corpo
(de que é apenas
eco distorcido)
esse amor refeito
no desenho
difícil do milagre,
quando é tarde –
tempo de saber-se
e saciar-se;
de aprender-se
o valor das coisas
repetidas e mínimas,
o sentido
nesse absurdo de existir.

Por isso
este poema
que louva
a teimosia do desejo
no corpo ferido
sem medo, entretanto,
dos combates
já perdidos
que se lutam
no curso
claudicante
do amor.
E a peça luminosa
que se soma
de todo amor
que se luta,
para um mundo corrigido.

quarta-feira, abril 18, 2018

Carta para Antônio Paulo


         Fui assistir a duas palestras suas nos últimos sábados e achei tudo o que você disse pertinente. A primeira fala tinha um título interessante, algo sobre os maios de 68 que ainda vivemos e são herdeiros do original, e a segunda trazia como título “Desmedidas na cidadania: reflexões sobre a agressividade cotidiana”. Principalmente essa segunda me pegou de jeito, pois você expôs ideias que se encontram com temas sobre os quais venho pensando e, confesso, nos quais venho me perdendo, como num labirinto do qual não consigo sair.
Aí entra este texto aflito que escrevo: ele é uma tentativa de ordenar as ideias e mesmo de pedir socorro para que você me ajude, com as leituras mais acadêmicas que você empreendeu, a arrumá-las ainda melhor, se é que minimamente conseguirei fazê-lo.
Estava tudo tão desarrumado, que comecei revendo, com cuidado, um filme chamado em português “Em um mundo melhor” (em dinamarquês, a língua da diretora Simonne Bier, ele se chama “Vingança”). É um filme sobre a dificuldade de se articular uma saída para a violência, com/em que nos movemos, e que se passa dentro de uma oposição, a princípio, simplista: o personagem central Anton é um homem bom que vive cercado de dificuldades, feito a maioria de nós, seres humanos, ao longo do processo de nossa história agônica. Aliás, Nikos Kazantzakis, escritor grego, tem uma frase que nos ajuda a prosseguir a análise: “Não sei como é a alma de um criminoso, mas a alma do homem honesto, do homem bom, é um inferno”.
Nesse contexto, somos apresentados aos conflitos do enredo: Anton é sueco, vive na Dinamarca e vai sistematicamente ao Sudão dar assistência médica num acampamento de refugiados. O filme se tece dentro de uma paratopia, palavra prima de duas outras – “utopia” e “distopia” que, respectivamente, significam o sonho com um mundo futuro melhor e a elaboração de nossos medos de um mundo futuro pior. Posso, então, a partir do título em português, afirmar que as duas últimas palavras também estão presentes no filme, apesar da ausência. A paratopia (“para” de proximidade e “topia” de lugar), por seu turno, se refere àquilo que está fora de lugar ou deslocado; um sujeito paratópico, por exemplo, seria alguém situado numa localização paradoxal: ele está integrado a uma sociedade, mas, ao mesmo tempo, distante dela. O personagem do filme, Anton, encontra-se deslocado de várias formas – se encontra em um lugar que não é o seu, se desloca de um lugar para outro sem se fixar e é alguém que não encontra um lugar. 
Isso tudo significa que estamos usando aqui de novo a arte como tecnologia de ponta para, sem riscos maiores, avançar nas discussões que precisamos travar entre nós.
Críticos politicamente corretos acusaram o filme de ser eurocêntrico e de tratar a violência nos dois lugares, sem considerar as medidas de proporção. Discordo totalmente, porque tenho problemas de cubagem, como já disse minha cunhada, e porque já li “Coração das trevas”, de Joseph Conrad, um dos livros que me ensinaram que as utopias, as distopias e as paratopias são perigosas, mas necessárias. Porque precisamos experimentar nossos medos, nossos preconceitos, nossas semelhanças, nossas diferenças, nosso ódio, nossa violência, ou seja, nossas dificuldades de relacionamento, por meio de nossas ficções (e, em última instância, por meio das palavras de que dispomos) para que tudo isso se dilua devagar. Não acredito que deixar de investir nessa ideia nos leve a um mundo melhor, que é o que de verdade viemos cada um de nós fazer. Nem me parece lógico que as gerações se sucedem para que o mundo fique cada vez pior, isso seria um contrassenso evolutivo, que o sucesso de nossa espécie nega, se avaliarmos o nosso trajeto sem erros de cubagem. É que, quando pensamos, levamos em consideração que a vida é salmoura em nossas feridas e, frequentemente, falamos de nossa dor com hipérboles válidas, é claro, mas que mostram visões distorcidas: não vivemos pior do que na Idade Média, ou mesmo na Moderna, embora nossa história tenha sido tecida de erros horríveis. Mas não só. Era esse um dos “lugares” a que eu queria chegar...  
