quarta-feira, fevereiro 21, 2018

"Os Sertões", de Euclides da Cunha



Em virtude do programa do vestibular seriado da UPE, começo minhas aulas do terceiro ano do ensino médio tendo que conversar com meus alunos sobre o livro “Os sertões”, de Euclides da Cunha, que abre o Pré-modernismo, aqui no Brasil. Embora eu fique imaginando como deve ser estranho para os meus alunos ouvir falar de questões tão distantes de sua atual realidade mental, confesso que gosto de provocá-los e de pensar que participo um pouquinho da apresentação de fatos que ajudam a compreender os problemas do país e vislumbrar saídas. Mais do que tudo, acho que tenho que explicar com calma a eles que a guerra de Canudos não é, de jeito nenhum, uma realidade distante de nós. Na verdade, não dá para pensar o país sem lançar mão desse livro colossal – está tudo lá, ou estamos ainda lá.
“Os sertões” chegou às livrarias em dezembro de 1902, cinco anos depois do fim do conflito que o gerou. Publicado pela editora carioca Laemmert, alcançou êxito imediato de público e de crítica. Já teve mais de 50 edições em português e foi traduzido em mais de 10 idiomas. Resultou da cobertura jornalística do conflito de Canudos, feita por Euclides para o jornal “O Estado de São Paulo”. O autor testemunhou os últimos meses da guerra (entre setembro e outubro de 1897), tendo participado da quarta e última expedição que dizimou Canudos sumariamente. Graças a ele, temos ideia hoje da real fisionomia dessa guerra: uma campanha de extermínio inaceitável, mesmo naquele violento final do século XIX, no violento país que acabava de sair do violento período da escravidão.
O problema talvez tenha aí seu ponto de partida: a abolição incompleta que foi arquitetada aqui no Brasil. Ou seja: os escravos restaram sem inserção, pois não houve reforma agrária, nem ampliação do acesso à educação no país; ficaram à margem da economia e, consequentemente, da sociedade. Nesse contexto, retirantes de seca, escravos fugidos, sem-terras, ex-escravos desempregados, isto é, excluídos de toda sorte começaram a se aboletar numa espécie de fazenda abandonada no sertão da Bahia e, liderados por Antônio Vicente Mendes Maciel, terminaram por fundar uma cidade marginal chamada Belo Monte, às margens do rio Vaza-Barris. Esse, digamos, acampamento começou a ameaçar a ordem política vigente na época, e algumas escaramuças surgiram; a primeira, em virtude de uma serraria não ter entregado aos sertanejos a madeira já paga com que eles pretendiam fazer uma igreja nova. A guerra toda durou quase um ano (de novembro de 1896 a outubro de 1897) e trucidou 5 mil soldados e entre 10 e 25 mil sertanejos, não há como saber ao certo.
Esta semana alguns episódios me fizeram lembrar o livro: um recado numa faixa que os habitantes da Rocinha mandaram para o STF (“Se prender Lula, o morro vai descer”); a solução para o problema da violência, proposta por um dos candidatos a presidente nas próximas eleições (metralhar as favelas); e a proposta de uma intervenção militar no Rio de Janeiro.
Para entender a relação entre os episódios, é preciso explicar devagar o que foi Canudos: uma guerra civil entre o que Euclides chamou de dois “Brasis” – um litorâneo e outro interiorano. De acordo com ele, o primeiro se ombreava com os países da Europa e tinha acesso à cidadania possível tanto lá como cá; o segundo era constituído de excluídos, como se diz hoje, ou de “brasileiros mais estrangeiros no Brasil do que os imigrantes da Europa”, como ele disse, já que não dispunha do conceito e da palavra atuais. Euclides tinha estudado engenharia na universidade determinista de seu tempo e, pago por um jornal carioca, serviu de correspondente da guerra. Saiu do Rio de Janeiro crente que ia ver uma realidade. Mas viu outra. Do morro da Favela, de onde testemunhou a luta na planície à sua frente, enviou para o jornal os primeiros textos acerca do fato. Depois da destruição do arraial, lutou cinco anos com as palavras e as ideias de seu tempo (lembro que já li alguém dizer que elas constituíram