sábado, fevereiro 18, 2017

Democracia e outros desacertos brasileiros



Já falei de democracia, há alguns anos, neste blog, quando ele sofreu sistemática invasão de uma pessoa que me atingia profissional e pessoalmente com comentários anônimos. Hoje, volto ao assunto para defender Raduan Nassar, quando da outorga do prêmio Camões com que foi agraciado em maio de 2016.
            Raduan Nassar é um escritor pouco profícuo, mas a densidade de sua obra alcançou a admiração de milhares de pessoas, inclusive do júri do concurso, que destacou “a extraordinária qualidade de sua linguagem e a força poética de sua prosa”. É evidente que um escritor com a sua profundidade intelectual não fala sobre o que todos querem ouvir – ele fala sobre o que quer, sobre o que é preciso, ou mesmo não fala, como, de resto, é o que acontece na maior parte do tempo com ele próprio: vive numa fazenda, no interior de São Paulo, muito recluso, o que, no seu caso, não significa omisso.
            É que há algum tempo doou outra fazenda ao Estado brasileiro, com a única exigência de que fosse usada para fazer um campus agrícola em que se estudassem técnicas de cultivo sustentáveis das lavouras da região. Essa doação, na verdade, mudou o entorno social da área, dando oportunidades de ensino superior a filhos de trabalhadores rurais e até a índios, que estão “fazendo a diferença” quando se observa a questão do acesso à renda naquela parte do país.
Lembrando Paulo Freire, que certa vez disse que a pobreza rural tinha ligação não só com a falta de acesso à terra, mas também com outros “arames farpados”, como a falta de acesso à técnica, não posso deixar de admirar o que, sob a batuta de Raduan, está se fazendo naquela região.
Compreende-se, perfeitamente, a partir dessa narrativa, de que lado o escritor se encontra: ele é a favor de melhor distribuição de terra, de renda, de conhecimento e de técnica no Brasil e no mundo. E seu posicionamento não fica apenas no discurso: estende-se à ação coerente e corajosa de quem é capaz de tirar da própria carne para ver mais igualdade ao redor.
Pois bem: aos quase 82 anos, lúcido e tímido como poucos, no dia da entrega do prêmio, denunciou a situação sombria em que o Brasil está, na sua opinião: invasão de espaços, repressão e prisão dos mais fracos, violência contra manifestações populares, supressão de direitos, ameaça a universidades públicas e escolas, tudo com a anuência de instituições que deveriam resguardar o direito e o bem de todos.
Acusado de histriônico, foi, na verdade, discreto, tanto nos gestos quanto nos trajes. Mostrou-se, no entanto, contundente nas palavras, como acontece com a maioria dos escritores, cidadãos que dizem o que tem de ser dito, possa parte da população ouvir ou não. Confesso que admiro o “conjunto da obra”, como muito se tem dito – gostei do que ele fez, democratizando o tanto de tecido social que estava a seu alcance, e mais ainda admirei o fato de ele ter enunciado no discurso o que já havia realizado na prática. Não é todo dia que a gente testemunha coerência neste país...
Tenho conversado muito com meus alunos sobre a função do escritor neste mundo globalizado, que enxerga tudo através da técnica e da ciência, em detrimento das ciências humanas, ou nesses tempos cegos e difíceis que nos couberam (como acontece com todos os seres humanos, no fim das contas) e agradeci as palavras de Raduan Nassar – ele falou o que precisava falar ou o que quis falar, independentemente do que algumas pessoas ou o governo queriam ouvir; tornou audíveis as palavras de quem também está nas ruas, mas não sai nas manchetes; criticou instituições, como se costuma fazer, impunemente, numa democracia orgulhosa do que é; usou um momento de exposição pública para colocar sua posição política clara e coerentemente; como cidadão, agiu de forma legítima, pois qualquer um pode expor seus pontos de vista no Brasil, inclusive quem não tem o que dizer ou quem espalha preconceito, desavença e ódio. Não é o caso de Raduan Nassar, cuja lucidez merece atenção, cuja idade merece respeito e cuja biografia legitima seu direito imperioso de expressão.
Além disso, não foi o governo que o premiou; foi o Estado de Portugal e foi o Estado do Brasil. Portanto, o argumento de que ele não deveria ter aceitado o prêmio, já que tinha críticas ao governo, além de deselegante, é estapafúrdio e, infelizmente, confirma o que ele falou. Ou seja: que pairam ameaças, hoje, ao Estado de Direito no país.
Não há defesa possível contra as palavras de ministros e de outros cidadãos que o acusaram, durante a cerimônia ou depois dela, de expressar pontos de vista partidários os quais, mesmo que tivessem sido enunciados, ainda assim poderiam ter sido externados. Mas é mais ridículo ainda imaginar que não fossem seus de verdade: seu estofo intelectual e sua trajetória coerente garantem a exclusividade de suas interpretações e de sua visão de mundo.
Obrigada, Raduan Nassar. Você me fez pensar na democracia que quero, no país com que sonho, na função do escritor em tempos de cólera e de cegueira, no próximo mais fraco e naquilo de que, realmente, preciso para ser uma pessoa de verdade. Obrigada também ao resto das pessoas que me mostram que, como disse o escritor, “não há como ficar calado”.