Há quase vinte anos, aprendi uma coisa bem clara, ou talvez eu já soubesse, não sei... E o que consegui foi um exemplo narrativo para dar a meus alunos, não sei... Também não sei se foi o meu momento... Um dos meus filhos tinha se tornado deficiente, depois de uma longa e rara doença neurológica... Eu estava em Brasília para seu tratamento em um famoso hospital de lá, especializado em problemas locomotores... Fui, num fim de semana, dar um passeio com ele... E tive acesso, numa espécie de pequeno museu, a uma explicação sobre o fato de o zoológico brasiliense se chamar Sílvio Delmar Hollenbach: o nome de um sargento do Exército que, no recinto, tinha sacrificado sua própria vida para salvar a de uma criança que caíra na jaula das ariranhas, no dia 27 de agosto de 1977, dia em que eu completava, exatamente, 20 anos. Aquela informação, naquele momento em que minha vida estava mudando para uma segunda parte, me pegou de jeito... E a guardei para sempre, não acerto mais a pensar sem ela: não somos só violentos e egoístas, também fazemos sacrifícios enormes uns pelos outros. Infelizmente, num raio de ação tão minúsculo e silencioso que tende a ser desconsiderado. Em contrapartida, o Mal é uma notícia espalhafatosa e corre solta, de boca em boca descuidadas... E terminamos por pensar que, maior que tudo, ele vence e se estabelece definitivo. Guimarães Rosa diz isso de uma forma deliciosa: “Deus come escondido, e o Diabo sai por toda parte lambendo o prato...”.
Nesse contexto, refletir sobre violência exige agregar ao raciocínio o seu contrário, sob pena de não se pensar a verdade a respeito de nossa natureza. E vice-versa: nenhum amor é só puro. O que temos que entender é que somos seres complexos que nos movemos dentro das maiores ambiguidades: o personagem do filme sobre o qual estamos pensando, por exemplo, está num desses momentos cruciais – traiu a mulher, está arrependido, momentaneamente separado, precisa do perdão de sua esposa, enfrenta as dificuldades de educar dois filhos, encara violências na África e na Dinamarca, acredita em ações pacifistas... E leva a sua vida tentando coordenar tudo isso com alguma coerência... Na verdade, é numa metonímia dessas que todos nós andamos... A simplificação desse ramerrão confuso é que está turvando tudo e nos impedindo de ir adiante nas nossas discussões e entendimentos.
Como você disse, e ninguém há de negar, constata-se uma crise dos valores do Iluminismo: a Razão redentora, a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade são “palavras” que perderam o sentido durante o século XX. Um mundo que guarda uma Dinamarca e um Sudão não tem razão, nem liberdade, nem igualdade, nem fraternidade.
Estamos ainda procurando as palavras com as quais montar novas utopias, que viver sem elas é se matar sem motivos todo dia e viver de angústias, sem as réstias de luz que norteiam e motivam...
Os personagens da narrativa experimentam, no curso do enredo, duas respostas à tensão da violência que os rodeia: reagem com violência e sem violência. E lidam com os efeitos que daí advêm.
Talvez, então, Bier nos peça mesmo é que pensemos na “palavra” consequência. Na Dinamarca e no Sudão, a violência escancara as contradições do processo civilizatório eurocêntrico e seus efeitos proporcionais, desproporcionais, suportáveis ou insuportáveis... Não há, portanto, raças piores ou melhores, nem culturas superiores e inferiores, nem um processo evolutivo linear e ininterrupto, nem um paradigma moral pertinente. Estamos fazendo história como somos: com avanços, retrocessos, dúvidas, medos, erros, acertos, enganos, confusões...
Além disso, a violência não é una: na Dinamarca, por exemplo, há limites em cheque que escancaram as soluções já encontradas – as crianças são violentas umas com as outras, e a direção da escola e a polícia não conseguem dar conta da violência entre elas, já que ela se esgueira, apesar do “pedagogês” e da ação politicamente correta e humanitária da polícia; no Sudão, não há limites – o campo de refugiados é um território sem lei, e a violência dali subverte os modelos culturais conhecidos.