uma verdadeira camisa de varas para Euclides) e terminou por escrever uma das obras fundamentais da nossa inteligência – um texto com que um brasileiro descobriu o Brasil e registrou-o, ultrapassando o jeito de pensar europeu: feito muitos cariocas, Euclides interpretava o episódio como uma revolta monarquista que queria atrasar o Brasil; mas, ao chegar lá, o que viu foi um problema político e social e uma população que desmentia tudo o que aprendera. Em outras palavras: embora aquela população pertencesse a uma “raça inferior”, na verdade, resistia heroicamente às investidas do exército e sobrevivia sem o Estado e sem a Igreja, num ambiente inóspito. Repousa aí exatamente a questão central do arraial e da região que o continha: essas instituições, que deveriam garantir uma assistência mínima àquela população, estavam concentradas na região sudeste e, na verdade, tinham-na abandonado à sua própria sorte. Ou melhor: tinham não só esquecido aquela população mas também estavam ali fortemente armadas atirando contra ela. A indignação de Euclides ao longo de seu texto traduz muita coisa, mas, principalmente, a violência contra o diferente e mais fraco.
O que temos hoje a ver com isso? Simplesmente, tudo.
Ao longo do século XX, a população do campo veio para as grandes cidades do litoral e se instalou nas favelas, uma verdadeira remontagem do arraial de Canudos sob nossos olhos coniventes. A ligação é tão forte, que a palavra “cortiço”, usada no final do século XIX, foi trocada por “favela”, aquela que vinha da pena de Euclides quando identificava o lugar de onde observou o conflito naquele distante e próximo 1897. Sem possibilidades de inserção e excluída dos serviços básicos do estado, essa população – agora urbana – constitui ainda um segundo país e precisa de ferramentas de cidadania, como escolas e profissionalização, bancos, projetos políticos inclusivos de saúde e de proteção ou segurança, como nós outros brasileiros. Entretanto continuamos cometendo contra ela o mesmo erro lá do final do século XIX: armados até os dentes – o que inclui o coração –, fazemos invasões e intervenções preconceituosas e brutais que tentam calar sua voz que, como pode, exige ser ouvida.
Cada assalto que se encena nas nossas atuais cidades nada mais é do que a atualização desse conflito entre dois “Brasis”, que não acertam a caminhar juntos: a polícia e, às vezes, o próprio exército continuam a fazer o papel de atirar em uns a mando dos outros, tudo temperado com preconceito, ignorância e interesses escusos em manter o status quo estapafúrdio de conservar um país inteiro para usufruto de apenas 10% de sua população.
É difícil viver num país tão cheio de contradições. Mais difícil ainda quando, ao pensar nelas, colocamos sexo, cor e classe nas ideias. Mais difícil ainda quando resolvemos usar armas e não palavras nos enfrentamentos...
Mia Couto talvez me ajude a terminar este texto aflito de hoje: no seu livro “A confissão da leoa”, ele trabalha os efeitos nefastos do processo colonial que vitimou seu país e o nosso e diz, corajosamente, que costumamos responsabilizar “os de fora” pelos nossos problemas e não enfrentamos as questões “de dentro”. Encaremos: somos um país com um povo cortado dentro, temos sequelas daquela divisão colonial que nos separava entre senhores e escravos. Está mais do que na hora de nos ouvirmos uns aos outros. Quando há circulação de palavras, o sangue deixa de correr. A palavra dita, buscada, escrita, sonhada, desejada, ouvida, partilhada... é, como diz Mia Couto, a única roupa que temos contra a violência com a qual insistimos em viver e que nos vitima cotidianamente. Basta de repetir erros que já cometemos no passado, por preguiça de ler e discutir com respeito e profundidade. E de achar que manchetes simplórias dão conta de nossas complexidades. Somos seres com passado, inescapavelmente, e precisamos ir na direção de um futuro que fale a língua da tolerância, um idioma que só pode ser inventado quando o exercício da palavra tomar o lugar das armas.

