Quarta-feira, Fevereiro 29, 2012

Meia espera

Estou exausta
de minha esperança.

Mesmo assim,
posso continuar
esperando,
como sempre.

Mas o que quero
mesmo
é aderir
ao presente
sem saudade
nem expectativa.

Terça-feira, Janeiro 31, 2012

É cada começo de ano...

Trabalhei pesado em 2011. E, claro, aguardava ansiosa as férias e aquela esperançazinha de melhora que sempre nos acomete no princípio de cada ano. Mas que, às vezes, falha.
E, como herdei a cultura familiar de rir de tragédias, concordando com o ditado popular o qual diz que "o trágico anda de mãos dadas com o cômico", começo o ano rindo de acidentes.
Ganhei de meu cunhado um "tupperware" com requeijão. Quando me entregou o presente, mangando de uma conhecida idosa de nossa família, ele disse:
− Devolva logo o depósito, que eu preciso muito dele.
A história dessa conhecida está no rol de "absurdos psicológicos" de nossa família. É que, quando meu filho Filipe estava no hospital, entre a vida e a morte, ela mandava bolo lá para casa e depois cobrava a vasilha de volta. Ora, eu estava no hospital, não conseguia dar conta nem do meu dia a dia e, além do mais, a vasilha era de sorvete! Naquela situação, tudo isso passava da conta e, apesar de considerarmos o fato delicado de ela enviar o bolo, sempre fazíamos (e fazemos) piada com o episódio.
Querendo potencializar a piada, assim que cheguei em casa, troquei o requeijão de vasilha e corri para devolvê-la.
Estava tão apressada que não tive paciência para esperar o elevador. “É só um andar, pensei, vou pela escada!”. E lá fui eu, aloprada!
Abri a porta de incêndio e... o sensor da luz da escada não acendeu. “Não faz mal, avaliei, vou tão depressa que ainda aproveitarei a réstia da luz do hall”... Mas a porta de ferro fechou-se. E o escuro mais profundo abateu-se sobre mim.
Eu estava embalada; ainda levada pelo meu otimismo incurável, achei que tinha chegado ao descanso da escada... Mas havia um último e fatídico degrau... Rodopiei... e caí sentada de frente para os batentes que eu tinha acabado de descer, alvoroçada.
Uma dor lancinante me deu vontade de desmaiar. Mas fui forte e chamei meu filho.
Ele ouviu lá loooonge um fio de voz e, apesar de umas dores abdominais que estava sentindo, levantou-me, dizendo:
− Ôxe, mãe, ′tás ralada por causa dessa parede crespenta?
− Muito não, só um pouquinho, respondi, mancando.
E vim me deitar no sofá, depois de pegar gelo no “freezer” para botar nos dois pés, que me doíam demais. Quando a dor aliviou um pouco, voltei à escada, peguei o depósito do chão, heroica e dificilmente, desci o resto da escada e fui entregá-lo à minha irmã.
Eu não queria que ela soubesse que, provavelmente, eu quebrara o pé; ela e toda a sua família iam para o Mato Grosso, de férias, e a viagem poderia perder um pouco da graça se adivinhassem a tragédia. Munida de toda a coragem que pude reunir, toquei sua campainha e, ao mesmo tempo, apertei o botão do elevador, que logo chegou. Ela abriu a porta, na expectativa da piada.
− Seu depósito, disse-lhe, entregando-o.
Notei que ela ficou meio desarmada, mas não puxei conversa. Eu tinha que andar sem mancar até a porta do elevador, e isso exigia de mim toda a teatralidade necessária para a ocasião. Ainda pude, de longe, escutar meu cunhado:
− Foi Flávia? O que ela disse?
− Nada, minha irmã, frustrada, respondeu.
Voltei para casa, tomei um banho e fui para cama dormir. A noite foi um pesadelo de dor, cada vez que me virava, acordava, os pés latejando...
No dia seguinte, quando botei os pés no chão, pensei: “Meu Deus! Preciso de um médico!” Andei, como pude, até o interfone da cozinha e liguei para a minha outra irmã – a famosíssima Deb, diretora do Departamento de Digitação e Marketing deste blog.
− Deb, disse-lhe, acho que quebrei os dois pés.
− Menina, te deixei ontem, às 9 da noite, boazinha, na tua casa!
Apesar do espanto, ela acudiu-me depressa. Fomos a uma clínica, lá bateram uma radiografia, e o médico me disse que não havia fratura, que eu comprasse anti-inflamatórios e fizesse repouso. Entregou-me uma bota de velcro. Passamos na farmácia. O remédio prescrito custou R$ 35,00 (o genérico; o outro, de marca, era o dobro).
Como nada de grave tinha acontecido, fomos direto à casa da outra irmã que, por acaso, estava, antes de viajar, limpando os armários da cozinha, os quais tinham sido restaurados pelo marceneiro. E eu e Deb visualizamos a primeira parte do absurdo kafkaniano em que estávamos: nunca tínhamos visto uma quantidade tão grande de “tupperwares” na nossa vida. A segunda parte era que com R$ 35,00 se podia comprar quase a mesma quantidade de depósitos.
Moral da história: escada é um troço perigoso; falar de idosos atrasa; nada está tão ruim que não possa piorar (digo isso porque, no mesmo dia da minha ida ao ortopedista, meu filho operou-se de uma hérnia encarcerada!); meu otimismo precisa de um choque de realidade; irmão é um troço difícil de qualificar...