A literatura já se atreveu a cutucar esse vespeiro no “Coração das trevas”, de Joseph Conrad, o qual, por causa do livro, foi acusado pelos africanos de racista: é que, embora tivesse a intenção de criticar o processo colonial, o autor era um homem de seu tempo, que usou o saber de seu tempo para fazê-lo. Ou seja: seu livro foi escrito no meio do furacão das ideias de Darwin. E deu no que deu. É claro que a discussão não anula o livro, ao contrário: ele e seus defeitos já nos ajudaram a ver muita coisa. E a ter mais cuidado. Em contrapartida, se tivermos receios demais, deixaremos de falar sobre o nosso “horror” (como o “Coração das trevas” nomeia) e de seguir em frente...
O clímax do filme é uma cena forte – depois de tentar agir com ética no Sudão, pretendendo, desesperadamente, dar algum sentido àquele acampamento e à sua presença nele, Anton é experimentado para além de seus limites e refuta se identificar com o Mal, como quem entende que um só homem não é capaz de consertar tudo, nem de impedir que as consequências de uma extrema violência se percam na sua própria espiral autofágica.
Esse era o segundo “lugar” a que eu queria chegar...  Anton, cercado de violências variadas, como quem atira uma pedra na água e observa, consciente ou conscientemente, agiu de três formas, num crescendo – fantasiou sobre sua superioridade moral, espetacularizou e, portanto, desconstruiu sua “didática do Bem”, pensou na sua própria responsabilidade, culpa ou conivência... E, então, sem saber o que mais fazer, depois do malogro das ações empreendidas, deixou que a criatura gerada se voltasse contra seu criador. Isto é: deixou (ou não pôde mais impedir, não sei ao certo) que a população vitimada matasse a pauladas o chefe da facção criminosa que a vitimava. A fortíssima cena descortina a ideia desesperada de que cada um de nós tem um raio de ação limitado e tem mesmo é que esperar que os excessos de violência se fodam (com licença da palavra) a si mesmos, embora dentro da nossa parte boa ainda possamos admitir responsabilidades inócuas molhadas de lágrimas... 
Rousseau, Victor Hugo e Charles Dickens ficariam horrorizados com tal raciocínio, mas os parâmetros do século XXI devem de fato ser outros. Talvez a ideia de que cada um de nós é conivente, por omissão, com a violência que nos cerca dilui a responsabilidade de quem de fato a cometeu e adia para nunca o acerto de contas do produtor dela com a lei, conforme, enfim, deve-se agir: a palavra como mediadora de nossos curtos circuitos.
É claro que estou pensando isso no conforto da ficção, tentando sair da arapuca da violência reinventada indefinidamente que constitui nossa convivência... E fazendo uso da palavra, que é o que recentemente tenho pensado e escrito sobre as saídas possíveis para os impasses sem bula que nos atropelam pela vida...  
Recentemente, um amigo, muito constrangido, confessou-me, bem baixinho, que se sente ofendido quando se levanta o raciocínio de que todo homem é, em potencial, um estuprador... Quero terminar este texto dizendo que sinto muito e que acredito de com força que ele não é responsável pela violência que apenas alguns homens cometem contra mulheres; que escrevi este texto porque estou cansada de generalizações simplistas vazias de perdão; que não é justo acusar a maioria das pessoas (que são motivadas pelo Bem, embora nem sempre acertem a fazer tudo certo) de serem responsáveis pela violência (e outras desgraças) que as cerca;  que estou com raiva de ideias que impedem outras novas de chegarem; que meu esforço de afeto e tolerância não reconhece o que tem a ver com o Mal sem limites; que estamos vivendo um tempo em que uma miríade de particularidades clama por validação e em que toda diferença pede permissão... Isso, portanto, pode significar que também podem estar em crise esses “parâmetros sociais abstratos” (do tipo “somos todos responsáveis pela violência da polícia”) os quais, ao fim e ao cabo, estão apenas servindo para nos empurrar uns contra os outros, sem clarificar novas respostas para as nossas perguntas de sempre – Até quando? E agora? O quê? Para quê?