sábado, janeiro 20, 2018

Guardando lugar no mês de janeiro...

quarta-feira, dezembro 06, 2017

Guardando lugar no mês de dezembro...

segunda-feira, novembro 20, 2017

Guardando lugar no mês de novembro...

domingo, outubro 15, 2017

AMOR

Gosto muito de palavras e tenho uma especial curiosidade sobre elas. Um amigo que sabe disso me provocou, perguntando-me a diferença entre as palavras “amor” e “amizade”. Eu não acertei a responder de imediato; passei um tempo pensando e, em seguida, comecei a ler e a fazer perguntas a mim mesma ou a outras pessoas... Quando começo a fazer isso, as palavras sobre as quais estou pensando começam a revelar os seus ladinhos, como um diamante, e a minha relação com elas muda totalmente... E elas ficam minhas de um jeito bem particular... De início, conforme já disse por aí, procuro-as nos dicionários, mas isso nem sempre traz resultados satisfatórios: neles as palavras estão meio mortas, fora de contexto, não têm a beleza de pertencerem a alguém ou de serem colocadas em lugares inusitados e criativos, certas pessoas têm essa habilidade...
Pois bem, em português a palavra AMOR tem uns quatro ou cinco significados, de acordo com o meu Houaiss; confesso que não acertei direito a contá-los: o de ser um sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem; um sentimento de dedicação absoluta de um ser a outro, ou a uma causa; ou uma inclinação ditada por laços de família; ou mesmo pelo sexo; um apego profundo a valor, coisa, ou animal; ou uma devoção extrema ou o objeto mesmo do amor. Se não acertei nem a contar os significados, vê-se que não apreciei o resultado da pesquisa. Aí fui lá nas raízes antigas de nossa língua e terminei por achar algumas palavras que me ajudaram a arrumar melhor as compreensões.
A primeira palavra que achei foi PHILAUTIA, o amor que sentimos por nós mesmos, isto é, a autoestima. Esse amor corre o risco de aparecer de forma falsa, traduzida em arrogância e narcisismo, temperados com gosto pelo dinheiro, pela fama e pelo poder. Em contraste a essa postura, entretanto, uma saudável aplicação desse amor resulta em compromisso de cuidar de nós mesmos e, por conseguinte, dos outros. Parece que todos os outros amores resultam desse, pois só é capaz de amar aquele que se ama. E aquele que sabe que o amor é a favor de todos os envolvidos.
A segunda palavra é STORGE, que é o amor demarcado, como diz João Guimarães Rosa, entre irmãos ou parentes: nós não os escolhemos... Por algum propósito invisível, eles vieram ao mundo para dividir conosco muitas espécies de espaços. Viver esse amor é aprender a dor de tudo repartido. Pior: tudo importante repartido. Esse amor pode ser bem difícil, pois essa partilha obrigatória exige reciprocidade, disciplina e grande esforço de compreensão e de perdão. Em contrapartida, se exitoso, esse amor pode ser um de nossos últimos abrigos: todos conhecem irmãos que se tornaram grandes amigos na última parte da vida. Essa forma de amor pode não ser entre iguais, conforme o caso de pais que amam seus filhos de tal forma que sacrificam por eles a comodidade de uma vida inteira. Dizem as más línguas que é por causa desse amor que existem psicólogos e psiquiatras, mas eu discordo. Na verdade, somos um todo indivisível e, quando erramos num amor, tendemos a errar nos outros, isto é, se não acertamos a exercer o amor STORGE, temos grande chance de errar no EROS, por exemplo, cometendo o mesmo erro. O problema é que não conseguimos enxergar e seguimos levando a vida de embolada, como dizia a minha avó...
ÁGAPE é o amor com que Deus nos ama e com que devemos tentar amar o próximo. Acredito que amamos o distante ou o diferente com a palavra “tolerância”, que não está muito presente aqui. As palavras com que se pode temperar este amor chamado ÁGAPE são “aceitação” e “incondicionalidade”. É um amor que não espera nada em troca e com o qual podemos amar até nossos inimigos. Ele também traduz o sentimento desprendido e abstrato de algumas pessoas pela humanidade, pelo planeta, ou pelo universo. Talvez seja esse o amor que algumas pessoas têm pelos animais.
A quarta palavra é PHILOS, que é o amor escolhido dos amigos. Acho que ninguém optaria por viver sem eles, já que somos seres sociais. Pode ser mais fácil do que o STORGE, se bem que cada amor apresenta certo grau de dificuldade, pois amar é um desafio, às vezes, desconcertante. O PHILOS é a forma de amor menos natural, já que nela não existem laços de sangue, nem de desejo; é também o amor da troca, pois acontece entre iguais. Costumamos mais traduzi-la com o verbo “gostar”.