A meus filhos Diogo (que está se recuperando bem), Filipe (que estava com o pai, para que eu quebrasse o pé mais sossegadamente) e Daniel (que, com uma metáfora recifense, descreveu minha família como uma corda de caranguejos) e a todos os sobrinhos, para que aprendam conosco a conviver e sobreviver, apesar dos impasses, das diferenças e dos sustos.

P.S. Em sua crônica “Rei de alguma coisa”, de 21 de novembro de 2011, meu amigo Samarone (www.estuario.com.br) autocoroou-se “rei do tupperware”, em virtude do fato de sempre pedir, num tupperware, é claro, um pouco mais da comida da qual acabou de se servir. De acordo com ele, isso garante outra refeição e agrada à cozinheira. Por outro motivo – quase morri por um tupperware de R$ 1,99, como se pôde constatar – peço licença a Samarone para ganhar o título de “rainha do tupperware”. Agora, tudo depende da anuência dele; afinal, rei é rei...          

Sábado, Dezembro 31, 2011

O aniversário de Clarice Lispector

− Dez  de   dezembro   é   o  aniversário  de  Clarice  Lispector,  disse-me  André  Resende,  há  cerca  de  três semanas.
Nós acabáramos de dar uma palestra juntos, com Lula Couto como mediador. E tínhamos, se bem me lembro, discordado em tudo. Eu falara das funções da literatura e de como os jovens não podem perder o contato com as narrativas, digamos assim, míticas de uma cultura. André Resende, com um jeito tímido e pouco didático, tinha denunciado a falta de um projeto de formação de leitores nas escolas do Recife e falado sobre como a literatura é sempre para muito poucos.
Houve um curto circuito na minha cabeça. Primeiro, porque dez de dezembro é o aniversário de meu pai; depois, porque me lembrei do século XIX, o tempo de ouro da literatura, de Victor Hugo, de Tolstói, autor que mais me ensinou até hoje, e de como os escritores, nesse momento, faziam as vezes de voz muda da consciência de um povo.
André continuou falando:
− O filho de Clarice Lispector, Paulo Gurgel, queria instituir “A hora de Clarice”, um projeto de atenção à obra dela, todo dia dez de dezembro. Vocês topavam levar isso adiante comigo, aqui na Livraria Jaqueira?
Eu e Lula topamos. Na verdade, atenção a escritores é a minha missão, eu não podia “amarelar”, como dizem meus alunos. Começamos devagar a organizar tudo, com os limites dos nossos temperamentos. Iara, uma fada lá da livraria, também assumiu conosco o compromisso.
Combinamos que as pessoas passariam e-mails para mim dizendo que conto ou crônica gostariam de ler. Pois havia uma hora inteira de leitura de textos de Clarice Lispector de manhã e duas horas à tarde, afora outras atividades: na “hora do conto”, evento de muito sucesso da Livraria Jaqueira, a contadora de histórias infantis iria narrar histórias de Clarice; os encontros mensais da União Brasileira de Escritores (UBE) e das “Frentes da Psicanálise” reservariam suas pautas para Clarice e sua obra.
Ao longo da semana anterior ao aniversário, principalmente, a lista virou uma sanfona – crescia, diminuía, as pessoas pediam para eu escolher, eu respondia que cada um escolheria o texto de sua preferência, elas escolhiam, desistiam, escolhiam outro texto... e-mail para lá, e-mail para cá...
Certas pessoas amam alguns textos de Clarice Lispector, queriam ler “aquele” conto, lamentavam quando ele já tinha sido escolhido, apontavam outro a contragosto. Eu tinha que ter cuidado, pois o caso de amor das pessoas com Clarice é poderoso; elas se identificam com as personagens, emocionam-se, conhecem as histórias, dizem que gostam dos lugares que ela refere, visitam-nos, tiram retratos, falam da praça onde ela morou, da fonte da praça, da escola onde estudou...