domingo, março 18, 2018

Raimundo Carrero e o politicamente correto

Falar sobre Raimundo Carrero é uma tarefa desnecessária: nós todos o conhecemos bem, ele é dos nossos. Mas é claro que se pode conversar sobre ele, para mais nos conhecermos uns aos outros. Como não posso deixar de ser a professora de literatura para jovens que sempre fui, me arvoro do direito de dar uma aula de literatura para começar a organizar as ideias. Acho que preciso começar falando do Regionalismo e suas “faces” na literatura brasileira, para iniciar pensando o que Carrero não é.
Na verdade, o Regionalismo brasileiro nasceu romântico, fruto da necessidade de busca da identidade nacional, um longo e árduo percurso histórico ainda em curso, é claro. O processo colonial e todas as suas injunções criaram dificuldades inomináveis para o projeto de independência política e, consequentemente, cultural do país. Durante 300 anos, o Brasil não passou de um apêndice de Portugal, que, aqui, detinha poder absoluto.
Em 1822, uma série de episódios culminou com a Independência. No âmbito da cultura, coube ao Romantismo a tarefa de construir a correspondente independência cultural e, portanto, a consciência e o orgulho da nacionalidade. Nessa altura, o Brasil ainda tinha o "álibi" do processo colonial, ou seja, tudo o que havia de errado, aqui, devia-se à instalação, entre nós, desse pacto injusto e desfavorável: escravidão, atraso, dependência... Descortinava-se, então, no horizonte, um futuro grandioso – estávamos livres da “mala sem alça” que nos condenava ao negativismo e à vergonha de ser colônia.
Nesse contexto, o Romantismo descreveu o Brasil de modo idealizado. Florestas virgens, praias de areias brancas, mares verdes como esmeraldas líquidas, fauna ímpar (araras, jandaias, onças...), clima bom, céu de anil... Nesse verdadeiro paraíso terreal, colocou-se um habitante forte, orgulhoso, perfeito, bonito, bom, heroico. É nesse berço que nasce o nosso Regionalismo, filho do escritor cearense José de Alencar.
Nosso primeiro escritor de âmbito nacional, Alencar planejou sua obra, no sentido de construir um painel histórico-cultural do país. Ambientou livros nos séculos XVI, XVII, XVIII e no seu próprio tempo (primeira metade do século XIX), pois pretendeu descrever o país de cabo a rabo. Percorreu sua História, descreveu suas geografias, inventou o índio como herói necessário (o elemento que estava aqui antes de o português chegar; portanto, o mais genuíno brasileiro) e visitou as suas "sociologias". Foi no projeto dessa brasilidade que nasceu o seu Regionalismo, o qual mencionou tanto o sertão nordestino como os pampas gaúchos, dentro, é claro, desse mesmo diapasão idealizante – paisagem e homem são igualmente perfeitos.
Nos caminhos abertos por ele, o carioca Alfredo Taunay, descrevendo o Centro-oeste, e o cearense Franklin Távora, o Nordeste, proporcionaram ao país uma visão de si mesmo, necessária à construção do conceito de pátria que nascia.
Esse Regionalismo romântico não deixa de ser uma espécie de escapismo no tempo e no espaço; tem a ver com um desejo de compensação e fuga da realidade, típico do Romantismo, somado a uma necessidade de representação desse novo espaço social e político que se desenhava no Brasil – o país livre. Constrói-se pela supervalorização do pitoresco, da "cor local" (como diz a crítica). Ou seja: o Romantismo agrega à região valores, cores, sentimentos e qualidades que, na verdade, não lhe pertenciam, mas à cultura que nascia e precisava deles para crescer. Paralela à hipertrofia imagística e estilística, uma complacência com os aspectos negativos das respectivas regiões aparece, e somente é mostrado o seu lado positivo.
O tiro pela culatra desse Regionalismo é que ele beira a xenofobia.
No final do século XIX, o Regionalismo muda de roupa: despe-se do saudosismo, do escapismo e da idealização românticos para ganhar os contornos deterministas e cientificistas do período – o herói ganha estatura trágica, pois luta contra um ambiente inóspito e adverso que o vence, necessariamente. É o caso de outro cearense, Domingos Olímpio.
Mais tarde, já na década de 30 do século XX, o Regionalismo reaparece, no formato modernista; escrito numa linguagem e numa forma francamente antitradicionalistas, ele mantém a linha de determinação ambiental do século anterior e acrescenta à “receita” uma visão de esquerda, a princípio, que depois deságua em denúncia das questões sociais e políticas regionais, potencializadas pelo clima, quadro típico do Nordeste brasileiro. Observe-se que o Regionalismo, aqui, denuncia a estrutura agrária latifundiária, uma persistência colonial que resiste à modernização do país prometida pela Revolução de 30. A narração do confronto entre opressores e oprimidos ou entre adversários políticos esclarece o desenho dessa combinação explosiva de injustiça climática e política para o resto do país, que tinha curiosidade sobre essas especificidades (coronelismo, seca, retirada, messianismo, cangaço, latifúndio, patriarcalismo...).
Os paraibanos José Américo de Almeida e José Lins do Rego, a cearense Rachel de Queiroz, o alagoano Graciliano Ramos e o baiano Jorge Amado descrevem, a partir de várias perspectivas, um tempo de mudança, quando o país tirou o poder da mão dos proprietários de terra e o colocou na dos comerciantes, revirando a região e mesmo o país de ponta-cabeça. Esses escritores analisam, explicam, levantam causas, hipóteses, efeitos dessas transformações e o fazem por meio de um retrato realista e mesmo até naturalista da região. Com aspereza, saudade ou maciez, fotografam um mundo em mudança enquanto apresentam ao Brasil a região que deu o estopim da Revolução de 30.