A quinta palavra é PRAGMA, que é um amor com que pretendemos alcançar um bem maior: nele o romance e a atração ficam secundarizados, evidentemente sem serem anulados, em favor de metas compartilhadas. Esse tipo de sentimento aparece em casais que se formaram a partir de matrimônios arranjados, ainda comuns em algumas partes do mundo; ou inspira outros a manterem o relacionamento por causa dos filhos ou da concretização do conceito de família funcional ou estruturante, aprendido por capilaridade social ou familiar; ou é um ponto de chegada evolutivo de relações que começam por motivos que não são suficientes para conservá-las por muito tempo. O segredo desse amor é a dose de sexualidade com que se consegue temperar a relação para não deixá-la vulnerável ao ataque do vendado Eros, deus mitológico que atira aleatoriamente e costuma acertar algumas flechas nos mais desavisados pragmáticos. Algumas de nossas disfunções familiares acontecem em virtude da quebra desse verdadeiro pacto, a qual tem feito rios de lágrimas ao longo de nossa história; ou da incapacidade de alguns de permanecerem no patamar desse amor que se apoia em altruísmo e não em exigência.
Por fim, alguns textos referem uma diferença entre as palavras LUDUS e EROS. LUDUS seria o oposto de PRAGMA, embora possa crescer para outras formas, à medida que o tempo passe e as circunstâncias mudem; a forma LUDUS de amor é definida como brincadeira, alegria e falta de compromisso, como no caso de amigos que fazem sexo; dizem os entendidos que, com o tempo, ela tende a desaparecer ou a se transformar em PHILIA ou EROS. Por sua vez, o amor EROS não é um amor de troca, principalmente, uma vez que tem certo apelo ou expectativa de satisfação pessoal. Ainda que possa incluir sentimentos verdadeiros pelo outro, EROS é mais um amor próprio do que altruísta. Liga-se à atração física e ao sexo e é dele que falamos quando dizemos as palavras “amor” e “paixão”. Apesar de perigosíssimo, nós o perseguimos e, quando o encontramos, somos totalmente dirigidos e dominados por ele, que nos tira de tempo e de lógica. É por causa desse amor que cometemos os crimes passionais e nos metemos nas maiores encrencas; esse tipo de amor, na maioria das vezes, tem prazo de validade de poucos anos, pois esgota os amantes, que se sentem, com o tempo, asfixiados e isolados do convívio social do qual terminam por sentir falta. Alguns de nós só conseguem viver o amor, se sentirem “esse” amor, e seguem trocando de parceiros vida afora, sem conseguir estabilidade emocional, sempre dentro do turbilhão destrutivo de sentimentos que só EROS é capaz de trazer. Manuel Bandeira tem um poema muito bonito chamado “Arte de amar”, no qual afirma que, caso se queira sentir a felicidade de amar, tem-se que esquecer a alma, a qual só encontra satisfação em Deus ou fora do mundo, além de ser incomunicável. Finaliza asseverando que só os corpos se entendem. Seu raciocínio leva a crer que, diferentemente do acima constatado, EROS é um tipo de relacionamento que leva à compreensão e à paz, as quais, de fato, não são atingíveis quando tão grandes e exigentes doses de autossatisfação são entremeadas – é claro que as crescentes demandas de gozo e satisfação exaurem os amantes, depois de, muitas vezes, os terem levado a ações questionáveis, como brigar, agredir, matar, mentir, trair, cobrar, abandonar filhos, as quais, na sua vigência, parecem apenas apimentar a relação, mas, na verdade, ferem e ameaçam a felicidade possível de muita gente.
Na minha opinião, transitamos o tempo todo entre esses amores e os intercambiamos. Às vezes, nossa autoestima está baixa, às vezes alta; de vez em quando, passamos por crises no STORGE que duram muitos anos, mas conseguimos reverter; ao longo de um relacionamento amoroso, o amor EROS ou o PRAGMA dirigem nossas ações; temos períodos em que buscamos mais ou menos a companhia de nossos amigos; encaramos o sexo de forma mais ou menos lúdica... Entretanto uma coisa precisamos entender: o amor, seja ele qual for, não nos traz só felicidade. Drummond, num poema lindo chamado “Campo de flores”, refere-se às duas mãos do amor − uma que acaricia, outra que carrega o “grão de angústias”... E, às vezes, nem acho que é só um grão, é sofrimento grande e difícil... O amor, embora tanto o queiramos e o liguemos à nossa felicidade, é difícil, exige tolerância, ação e diálogo, machuca, confronta quereres e, o pior: cursa imprevisivelmente, porque é um componente da vida que, diferentemente da navegação, é imprecisa, como bem o disse Fernando Pessoa (revendo com cuidado essa colocação, percebo que, mesmo a navegação inclui desastres assombrosos, já estou na dúvida se o poeta foi tão feliz assim na sua metáfora).