Há uma espécie de triangulação inexplicável entre a cidade do Recife, seus habitantes e Clarice, a qual não é de lugar nenhum, mas o canto a que mais pertencia era o Recife, como bem dizia. A cidade do Brasil que mais vende livro de Clarice é Recife, quem gosta de livros adora “Felicidade clandestina”, aliás, o livro inteiro é amado pelos recifenses; as crônicas, por seu turno, trazem-na ainda mais para perto de nós – ela nos fala de suas empregadas domésticas, de suas dificuldades financeiras, de seus amigos, de seus filhos adorados... e do Recife, a cidade de sua infância, esse momento que imprime em nós o que seremos.
Nós, recifenses, intuímos isso de uma forma não explícita, sabemos como nossa cidade faz parte daquilo que Clarice é e, em silêncio, gostamos disso, até nos orgulhamos disso, de um jeito reservado, como só os pernambucanos fazem. Como Clarice faz. Há uma rota de entendimento calado entre nós...
Chega o sábado, dez de dezembro, depois de algumas reuniões e e-mails. De manhã, tivemos um pequeno atraso, lemos alguns contos... As energias estavam ainda desarrumadas, as coisas correram apenas bem. Minha lista começou a dar errado.
Aí Clarice começou a agir. Fez André desistir de sua timidez e resolver ser o mestre de cerimônia durante a tarde e a lista começou a funcionar, não de forma objetiva, mas ao sabor dos ventos e do acaso. E tudo se encaixou.
Começamos a chorar juntos enquanto líamos, a rir juntos, a olhar um para o outro e saber o que queríamos dizer, o que o outro pensava ou sentia. As palavras de Clarice abriam caminhos entre nós, nossos corações começaram a bater no compasso do dela e nos entendemos, nos emocionamos juntos e falamos por ela, com ela, sobre ela e, ao mesmo tempo, sentíamos que ela falava conosco e nós nos sentíamos traduzidos, tocados, felizes...
Não deu tempo de todos lerem, mas ninguém se importou... Estávamos plenos de compreensão do outro, de nós mesmos... A plateia sentia essa sensação de alguma forma, havia uma coisa boa no ar...
Chegou a hora da palestra dos psicanalistas, que trouxeram mais compreensão, mais reflexão... As perguntas, depois da explanação, foram ótimas, os adolescentes presentes não ficaram inibidos e enunciaram perguntas, dúvidas, fizeram colocações...
Eu sei que somos uma babel. Não conseguimos nos entender, não porque falamos línguas diferentes, mas porque não somos tolerantes o suficiente com o outro e sua idiossincrasia. Muros, guerras, bombas, cercas, armas e seus conseguintes desastres traduzem nossas imperfeições, nossos defeitos, nossas impossibilidades, nossas incapacidades de conviver em harmonia. Eu sei.
Entretanto, no dia do aniversário de Clarice, lá na Livraria Jaqueira, vencemos essa torre. E conseguimos entender, perdoar, relevar, improvisar, fluir, falar, ouvir... ser!
É claro que havia a senha de Clarice, seus textos francos, sofridos, suados, molhados de lágrimas... humanos, enfim. E, através dela, nos aproximamos, sem medo uns dos outros.
O mundo é uma noite numa trincheira... mas, às vezes, num instante, compreendemos que Platão tinha razão e que, portanto, é possível haver um mundo diferente, habitado por pessoas melhores, que confraternizam e são felizes na sua trajetória. E que a arte é um código de acesso a esse mundo para o qual rumamos, inevitavelmente.
Não estamos seguindo na mesma velocidade, é certo; às vezes, nos perdemos pelo caminho. Mas o aniversário de Clarice é a prova: venceremos!