Nesse momento, acham-se já delineados todos os “ingredientes” daquilo que se entende por Regionalismo, que tira sua substância não só da paisagem (clima, topografia, flora, fauna, elementos que afetam a vida humana na região...), mas também das riquezas culturais ou maneiras peculiares da sociedade humana estabelecida naquela região e que a fizeram distinta de qualquer outra (linguagem – modos de expressão nativos e populares, ritmos e sotaques diferentes; reações dos indivíduos; tradições; cultura; civilização; etnia; formas de cozinhar, vestir, morar; lendas; mitos; tipos; imagem; simbologia...).
A partir da publicação do colosso “Grande sertão: veredas”, do mineiro João Guimarães Rosa, desenha-se um novo Regionalismo na nossa literatura – o Regionalismo universalista, se é que se pode juntar as duas “palavras”. Tornado uma metonímia do mundo, o sertão de Minas Gerais, nessa obra, mantém suas especificidades, milimetricamente descritas no livro, mas ganha também contornos filosóficos, quando se torna o “mundo” ou o planeta onde se passa a vida dos homens. O narrador desse livro luta com as palavras escritas e faladas, e tudo o mais que se possa imaginar de experimentalismos e invencionices linguísticos, para contar sua história que pretende ser, espelhando a Bíblia, “a” história ou as histórias de todos os homens, na sua errática e difícil trajetória material. Também aqui se “encaixa” o paraibano Ariano Suassuna, cuja obra está contida nesse espaço tanto regional como humanístico.
É depois de Guimarães Rosa e Ariano Suassuna que está a obra do pernambucano Raimundo Carrero – nesse “locus” que não é mineiro nem pernambucano, nem paraibano. Mas tudo isso e mais coisas além.
Entretanto, não se pode dizer que Carrero é um escritor regionalista, como ainda se pode afirmar sobre Guimarães Rosa e Ariano Suassuna. Ele localiza suas histórias em lugar nenhum − com o homem dentro, sem livre arbítrio, carregado por um destino implacável, totalmente diferente do de Guimarães Rosa, cujo personagem Riobaldo, por exemplo, escreve (ou fala) e se escreve ou reescreve e reconstrói sua história ao longo do livro. Esse personagem é autor de sua narrativa e de sua vida; fez conscientemente suas escolhas, experimentou, pensou, refez caminhos e, na narração de sua vida, entende, explica, pensa, opina, analisa, analisa-se... Ariano também: na sua obra, no fim, Deus justifica, ordena e explica tudo, perdoa tudo; a ontologia esperançosa dos seres humanos é sua redenção... Em Ariano, tudo tem um sentido espiritual: os seres humanos encontram sua verdadeira natureza depois da morte.
Carrero não tem o olhar otimista de Guimarães Rosa, nem a aflita mas esperançosa visão de Ariano Suassuna: ele nos descortina o pior do ser humano – incesto, traição, estupros, assassinatos, tortura, loucura, exercício espúrio do poder, inversão de valores – em comportamentos incompreensíveis e inexplicáveis. Todos esses temas estão presentes em Guimarães Rosa e Ariano Suassuna, é verdade. Ou em qualquer grande escritor. Mas, em Carrero, não há sentido, nem perdão, nem redenção, nem esperança, nem explicação. Só, como diz João Guimarães Rosa, “o escuro, escuros”: Carrero não nos dá o alento de uma explicação, de um sentido; seus curtos romances terminam sem fim, seus personagens não se entendem, nem se explicam. São mamulengos de seus instintos animalescos e de forças inconscientes e ininteligíveis. São presas dramáticas do destino. Sua “acomodação” num enredo sem referências de tempo e lugar, numa ambiência fantasmagórica parecida com a das tragédias gregas antigas, obriga-os a agirem sem entender suas próprias ações. E isso tudo nos carrega para “trás” dos poucos acontecimentos, onde estão localizadas as forças animalescas e brutais, próprias daquela natureza que todos sabemos que temos, mas que decidimos esconder no curso de nosso processo civilizatório.
Como num jogo de cartas em que nada se pode prevenir, alguns dos seus personagens são empurrados para experienciar o Mal que existe em si mesmos e para materializar as mais sórdidas e estapafúrdias ações, as quais nunca surpreendem os outros, pois de cada um ou de todos se esperam apenas brutalidades e violências.
Inicialmente localizado por Ariano Suassuna no Movimento Armorial (que reconfigura o popular regional imbricando-o com o erudito, numa ludicidade que se fortalece no casamento entre forma e conteúdo), Carrero, na verdade, nem se compromete com a região Nordeste e o popular, nem com a tradição temática erudita, muito menos com a exuberância linguística e descritiva de Suassuna. Ao contrário:  sua linguagem lacônica e claudicante, cheia de pontos finais, nos obriga a parar o tempo todo e a respirar curto, como depois de correr, o que expande o paroxismo do conteúdo.
    Embora sua ambiência, sua temática e sua linguagem sejam essas, Raimundo Carrero não está só − é herdeiro de uma linha que quebra o beletrismo de nossa tradição literária; Lima Barreto, Augusto dos Anjos, Rachel de Queiroz, José Américo de Almeida, Graciliano Ramos ou mesmo João Cabral de Melo Neto são companhias mencionáveis, em virtude do fato de suas obras quebrarem o conceito de “lírico”, “belo” e “lógico”, à proporção que inauguram, a seu modo, novos conceitos de belo. Como eles, Carrero quebra expectativas e conceitos, tematizando as profundezas humanas num tempo que quer apagá-las.