Estou pensando agora que, no contexto de nossas relações amorosas, feliz ou infelizmente, não sei ao certo, esgotamos experiências num patamar da nossa existência e, para continuarmos nos desenvolvendo, precisamos ir adiante... Mas com o nosso parceiro ou parceira não acontece a mesma coisa... Nessa situação, que pode incluir separações conjugais, antigamente, precisávamos armar as maiores hipocrisias sociais, por dependência econômica, impossibilidade de novos formatos conjugais, questões jurídicas... Hoje nada disso é impedimento para um número cada vez maior de pessoas: independentemente da idade – já que usufruímos de uma maior expectativa de vida –, nos separamos, recasamos ou não, moramos em casas diferentes, armamos relacionamentos abertos, homoafetivos e mais coisas além, inventamos “harmonias bonitas e possíveis sem juízo final”, como diz Caetano Veloso, e continuamos a fazer História que, no fundo, são cisões comportamentais e cognitivas adaptativas. É claro que entre nós sempre há e haverá níveis maiores ou menores de adesão ao acervo de tradições e formatos históricos mais conservadores; entretanto verifico que nunca vivemos, como espécie, numa sociedade tão plástica e tão acolhedora de novos arranjos matrimoniais, embora eu não possa deixar de verificar as violências ainda existentes, em virtude das ambiguidades e dificuldades inescapáveis à nossa condição humana.
O que não podemos é desistir da utopia de nos relacionar a dois com afeto. Não sei direito o que significa essa palavra (de novo o dicionário não ajudou). Mas desconfio de que posso, inclusive, fixar neste texto um significado: estou usando-a num sentido próximo de “generosidade” e “esforço”. A experiência de doação/posse irrestrita e íntima, decorrente de um processo de desnudamento muito além do corpo, é das mais comoventes entre nós. Reduzi-la a um embate apenas material é perder de vista aquilo que há em nós de possibilidade de acolhimento profundo do outro. Não quero encobrir o vigor inegável com que se dá esse encontro, que, inclusive, é uma das realizações mais bem acabadas das incongruências em que nos movemos. Nem idealizar nossas relações tão cheias de defeitos. Quero contemplar nossas complexidades e nossas fomes e sedes, que não são apenas de alimento e água: também carecemos de ser psiquicamente acolhidos, e isso não é possível quando apenas a biologia é considerada. Esse algo além do corpo, que é nosso tutano primeiro, implora por gestos e permissões inventados, dialogados e compartilhados “parmente”, o que termina por gerar em cada dois uma gramática relacional única e bonita.
A história de que “sexo” e “amor” são duas palavras separadas, não tem lógica; pode até ser mais simples pensar assim ou pode ser um jeito de garantir satisfação sexual num tempo hedonista em que se confunde desejo com direito. Mas não acho que simplificações estão trazendo felicidade, só liberdade – e uma sem a outra, pelo menos para mim, não é suficiente. Também não acho que ser feliz a dois independe, por completo, das narrativas sociais, pois o amor, o afeto e outras “palavras” que usei aqui são também uma construção grupal. Enfim, não acredito na felicidade de um casal alcançada com traição e mentiras: o afeto é um rio de água limpa, e a generosidade não pode existir entre dois se não estiver presente entre muitos; conforme já disse, não acredito que uma pessoa seja generosa em apenas uma das esferas de sua vida, já que não somos seres com gavetas comportamentais.
Amar a dois é difícil: por ser o amor uma construção histórica e, portanto, mudar de sentido; por envolver pessoas cujas funções, papéis e ontologias são também mutantes; por exigir o melhor de nós; por obrigar a alteridade; por atuarmos num palco ambíguo e contaminado por nossos defeitos; por estarmos lidando com novos conceitos de “feminino” e “masculino”, por sentirmos tudo isso como ameaças a que devemos reagir; por vivermos num tempo em que alimentamos demais os interesses pessoais... Em contrapartida, em nome do amor, criamos descendência; riquezas; valores; sentidos; identificações; novos desejos, trajetos e compreensões... Infelizmente, cada repressão suplantada revela tantas outras dificuldades... Esse acervo de erros e acertos está guardado nas nossas palavras: poemas, narrativas, depoimentos, roteiros de filmes e peças teatrais preservam nossos êxitos, decepções, lágrimas, expectativas, medos, sonhos...
Então: partindo do poeta argentino Fernando Birri, finalizo dizendo que a palavra “afeto” agora é minha utopia: ela está lá no horizonte... Quando dou dois passos na sua direção, ela se afasta dois passos; quando dou dez passos, ela se distancia dez passos... Caso me perguntem para que raios serve tudo isso, eu explicarei: a palavra “afeto”– a que agreguei os mais delicados gestos e os mais exclusivos desejos – é uma bússola que me ajuda a seguir...