A Paulo Gurgel, André Resende e Clarice Lispector, que, de jeitos diferentes, me proporcionaram um dia bom!

Terça-feira, Novembro 29, 2011

Última espera?

Pergunto
à noite
por que demoras...

Ela responde
com o rugido
do trânsito.

Nem parece noite:
cada janela
cancela
a treva...

Mas é noite!
E, dentro dela,
cato teu rosto.

Tua palavra
mansa
será a minha bússola...

Segunda-feira, Outubro 31, 2011

Sentido

Certo sentido dorme
na sombra
desencontrado...

Procuro-o
em todo ajuntamento
de palavras...
de pessoas...

Na distância,
é volátil
e invisível...

E vou seguindo
para esquecer
o sistema de erros
e dúvidas...

E há muitas
vendas
sereias...
O corpo mesmo,
este grão
de angústias
e enganos...
este exílio...

O amor –
feito de mar
que não desiste –
prende
a blindada flor
nos seus abismos...

Quinta-feira, Setembro 29, 2011

Na linha do tiro

Quando o ENEM, há cerca de dez anos, propôs novos parâmetros curriculares para o ensino médio, confesso que exultei! Nunca escondi o que pensava de um ensino médio tão fortemente científico e conteudista, como o nosso.
Quando eu era jovem, havia, no país, dois ensinos médios – um, chamado “clássico”, com ênfase nas humanas; outro, chamado “científico”, com ênfase nas ciências, como o próprio nome adianta. Durante a ditadura militar, fizemos uma reforma e, claro, matamos o clássico. Mudamos o nome para “segundo grau”, o que dificulta a compreensão de que mantivemos o currículo do antigo “científico”, e passamos trinta anos dando informações predominantemente científicas a nossos alunos no ensino médio.
Num pacto silencioso, acertamos que o professor de humanas “botaria o pé na embreagem” e, com a anuência da sociedade, valorizamos a ciência, infelizmente, em detrimento das humanidades, no ensino médio no país. O resultado foi um desastre: são um fracasso os ensinos médios público e privado no Brasil. Denúncias aparecem na mídia todo dia.
Esse ensino médio com currículo não só científico, mas também homogêneo é um caminho errado que tomamos. A tabulação do próprio ENEM aponta apenas 6% das escolas como instituições que preparam, realmente, os alunos para os imensos desafios nacionais e globais; as medições internacionais, como o PISA, também atestam nossas incapacidades em todas as áreas – humanas e científicas. 
Em relação às ciências, faço minhas as observações de Richard Feynman, prêmio Nobel de Física, quando veio ao Brasil na década de 50: ao contactar vestibulandos brasileiros, espantou-se com o pendor pela memorização de fórmulas e não pela real compreensão dos fenômenos que elas descreviam. Quando, mais tarde, escreveu sobre a experiência, ele acrescentou que os jovens brasileiros estudavam muita física, mas não sabiam, realmente, a matéria.  
Em nenhum lugar do mundo se pretende ensinar tanto em tão pouco tempo. Meus alunos que querem ingressar numa faculdade de medicina (e para isso precisam ficar com uma média oito) gastam mais dois ou três anos para fazê-lo, além dos três do ensino médio; o número de tópicos apresentados aqui em matemática chega a ser dez vezes maior do que em Singapura, país bem colocado no “ranking” internacional. Em outras palavras, pretendemos ensinar muito em pouco tempo (também considerando o tempo em sala de aula, que é muito pouco ou mal planejado, se comparado com o das escolas mundo afora). E nem percebemos que, num mundo que tem a internet, o saber enciclopédico deixou de ter valor; é melhor ensinar a pensar, julgar, hierarquizar, descartar, analisar...  
Com relação às humanidades, o problema se repete, com mais complicações. Inicialmente, é bom frisar que a cultura da sociedade e, consequentemente, do estudante não valoriza as humanas, apesar de a maioria dos alunos optar por elas – neste ano, por exemplo, tenho duas salas de humanas, uma de saúde, outra de exatas, num dos colégios onde leciono. 
É um absurdo que esses alunos com interesses e talentos tão diversos tenham que cursar a mesma escola. Uma “olhadinha” noutras realidades mostra ou uma escola única com um sistema de créditos (Estados Unidos), ou várias escolas “desaguando” em várias universidades (França). Afora as dificuldades gerais do dia a dia de uma escola que, na minha opinião, são o sintoma de que algo não vai bem, nunca testemunhei ninguém reclamar desse modo monolítico do nosso país, o que me certifica de que ainda demoraremos a começar a fazer modificações nessa estrutura que mereceria ser repensada, já que traz resultados tão pífios. 
Parece que o MEC inicia uma reflexão sobre a pluralização do ensino médio, plano difícil de executar, em virtude do engessamento das leis, da cultura da sociedade, do despreparo dos professores, dos interesses difusos e diversos... Mas essa discussão precisa ser enfrentada por nossa sociedade, juntamente com outra sobre os parâmetros didáticos e metodológicos para o ensino da língua portuguesa, já que a leitura é uma competência paralela necessária para a apropriação do conhecimento nas diversas áreas do saber. 