Vem daí a verdadeira utilidade de seus textos nesses tempos politicamente corretos e simplificadores, tão contrários à literatura e suas funções mais escondidas, porém não menos importantes...
Esse “fogo amigo” do politicamente correto não é o primeiro inimigo da literatura: a religião talvez a tenha perseguido de início; depois foi a vez dos totalitarismos todos – de direita e de esquerda, infelizmente – que impuseram ou tentaram impor a ela censuras, fogueiras, exílio e toda sorte de mordaça... Mesmo nas democracias, houve impedimentos ao exercício pleno de todas as suas potencialidades. Mas nelas pelo menos se podia arengar e, paulatinamente, avançar na direção da ampliação da liberdade de expressão. E permanecer vivo. Que o diga Flaubert. No fundo, uma democracia precisa tolerar dissidências, sob pena de não poder ser considerada como tal.
Nascido da mais improvável brecha da democracia, o politicamente correto é uma espécie de cartilha (ora visível, ora invisível) que direciona como se deve falar ou escrever o que se quer falar ou escrever. Por incrível que possa parecer, esse comportamento existe – circula pelo WhatsApp, por exemplo, um “Manual para o uso não sexista da linguagem”. Difícil de ser questionado e relativizado, o politicamente correto carrega as melhores intenções. Mas é daquelas questões que terminam batendo no inferno pelo caminho das fórmulas dogmáticas e simplistas.
O problema que o politicamente correto tenta resolver é bem preocupante: há um empobrecimento dos sujeitos que se projeta no empobrecimento da linguagem. Jornalistas, professores, alunos, técnicos que projetam políticas educacionais... pretendem simplificar o aprendizado de língua no afã de democratizar a Educação. Nesse contexto, a sugestão, a conotação, a polissemia e a ironia, por exemplo – em última estância, uma espécie de tecnologia de ponta da comunicação – passaram a ser ferramentas mal conhecidas ou desconhecidas e, sem elas e sem o exercício de abertura dos sentidos que elas possibilitavam, a comunicação travou. E se fechou à alteridade, às nuances, às discordâncias, à complexidade, nossa mais primeira e tão esquecida característica. Tudo isso junto impede a reflexão. Por conseguinte, a razão invisível da simplificação mais inaceitável foi tomando corpo e realizando a afirmação infantilizada de uma verdade escrita em cartilhas que não traduz a heterogeneidade e a complexidade de nossa ontologia; e, portanto, de nossos pensares e sentires e falares e saberes...
A aceitação cega desse comportamento escamoteia uma colonização difícil de invisível. E nos divide em “bonzinhos que falam certo” e “mauzinhos que falam errado e por isso devem calar”. E nos subdivide em dois times de estátuas que se olham e se odeiam. Bataille e Freud já alertaram para o perigo disso: há uma diferença significativa entre ter feras visíveis, estudáveis, estudadas, pensadas, faladas, espetacularizadas na literatura (ou num zoológico ou num circo como metáforas) e soltá-las entre pessoas: é a diferença entre a convivência minimamente possível e a barbárie. 
Aquilo sobre o qual não se fala não desaparece – fica ali “nos crespos do homem”, conforme diz João Guimarães Rosa, e pode nos assaltar de repente. A literatura, portanto, seria uma prevenção contra esse “invivível”; ela elabora o conteúdo desses crespos ao passo que impede que ele se materialize em perseguições e assassinatos e violências de verdade; ela permite a ressignificação desses crespos de modo a tornar a nossa vida social possível, mesmo que não perfeita, o que de resto ela nunca será.
Carrero não é politicamente correto. Ele fala de assuntos ofensivos, é verdade.  Entretanto exercita a nossa capacidade de ouvir o que gostaríamos de silenciar; instiga-nos a mensurar o tamanho de nosso apreço à liberdade de expressão e desafia as nossas negociações tão difíceis nos terrenos da comunicação; convida-nos a enfrentar a vida (e seus inerentes medos, dificuldades, dores, tristezas, perdas, alegrias...) e a nossa ontologia e sua natureza sem nome de tão complexa e profunda. É desses escritores cuja leitura nos faz recuperar esse conteúdo sufocado (não perdido, nem apagado) pelo processo de civilização. E o melhor: nas palavras, podemos ressignificá-lo sem correr riscos, nem derramar sangue.    
Quem pensa que a arte deve se tornar politicamente correta não pensa: ameaça sufocar tudo com a fumaça de nossos crespos, por falta de cano de escape. E nos empurra no abismo de realizarmos a barbárie, não nas palavras, mas no real. Uns contra ou outros... Como deve ter acontecido com nossos ancestrais pré-históricos, quando ainda estava por nascer isto que chamamos de “humanos”.
Francamente não sei como terminar este texto com tantas ideias. Talvez com uma frase do crítico literário português Jacinto Prado Coelho, que disse não ser a literatura uma ferramenta para ensinar. E sequencia: “é a reflexão sobre a literatura que nos ensina”. Portanto, agradeço a Raimundo Carrero, que me ajudou, com seus textos e seus temas, a pensar nos motivos conscientes e inconscientes que me levam a olhar o politicamente correto com um pé atrás, a defender sempre a irrestrita liberdade de expressão e a justificar a literatura como um bem irrenunciável que nos auxiliou a chegar até aqui – neste tempo em que, apesar das náuseas referidas, começamos a falar e a pensar em tolerar a diferença e aceitar a diversidade. Tudo isso são palavras, ainda ameaçadas com armas e, mais recentemente com leis, é bom lembrar...
Enfim: cada palavra dessas é uma flor. Incompleta e feia, é verdade. Mas é uma flor.