sexta-feira, janeiro 20, 2017

Desafio - para Dinaldo Lessa



Inapagável,
o passado
está lá.

Ele me governa,
apesar de não
falar.

Rio em mim,
desses que
fundam
em silêncio
e devagar...

Impossível
precisar
a nascente
nem a foz
dessa água
que trafega
sem cansar...

Tudo que sou
depende dessa linfa
(impossível tatuagem
semovente)
onde moram peixes –
facas brilhantes
e mortais –
que me fazem exclusiva
e ligada
a abismos,
jazidas de energia
e desespero.

O desafio
é conspirar
a exata medida
do indulto
desse rio...

E jamais
deixá-lo
impedir
as chuvas
que limpam seu curso
indispensável.

quinta-feira, dezembro 22, 2016

A filha - para Brenda (em seus 15 anos)


Quando chegou,
tudo veio a propósito:
uma mulher
abriu-se em mãe;
ela, enfim,
figurou-se filha.

Uma – sem a outra –
buscava-se, aflita.

Agora juntas
são como bonecas russas:
uma dentro da outra
completas e encontradas!

De alguma forma,
sempre se pertenceram...
E não se viram,
mas reconheceram-se:
antigo amor
que sempre existiu.

domingo, novembro 20, 2016

Aos nossos alunos - 6



             Um dos temas a que recorrentemente voltei nas minhas aulas neste ano difícil que termina foi o da comunicação através de nossos vigorosos meios de comunicação – a televisão, o celular, a internet e, portanto, as redes sociais.
            Talvez não seja este o momento mais apropriado para continuar pensando ou tentando fazer pensar, mas não acredito que seja possível falar de verdade sem acrescentar algum conteúdo ao que já foi dito. E é “falar de verdade” que talvez seja o ofício da professora de literatura e pretensa escritora que sou.
            Sei que há agora bilhões de produtores de conteúdo, possíveis graças aos meios de comunicação mais formidáveis e baratos da história humana. Porém constato também que estamos morando na Babel mais absurda de todos os tempos: aquela resultante de um mundo cheio de gente com meios de comunicação virtual inimagináveis há 20 anos nas mãos. Mas onde faltam pessoas que consigam dialogar e se entender.
            Cada um de nós carrega um pouco de culpa dessa situação esdrúxula: jornalistas e professores, infantilmente, abriram mão de suas importantes funções sociais e passaram a dizer o que todos dizem ou o que todos querem ouvir. O senso comum triunfa, com suas simplificações, com suas frases feitas, com suas receitas prontas que não dão conta de nossas complexidades. Os professores de Redação, com o escudo do Enem, propõem textos prontos, e os alunos acatam o atalho, perdendo a oportunidade de se colocar, realmente, diante de questões cruciais de nossa sociedade. E o pior: são levados a pensar que estão vendo tudo melhor quando, infelizmente, escrevem ideias que lhes foram impostas. E não são capazes de ter as suas próprias, decorrentes de um processamento de dados múltiplos. O governo acha que tudo isso se resolve com uma suposta escola sem partido e não com informação mais plural e mais pluridirecional. E cada um de nós também é culpado quando não busca canais alternativos ou quando nem sequer escuta quem pensa diferente.
            O resultado disso tudo é apenas embate de particularismos que deságuam numa sociedade fraturada e incapaz de construir utopias coletivas, necessárias ao norteamento das ações cotidianas de cada um.
            Ao contrário do que se podia esperar, nas famosas redes sociais, continuamos violentos e preconceituosos e, nesses canais globais, escorre nosso ódio de cada dia em tal volume que alguns chegam a pensar que estamos piores do que sempre estivemos.