Esvaziou-se de tal forma a prova de português de conteúdos, que o aluno ou não sabe o que estudar ou acha que não precisa estudar para ela, o que, indiretamente, prejudica-o na prova de redação, até porque ele continua cometendo erros gramaticais, sem conseguir, no processo, aperfeiçoar seu próprio texto. 
Aliás, o processo ensino/aprendizagem de redação traz em si complicadores específicos e adicionais: para bem escrever, é preciso ler, fazer relações entre as informações recebidas, interpretar, selecionar, posicionar-se diante daquilo que se lê, até apropriar-se do conhecimento trazido pela leitura... E escrever é o resultado de todo esse processo. É um percurso complexo e intimamente ligado à individuação de cada aluno; a redação é o espaço mesmo da interdisciplinaridade: conteúdos de biologia, química, física, história, sociologia, filosofia e mesmo gramática precisam ser acessados, organizados, julgados, hierarquizados pelo aluno, para que dê conta da tarefa. Isso tudo, sem falar da literatura, que foi relegada a segundo plano, o que costuma acontecer com a arte na nossa sociedade pragmática e materialista.  
Mas a leitura do texto literário também é fundamental. Diacronicamente, é na literatura que elaboramos impasses, medos, desejos, dúvidas, mudanças, utopias... Um escritor, ou um grupo de escritores, a seu modo, nos dá voz, nos ensina a nos falar, explica o que não entendemos, nos proporciona contato com a beleza, de que também precisamos.   
Não bastassem tantas dificuldades internas, ainda aparece, no final, o vestibular, que projeta sobre esse tão difícil ensino médio uma “sombra”, como sabiamente diz Rubem Alves. Aliás, é aos programas das diversas universidades e seus respectivos vestibulares que se deve o conteudismo do nosso ensino médio.  
O ENEM, apesar das boas intenções, não veio clarificar essa situação, mas confundir mais – temos hoje um vestibular misto (ENEM servindo como primeira fase e uma prova de específicas na segunda fase), que confirmou a valorização das ciências, além de que tirou redação da segunda fase e fez valer a redação do ENEM. 
Acontece que o ENEM é avaliativo, ou seja, por meio dele, pretende-se avaliar como nossos alunos terminam o ensino médio para que se gerem políticas educacionais públicas e privadas para aperfeiçoá-lo. Nesse sentido, o olhar é diferente: o avaliador deve valorizar o que lhe foi mostrado pelo aluno, deve realizar uma avaliação cooperativa. Não é o que acontece no vestibular, quando o olhar deveria ser seletivo, ou seja, o avaliador vai em busca do defeito do texto apresentado pelo aluno, pois seu objetivo é selecionar e excluir. 
É impossível conciliar dois objetivos tão antagônicos, além de que corretores para cinco milhões de redações jamais conseguirão, em virtude no número, uniformização de critérios, o que torna inalcançável a isonomia de condições, imprescindível em qualquer concurso seletivo. 
O que se vê, infelizmente, é um resultado arbitrário que não premia o mérito, mas a sorte e que convida não ao esforço e, sim, à simplificação, ao truque, à dica... Começam a nascer em todas as esquinas falsos professores de redação que, acobertados pelos resultados arbitrários do ENEM e pela insegurança dos adolescentes, dão fórmulas mágicas de como enganar os avaliadores! 
É preciso lembrar que foi contra isso que o ENEM nasceu. 
Proponho que se some à redação da primeira fase, cuja manutenção defendo, já que precisamos como país dessa avaliação para nortear nossas políticas educacionais, outra na segunda fase, até porque temos, em Pernambuco, na Universidade Federal, uma excelente Faculdade de Letras, que, junto com a COVEST, sempre cumpriu com competência e responsabilidade a tarefa de avaliação de textos vestibulares. Além disso, mais recentemente, o aluno tinha obtido o direito de ver sua prova depois de avaliada, o que lhe dava oportunidade de compreender seus erros e, portanto, de crescer como produtor de textos. 
Constitui retrocesso político, portanto, o aluno perder essa oportunidade, já que, centralizadas em Brasília, as provas saem completamente da sua vista. Essa incômoda distância também vitima o professor, porque ele não pode opinar sobre quesitos que, na sua opinião, mereceriam ser anulados ou cujo gabarito deveria ser trocado. 
Toda essa democrática discussão foi trocada, no ENEM, por uma fórmula matemática que, diz-se, resolve impasses, inescapáveis em qualquer concurso, pois falhas costumam acontecer em atividades humanas. 
Isso tudo constitui um desserviço ao processo educacional, já que alija dele elementos seus constituintes – o aluno e o professor; o ato de falar e escutar, de fazer e refazer, de errar e consertar...