quarta-feira, fevereiro 21, 2018

"Os Sertões", de Euclides da Cunha



Em virtude do programa do vestibular seriado da UPE, começo minhas aulas do terceiro ano do ensino médio tendo que conversar com meus alunos sobre o livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, que abre o Pré-modernismo, aqui no Brasil. Embora eu fique imaginando como deve ser estranho para os meus alunos ouvir falar de questões tão distantes de sua atual realidade mental, confesso que gosto de provocá-los e de pensar que participo um pouquinho da apresentação de fatos que ajudam a compreender os problemas do país e vislumbrar saídas. Mais do que tudo, acho que tenho que explicar com calma a eles que a guerra de Canudos não é, de jeito nenhum, uma realidade distante de nós. Na verdade, não dá para pensar o país sem lançar mão desse livro colossal – está tudo lá, ou estamos ainda lá.
“Os Sertões” chegou às livrarias em dezembro de 1902, cinco anos depois do fim do conflito que o gerou. Publicado pela editora carioca Laemmert, alcançou êxito imediato de público e de crítica. Já teve mais de 50 edições em português e foi traduzido em mais de 10 idiomas. Resultou da cobertura jornalística do conflito de Canudos, feita por Euclides para o jornal “O Estado de São Paulo”. O autor testemunhou os últimos meses da guerra (entre setembro e outubro de 1897), tendo participado da quarta e última expedição que dizimou Canudos sumariamente. Graças a ele, temos ideia hoje da real fisionomia dessa guerra: uma campanha de extermínio inaceitável, mesmo naquele violento final do século XIX, no violento país que acabava de sair do violento período da escravidão.
O problema talvez tenha aí seu ponto de partida: a abolição incompleta que foi arquitetada aqui no Brasil. Ou seja: os escravos restaram sem inserção, pois não houve reforma agrária, nem ampliação do acesso à educação no país; ficaram à margem da economia e, consequentemente, da sociedade. Nesse contexto, retirantes de seca, escravos fugidos, sem-terras, ex-escravos desempregados, isto é, excluídos de toda sorte começaram a se aboletar numa espécie de fazenda abandonada no sertão da Bahia e, liderados por Antônio Vicente Mendes Maciel, terminaram por fundar uma cidade marginal chamada Belo Monte, às margens do rio Vaza-Barris. Esse, digamos, acampamento começou a ameaçar a ordem política vigente na época, e algumas escaramuças surgiram; a primeira, em virtude de uma serraria não ter entregado aos sertanejos a madeira já paga com que eles pretendiam fazer uma igreja nova. A guerra toda durou quase um ano (de novembro de 1896 a outubro de 1897) e trucidou 5 mil soldados e entre 10 e 25 mil sertanejos, não há como saber ao certo.
Esta semana alguns episódios me fizeram lembrar o livro: um recado numa faixa que os habitantes da Rocinha mandaram para o STF (“Se prender Lula, o morro vai descer”); a solução para o problema da violência, proposta por um dos candidatos a presidente nas próximas eleições (metralhar as favelas); e a possibilidade de uma intervenção militar no Rio de Janeiro.
Para entender a relação entre os episódios, é preciso explicar devagar o que foi Canudos: uma guerra civil entre o que Euclides chamou de dois “Brasis” – um litorâneo e outro interiorano. De acordo com ele, o primeiro se ombreava com os países da Europa e tinha acesso à cidadania possível tanto lá como cá; o segundo era constituído de excluídos, como se diz hoje, ou de “brasileiros mais estrangeiros no Brasil do que os imigrantes da Europa”, como ele disse, já que não dispunha do conceito e da palavra atuais. Euclides tinha estudado engenharia na universidade determinista de seu tempo e, pago por um jornal carioca, serviu de correspondente da guerra. Saiu do Rio de Janeiro crente que ia ver uma realidade. Mas viu outra. Do morro da Favela, de onde testemunhou a luta na planície à sua frente, enviou para o jornal os primeiros textos acerca do fato. Depois da destruição do arraial, lutou cinco anos com as palavras e as ideias de seu tempo (lembro que já li alguém dizer que elas constituíram uma verdadeira camisa de varas para Euclides) e terminou por escrever uma das obras fundamentais da nossa inteligência – um texto com que um brasileiro descobriu o Brasil e registrou-o, ultrapassando o jeito de pensar europeu: feito muitos cariocas, Euclides interpretava o episódio como uma revolta