quarta-feira, setembro 20, 2017

Ariano Suassuna vive!

Depois que acabei de falar sobre a poesia de Ariano Suassuna na Academia Pernambucana de Letras, em agosto passado, aproximou-se de mim uma figura de cara confiável de que gostei de imediato e que me fez a proposta, quase indecente a esta altura do ano, por causa da demanda de atividades de professora de cursos preparatórios para o vestibular em que trabalho, de ir a Limoeiro, dar uma palestra sobre o autor. Eu lhe disse que iria, claro, mas pensei que a história se perderia no meio do caminho e que o convite terminaria dando chabu. Não foi o que aconteceu: algumas semanas depois, Fábio André de Andrade Silva, limoeirense da gema, me liga, se apresenta de novo mais formalmente, com a delicadeza que me parece ser sua mais forte característica e me esclarece que tudo já estava arrumado para a minha ida àquela cidade.
        Nem sei direito como ele conseguiu, nestes tempos brabos, viabilizar minha viagem: acho que ela foi uma junção de ajudas, e o que entendi depois foi que meu novo amigo fez das tripas coração e, assim coraçãomente, como diz João Guimarães Rosa, terminou por concretizá-la. Não sei como foi, só sei que foi assim. Declaro a quem interessar possa que Fábio, inclusive, cuidou para que viesse, num carro da Secretaria de Educação, um motorista em especial que tinha trabalhado com meu primo Sérgio, filho de tio Saulo.  Ambos já partiram, mas foram revisitados, na ocasião do trajeto, nas suas histórias e jeitos de ser.
       Assim que cheguei, visitei o simpático prédio da GRE (acho que a acolhida do pessoal foi que me deu a sensação boa e fresca que senti) e, em seguida, fui entrevistada na Rádio Jornal Limoeiro e na Rádio Cultural FM. Daí fomos ao Galpão das Artes, o primeiro presente que Fábio e seus amigos me deram nesse fim de semana especial que tive o privilégio de ter: um lugar lindo, que abriga um palco, onde estava exposto o figurino de uma peça teatral; uma espécie de museu de brinquedos populares de madeira e outros materiais; e até uma galeria de artes plásticas, com quadros que, perfeitamente, combinavam com o ambiente. Tudo estava tão fiel às ideias defendidas por meu tio Ariano Suassuna, que tive vontade de me ajoelhar ali mesmo, diante daquele altar que o reverenciava de modo tão perfeito, para agradecer a compreensão pertinente e a abertura que o grupo tinha tido para o seu universo conceitual e simbólico. Não o fiz, é verdade, mas o que senti deve ter sido percebido – fiquei tão emocionada que Fábio teve que me ajudar a subir no palco, porque eu quis ver de perto os detalhes das roupas expostas, enquanto ele me contava que tudo aquilo tinha sido confeccionado com material doado numa campanha que arrecadara mantas, fuxicos e colchas de retalhos, tudo usado, mas em bom estado, e tinha, digamos assim, sido reciclado e ressignificado naquele deslumbrante e assombroso guarda-roupa que estava ali exposto.
        Senti, de forma tão forte, a presença do meu tio querido em tudo aquilo, que não tenho palavras para agradecer ao grupo, nem para descrever a diversidade de sentimentos que me povoaram. Não é todo dia que a gente vê sentido na vida: vi naquele lugar e, principalmente, nas pessoas que o formam (que um lugar não é nada sem pessoas) uma extensão das ações e das ideias de Ariano. E ali mesmo o imaginei descansado de sua luta, olhando lá de cima aquilo tudo através dos meus olhos, satisfeito com o resultado que se mostrava devagar.
         Depois do almoço começamos a executar a primeira parte do nosso programa central que consistiu na tal palestra que ministrei. Confesso que fiquei com vergonha da apresentação que tinha preparado, porque todos ali pareciam entender Ariano tanto quanto eu. Depois da palestra, fui compreendendo, aos poucos, o que, de verdade, fui fazer ali: lembrar a eles que “difícil” não significa “impossível” e que há um sentido bonito na luta que eles travam para fazer o que fazem.
         À noite tive o privilégio de ver o ensaio geral do primeiro ato – o grupo costuma encenar um ato de cada vez – da peça “A farsa da boa preguiça”, de Ariano Suassuna, com a direção de Charlon de Oliveira Cabral. Na frente de uma igrejinha linda, com bandeirinhas e tudo, num perfeito cenário interiorano que estava de novo a cara de Ariano, pude testemunhar o trabalho sério, o esforço desprendido e adivinhar os cansativos ensaios e os desânimos e as motivações que tinham levado todos nós até aquele pátio, onde se descortinou de novo para mim o sonho de Ariano de realizar um teatro entre erudito e popular, que pudesse dar emoção e riso a pessoas desprovidas de renda e de acesso à cultura e que, enfim, teriam sua festa na vida difícil que vivem. Não sou crítica de teatro, mas acho que posso destacar o trabalho de corpo; a movimentação dos atores, apesar de não haver o palco, que os limitaria melhor; a prontidão das respostas engraçadíssimas às intervenções da plateia que todo teatro de rua exige; a coragem necessária para um trabalho assim tão distante daquele a que a maioria das pessoas está acostumada... Ri tanto que alguém chegou a perguntar se eu tinha sido paga para tal, a fim de puxar o riso da plateia. Na verdade, eu estava feliz de ver como meu tio está vivo naquelas pessoas...
       Portanto, eu queria agradecer a todas elas: por fazerem de suas vidas um laboratório de ressurreição de Ariano e por permanecerem firmes, apesar das dificuldades, ofertando àquelas pessoas não só lazer, mas também cultura. Lá de cima, ao lado de Compadecida, Ariano deve estar feliz e satisfeito. Ele manda dizer que esses tempos de trevas passarão, e que nós estamos no caminho certo.