            Não estamos lendo nada; rotulando a tevê com mil defeitos, também não estamos assistindo a ela. Presos a outra tevê que cabe nas nossas mãos e pode ser portada em todo lugar, estamos subordinados à ditadura da futilidade mais avassaladora de toda a nossa história: publicidades, piadas, músicas de baixa qualidade, correntes de oração ameaçadoras, ou mesmo rápidas e curtas frases sem autores ou com errada autoria circulam tão rapidamente que nossa memória não retém; chegam em tal quantidade, que enchem nossos celulares a ponto de os travar e inutilizar. E, então, descartamos... Nada fica, nada permanece... Os meios de apagamento são também espetaculares – um click em “limpeza rápida” e tudo se apaga. Nada fica, nada permanece.
            Tudo parece fácil, rápido, possível, alcançável... Na verdade, o nome disso é superficialidade, falta de compromisso com as verdades internas e com o outro. Sem olhar nos olhos uns dos outros, sem dizer o que o outro precisa escutar e sem nos dispor a ouvir, estamos nos afastando...
            Zapeando de uma guerra a um concurso de beleza, de uma criança ferida a uma baleia encalhada, somos capazes de nos apiedar da baleia... E de acharmos que as guerras virtuais e higiênicas do mundo de hoje são uma boa prevenção contra a imigração que nos ameaça...
            Seguimos sem pensar, escolhemos atalhos, o canal que todos veem, quem tem mais seguidores, quem vende mais... Sem atentar para o fato de que escolhemos. E, quando analisamos, apenas dizemos: o capitalismo move e comanda... Nunca conseguimos ver as nossas próprias ações que o fortalecem... Estamos uma sociedade cheia de discursos, não de diálogos. Dizer que a tevê mente, esconde; constatar sua ligação com o poder; adorar o professor que diz apenas o que queremos ouvir; escolher o mesmo que a maioria escolhe é fugir – fugir da responsabilidade de ouvir, de pensar, de retrucar, de discordar, de ser humano.
            Esse apetite voraz por hedonismos de toda sorte está nos jogando num trajeto sem sentido que afogamos em bebida, drogas e outros desastres. E está nos colocando uns contra os outros.
            O nome disso não é democracia. É tirania. O nome disso não é comunicação. É barulho.
            Pensando em vocês, vem-me a palavra “responsabilidade”. Na minha responsabilidade e na de vocês. A minha consistiu em alertar vocês sobre esse engodo em que estamos metidos; a de vocês é de resistirem.
            Os jornalistas, os advogados e juízes, os médicos, os engenheiros, os professores, enfim os profissionais que vocês serão precisarão agir de modo mais crítico e humano. Vocês terão ainda, antes de atuarem, uns anos de preparação. Leiam. Leiam livros técnicos para aprenderem o “como” fazer. Mas leiam também literatura. Ela nos ensina a ver de outro ponto de vista, a nos identificar com o outro, a não só nos divertir, mas também vislumbrar um sentido e considerar o outro, a nos movermos juntos, apesar de nossas diferenças.
            Dessa riquíssima indústria cultural também faz parte uma herança que nos ensina o que já fomos. E todos nós temos responsabilidade em relação a esse legado: não iremos repeti-lo, é claro. Mas é preciso conhecê-lo para modificá-lo e tirar frutos dele. Esse insaciável apetite pelo novo está apenas nos fazendo consumir o que não tem qualidade. O resultado disso não é felicidade, é depressão mascarada de bem-estar. O nome disso é hipocrisia.
            Espero que cada um de vocês tenha ficado com, pelo menos, uma palavra minha. Espero que cada um de vocês possa multiplicar essa palavra. Espero que cada um de vocês possa ter uma palavra própria. E que essa corrente seja uma direção a seguir, a multiplicar... Nesse mundo onde a maioria das histórias não tem sentido, nem depois, que nosso diálogo deste ano norteie e, quando nos encontrarmos mais tarde, possamos nos reconhecer, como o fazem aqueles que partilham e acertam a caminhar juntos, como aconteceu este ano.