monarquista que queria atrasar o Brasil; mas, ao chegar lá, o que viu foi um problema político e social e uma população que desmentia tudo o que aprendera. Em outras palavras: embora aquela população pertencesse a uma “raça inferior”, na verdade, resistia heroicamente às investidas do exército e sobrevivia sem o Estado e sem a Igreja, num ambiente inóspito. Repousa aí exatamente a questão central do arraial e da região que o continha: essas instituições, que deveriam garantir uma assistência mínima àquela população, estavam concentradas na região sudeste e, na verdade, tinham-na abandonado à sua própria sorte. Ou melhor: tinham não só esquecido aquela população mas também estavam ali fortemente armadas atirando contra ela. A indignação de Euclides ao longo de seu texto traduz muita coisa, mas, principalmente, a violência contra o diferente e mais fraco.
O que temos hoje a ver com isso? Simplesmente, tudo.
Ao longo do século XX, a população do campo veio para as grandes cidades do litoral e se instalou nas favelas, uma verdadeira remontagem do arraial de Canudos sob nossos olhos coniventes. A ligação é tão forte, que a palavra “cortiço”, usada no final do século XIX, foi trocada por “favela”, aquela que vinha da pena de Euclides quando identificava o lugar de onde observou o conflito naquele distante e próximo 1897. Sem possibilidades de inserção e excluída dos serviços básicos do estado, essa população – agora urbana – constitui ainda um segundo país e precisa de ferramentas de cidadania, como escolas e profissionalização, bancos, projetos políticos inclusivos de saúde e de proteção ou segurança, como nós outros brasileiros. Entretanto continuamos cometendo contra ela o mesmo erro lá do final do século XIX: armados até os dentes – o que inclui o coração –, fazemos invasões e intervenções preconceituosas e brutais que tentam calar sua voz que, como pode, exige ser ouvida.
Cada assalto que se encena nas nossas atuais cidades nada mais é do que a atualização desse conflito entre dois “Brasis” que não acertam a caminhar juntos: a polícia e, às vezes, o próprio exército continuam a fazer o papel de atirar em uns a mando dos outros, tudo temperado com preconceito, ignorância e interesses escusos em manter o status quo estapafúrdio de conservar um país inteiro para usufruto de apenas 10% de sua população.
É difícil viver num país tão cheio de contradições. Mais difícil ainda quando, ao pensar nelas, colocamos sexo, cor e classe nas ideias. Mais difícil ainda quando resolvemos usar armas e não palavras nos enfrentamentos...
Mia Couto talvez me ajude a terminar este texto aflito de hoje: no seu livro “A confissão da leoa”, ele trabalha os efeitos nefastos do processo colonial que vitimou seu país e o nosso e diz, corajosamente, que costumamos responsabilizar “os de fora” pelos nossos problemas e não enfrentamos as questões “de dentro”. Encaremos: somos um país com um povo cortado dentro, temos sequelas daquela divisão colonial que nos separava entre senhores e escravos. Está mais do que na hora de nos ouvirmos uns aos outros. Quando há circulação de palavras, o sangue deixa de correr. A palavra dita, buscada, escrita, sonhada, desejada, ouvida, partilhada... é, como diz Mia Couto, a única roupa que temos contra a violência com a qual insistimos em viver e que nos vitima cotidianamente. Basta de repetir erros que já cometemos no passado, por preguiça de ler e discutir com respeito e profundidade. E de achar que manchetes simplórias dão conta de nossas complexidades. Somos seres com passado, inescapavelmente, e precisamos ir na direção de um futuro que fale a língua da tolerância, um idioma que só pode ser inventado quando o exercício da palavra tomar o lugar das armas.

sábado, janeiro 20, 2018

Verdade

Não sei quem és:
uma fração do que desejo
outra não?

Estava só
na minha frágil
e sutil
coerência...

Aí vieram
de várias direções
ventos
inevitáveis
que compuseram
o quase
a que estou
reduzida.

quarta-feira, dezembro 06, 2017

Destino

Meu projeto
inacabado sempre
de ser
evolui...

Metade dele
é irredutível:
repousa
descansado
nas minhas
razões
escondidas.

A outra
mora no mundo
e desordena
as formas achadas
com sua marés
de impasses...

segunda-feira, novembro 20, 2017

Fundamento

Só longemente
coerente,
minha mão
pegou a tua.

Teve medo,
é claro.

Mas é
próprio meu
também
o diferente.