segunda-feira, agosto 14, 2017

Segunda resposta

Tive acesso, ontem, pelo Whatsapp, a uma argumentação de Flávio Brayner. Intitulado “No escuro e sem corrimão”, o texto de sua autoria era datado de 15/08/2017 e me chegou com uma espécie de epígrafe, que dizia: “Ele disse tudo!!!”. Como acho que nunca a gente consegue dizer tudo, queria acrescentar algumas ideias à discussão que o texto inaugura.
Na verdade, ele é uma réplica a uma entrevista anterior de Sílvio Meira ao Jornal do Commercio, em que o empreendedor, à medida que se apresenta, defende ideias para a educação brasileira. Ouvi com cuidado tudo o que foi dito na entrevista e me impressionei com dois fatos: não consegui ouvir as entrevistadoras Luíza Freitas e Margarida Azevedo, e as ideias do entrevistado já estão sendo postas em prática.
A partir desses fatos, comecei a pensar e a registrar ideias. A primeira que me veio foi a de como estamos todos seduzidos pela sereia da simplificação e da uniformização. O empreendedor começa a sua fala dizendo que “o único fundamento” da educação seria que as pessoas devem aprender na escola as bases para continuar aprendendo. Em seguida, começa a listar tais bases: língua portuguesa, lógica e matemática abstrata binária e executável (“não aprender a programar é mortal”, ele diz) e línguas estrangeiras (ele aponta inglês e mandarim, para se fazerem negócios). Depois, começa a explicar o que já se está fazendo aqui em Pernambuco: a partir de ‘games’, os quais têm ligação direta com o aprendizado de física, música, biologia e ‘design’, pretende-se ensinar os alunos a executarem uma profissão que contribua com a economia. Citando experiências de países como Finlândia, Coreia do Sul, Inglaterra e Alemanha, defende que todos devemos estudar programação de computadores e assuntos técnicos, porque “o mundo é uma sequência infinita de boletos”, e existimos para pagá-los. Depois resume: a escola deve ensinar “a mesma coisa, o tempo todo, para todo mundo”. Inclusive elogia países cujos governos pagam os estudos de ciência, tecnologia e engenharia e não os de filosofia, história, educação e psicologia. Em outras palavras: daríamos ao governo (ou seria ao Estado?) o extremo poder de definir o que seria prioritário em educação, dentro da lógica apenas produtiva e competitiva.
Rubem Braga tem uma crônica linda – a que já me referi uma vez em meus escritos – chamada “Recado ao Senhor 903”, na qual ele pede desculpas ao morador de seu prédio que reclamara do barulho de sua máquina de escrever. Ele não sabe o nome da pessoa, por isso a chama de Senhor 903 e, daí em diante, vai desfilando uma sequência de números relativos ao apartamento em que mora, à hora em que se tem de parar de fazer barulho, ao ônibus que toma, ao número do prédio e da sala em que trabalha... E acrescenta: “nossa vida, vizinho, está toda numerada; e reconheço que ela só pode ser tolerável quando um número não incomoda outro número, mas o respeita, ficando dentro dos limites de seus algarismos. Peço-lhe desculpas – e prometo silêncio. Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo...”.
Essa frase última me persegue, porque um dos dias mais importantes de minha vida foi quando Germana (que não era minha professora, mas uma tia que tinha estudado Filosofia, apesar de ser funcionária do INSS), com quem muito conversava e que participou de minha formação intelectual, me explicou como Platão pensava. Foi como um raio! Tudo ficou claro para mim! Eu me reconheci naquelas palavras conotativas que falavam de um mundo possível mais verdadeiro, mais justo, mais igualitário... Desde então, minha vida tem sido imaginar como o mundo pode ser diferente do que é e escrever... E, recentemente, algo se colou a essa compreensão: o fato de ter lido um pequeno e significativo poema de Fernando Birri que dizia que a utopia serve para isto: para ajudar a caminhar...  Ganhei quase nada com o que escrevo, mas escrevo bastante, com medo da parábola dos talentos – uma história bíblica que fala que Deus perguntará a cada um de nós o que fizemos com os talentos que nos deu.
Quando vou me explicar, narro um episódio antigo que me aconteceu ainda no ginásio, como se chamava o que hoje identificamos como fundamental 2: uma freira da escola em que estudei queria que classificássemos orações coordenadas e subordinadas num texto de José de Alencar, mas eu me desliguei totalmente do objetivo dela e me perdi nas palavras maviosas do autor. Até hoje sei de cor o texto (que adoro recitar para os meus alunos), além de ter me tornado uma professora de português e uma escritora intermitente. O que quero dizer é que a escola não faz de nós o que somos; ela apenas dá umas ferramentas (algumas quebradas) e nós é que nos viramos no mundo e na vida afora. Ou não: infelizmente, muitos de nós, por questões políticas, sociais, familiares, individuais... ficam pelo caminho, amargando pobrezas e infelicidades de toda sorte ou azar. Não foi o aprendizado da lógica binária que fez de mim o que sou, foi o caminho que esse texto me indicou. E que indicou a mim, mas