Republico abaixo dois textos sobre temas correlatos ao de hoje, com a esperança de ver meu tão amado ensino médio aperfeiçoado no país.


Por que sonhar com uma escola inclusiva (julho de 2006) 


No final de 2000 fui indireta e duramente atingida pela deficiência: meu filho, de então 17 anos, contraiu uma doença neurológica rara que lhe deixou graves sequelas.
Essa história resumida num parágrafo parece rápida e fácil, mas consumiu da família toda muitos meses de lágrimas e dores de toda espécie.
Particularmente, as piores dificuldades concentraram-se naquilo que podia ser evitado e não o foi – desentendimentos com o plano de saúde, com o hospital domiciliar ou audiências com médicos cujos sombrios prognósticos apontavam vida vegetativa seguida de morte.
Apesar disso, em 2003, meu filho voltou a estudar, repetindo o primeiro ano do ensino médio. O quadro que se descortinou, durante três anos, repetiu o que já tínhamos experimentado – sofrimento evitável que potencializa o inevitável.
É sobre essa experiência que este relato se constrói, e as metáforas, com licença, são devidas às dificuldades básicas de tradução de terremotos em palavras. O chão se abriu e caímos num abismo, localizado entre o “não sabemos” e o “não queremos”.
O “não sabemos” veio falado e seguido do “não queremos saber”, velado: os erros foram se repetindo à exaustão durante três anos. Esperei o erro no primeiro ano, mas, no segundo, não. Infelizmente, ele tornou a acontecer...
Sistematicamente, a escola não garantiu a meu filho medidas de acessibilidade arquitetônica, comunicacional, metodológica e programática, o que agudizou suas deficiências.
Seria injusto dizer que foram criadas barreiras afetivas, mas só a acessibilidade atitudinal não faz de uma escola uma escola.
O “não queremos” é crime, por isso não é falado. Mas ele existe no desvão de nossa humanidade incompleta.
Existe inarticulado tanto no pai que quer uma escola conteudística apenas e acha que a pessoa com deficiência atrapalha o aprendizado rápido do seu filho normal, quanto no que finge acreditar que o filho aprendeu uma tábua de conhecimentos pertinente e quantitativamente adequada.
Existe no dono da escola que quer vender pluralidade, sem ser, sem construir e sem formar pluralidade.
Existe escondido no professor que se agarra a fórmulas tradicionais e pensa que não tem tempo para dar atenção especial a nenhum aluno, mesmo ao que precisa disso (e muitos precisam). E que perpetua o sistema, usando-o como desculpa ou como atenuante, a não ser quando reclama do salário.
Existe em todos nós quando sentimos o constrangimento da situação de falar com nosso chefe para levarmos nossa mãe, já com deficiências, ao médico. Esse nó só aparece numa sociedade que não sabe harmonizar diferenças, nem criar confianças.
Existe na escola que finge que todos são iguais e expulsa os diferentes. De todos os matizes. Ou na que aceita o diferente, mas não é capaz de eliminar as barreiras que o derrubam.
Existe no sistema uniformizante que pede ao aluno para escrever sobre “pluralidade” num texto do vestibular que o exclui se ele não acertar a fazê-lo.
A deficiência de meu filho me humanizou: aumentou minha capacidade de sonhar, lançou-me contra o estabelecido, me fez chorar e errar. Também despertou dentro de mim os mais primários imperativos de fuga e suplantação de onde brotou uma energia desconhecida que agora me move.
A clareza decorrente desse processo me fez vislumbrar uma escola que seria uma casa com “sótão” (para atender as habilidades altas) e “porão” (para atender as limitações funcionais) e, não, um lugar que ignora os alunos e seus tempos, interesses, quereres e necessidades particulares, sequencia aulas iguais, sem garantir motivação, e começa a “falar” em aumentar o tempo de permanência do aluno, repetindo aulas expositivas, sem “pensar” nas especificidades e, consequentemente, em atividades também não-acadêmicas que poderiam desabrochar múltiplos estilos de aprendizagem e inteligência.
Trazer a pessoa com deficiência para a escola não é só aceitá-la; é mudar a escola, e essa transformação não só é possível como necessária. O que não é bom para a pessoa com deficiência não é bom para ninguém.
Essa presença na escola é um caminho: como num espelho, ela nos fará assumir nossa natureza complexa e múltipla e nos dará coragem de lutar pelo equilíbrio da balança inescapável que é a nossa convivência – num prato, a igualdade (quando a ameaça é a inferioridade); no outro, a diferença (quando a ameaça for a massificação).
A escola inclusiva é desejável porque todos nós merecemos e temos o direito de pertencer, sem abrir mão de nossas idiossincrasias; é desejável porque precisamos de planejamentos e tratamentos individualizados; é desejável porque carecemos de projetos; é desejável porque necessitamos de diálogo; é desejável porque precisamos uns dos outros; é desejável porque não podemos prescindir de nós mesmos.
A presença da pessoa com deficiência escancara a deficiência de nossa escola e de nossa sociedade. O processo de inserção dessa pessoa implicará o enfrentamento necessário desse problema e o consequente aperfeiçoamento da escola e da sociedade de todos.