não à grande maioria de minhas amigas de classe, que se tornaram professoras, funcionárias públicas, atrizes, médicas, donas de casa, engenheiras... Precisamos de vários caminhos, porque somos diferentes uns dos outros e, portanto, queremos coisas diferentes e gostamos de coisas diferentes... E fazemos para nós caminhos diferentes... E o sucesso é um substantivo masculino (no sentido de que homens são executores mais eficientes do seu significado, até porque foi deles cobrado muito mais do que de nós, mulheres) e plural (no de que é preciso ver outros sentidos que também são válidos para entender a palavra). Ou seja: por motivos espirituais, não econômicos, escrevo sem ganhar nada. Apesar disso, pago os boletos de minha vida, exercendo uma profissão que sequer foi citada na explanação do empreendedor...
Eu poderia ter ficado feliz com a ideia de Sílvio Meira de que se deve ensinar a língua. Mas não sou idiota: sei que ele não contempla a matéria que leciono – história da literatura. Nem linguistas consideram isso importante, só eu mesma, a esta altura. Na verdade, acho que a literatura e a arte não são produzidas para que aprendamos nada. Mas a discussão sobre elas enriqueceu minha vida e minha percepção, e tenho um jeito muito exclusivo de ver o mundo, e talvez seja isso que Sílvio Meira e companhia limitada não queiram: que se formem pessoas capazes de pensar, criticar, refletir sem objetivo prático, a partir do conhecimento da tradição do passado, das experiências registradas de muitas pessoas que criaram um acervo de visões, de saberes, de sentires, de sonhos, de interpretações que são como uma bússola que nos guia para um futuro “que fala a nossa língua”, como diz Mia Couto. Em outras palavras: nenhum conhecimento é gerado fora de um contexto cultural e ambiental – o que é bom para um país africano não é bom para o Brasil; o que é bom para o Japão (país citado por Brayner e que tem índices horripilantes de suicídio de jovens, em virtude do seu projeto educacional acachapante) não é bom para o Brasil.
As ciências humanas não podem ser ensinadas por quem não se identifica com elas e há perguntas que não são respondíveis pela matemática. Meus alunos, quando estou em horário de atendimento de dúvidas, por exemplo, me trazem redações para que eu lhes diga como estão seus textos e questões cujas respostas não sabem; porém, às vezes, perguntam-me sobre suas vidas – recentemente, um deles, um pouco mais velho, me pediu que eu dissesse a ele se uma atitude que teve em relação à esposa foi machista. Minha própria terapia, meu amadurecimento e um pequeno conhecimento de psicologia vindo da literatura me foram de grande valia para lhe dar minha resposta, baseada também na história, porque eu conversei com ele sobre os antigos e mais modernos conceitos de homem.  Aliás, a física parece muito prática, mas o estudo dos buracos negros e das galáxias é tão sem pé nem cabeça quanto o das artes, da filosofia e da psicologia. E acho que o exercício da imaginação e do raciocínio abstrato que as ciências humanas permitem aparelharia para esse e outros estudos...
Por último, quero dizer que ninguém do passado imaginou o futuro que fizemos, nem acertou as habilidades e as competências que teríamos de ter para sobreviver hoje; ninguém previu, por exemplo, o tal do computador de que tanto o Meira falou. Em outras palavras: estamos reinventando a nós mesmos, para viver nesse mundo virtual, que é o único que o empreendedor parece ver, como se vivêssemos nele e para ele apenas. No entanto, vivemos para nossos filhos, alunos, irmãos, amantes, amigos, para nós mesmos, para sermos felizes... Para buscar sentidos... saídas... E tudo isso é muito difícil... E precisamos de mais do que matemática binária para fazer das tripas coração e nos refazermos para um mercado inimaginável há dez anos e que nos assombra com suas exigências... E precisamos saber as narrativas que foram escritas com versões e sentidos sobre nosso passado e nosso presente, para que não reinventemos a roda... nem paremos de progredir... Ao contrário: precisamos aperfeiçoar todos os caminhos para que escolhamos viver, sem falha na esperança, essa vida cujo sentido é não dado mas construído. Não na matemática, mas a partir de um calidoscópio de saberes, nenhum descartável, principalmente no nosso país, cuja diversidade não existe em nenhum outro e precisa de expressão.
Guimarães Rosa tem uma frase que me ajuda a terminar este texto difícil: “uma coisa é pôr ideias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias...”. Ela nos obriga a prestar atenção ao fato de que as pessoas têm seus tempos e seus espaços (Joinville não é igual a Taperoá) e não são facilmente cabíveis no plano único que Sílvio Meira propõe (“a gente pega as melhores práticas, ‘reseta’ o sistema, levanta a barra de nível e exige que todo mundo passe para o próximo nível”). Ela nos desvela as nossas complexidades. Ela nos ensina a ir em frente, sem abrir mão de nós mesmos. Ela nos fala de como é difícil seguir de mãos dadas... Mas difícil não é impossível...