O vestibular é justo? (dezembro de 2006)


Alguns países democratizaram o ensino médio há cerca de 100 anos e, aos poucos, foram fazendo o mesmo com o ensino superior. Os Estados Unidos, o Canadá, a Coreia do Sul, por exemplo, levam perto de 80% de sua população à universidade.
É claro que, nesses países, o vestibular não é excludente; se o fosse, esses números não seriam alcançáveis. Exemplificando, nos Estados Unidos, o papel desse exame é localizar o estudante na universidade que melhor desenvolveria suas habilidades.
A sociedade americana trilhou nessa área um caminho que vale a pena estudar: não só construiu a melhor universidade do mundo (o critério é acadêmico – é a mais citada por outras universidades em trabalhos acadêmicos), mas também a que abriga um número espantoso de alunos, até de outros países, que lá aprendem/produzem conhecimento de ponta.
Não se quer com isso defender que esse modelo seja exportado e copiado em todos os outros países, independentemente de sua história e de sua cultura, mas é preciso constatar os efeitos positivos desse sistema para a sociedade global: há avanços científicos e tecnológicos de que se desfruta no mundo, forjados nos inquietos campus americanos.
Para entender o sistema, no entanto, é bom considerar sua pluralidade – nem todo estudante americano, por exemplo, frequenta as chamadas Ivy Leagues, onde só estuda a elite intelectual americana, egressa de qualquer estrato social, identificada através de um exame nacional seriado, que acontece ao longo do ensino médio. Mas não é por isso que um conjunto grande de alunos não terá um lugar no ensino superior: há uma multiplicidade de tipos de universidades que formam de médicos a tratoristas, passando por pedreiros, encanadores, esteticistas, motoristas de táxi, nos frequentadíssimos Community Colleges, onde, aliás, estão 50% dos universitários americanos.
Ensina-se de tudo na universidade americana – artes ou ciências –, principalmente se profissionaliza uma população grande que, através de um conhecimento também humanístico, é capacitada para se debruçar sobre problemas reais e os enfrentar ou resolver, pensando sobre eles.
É conhecida a dificuldade de brasileiros que, estudando nos Estados Unidos, são instados a resolver problemas de empresas americanas que enviam à universidade seus impasses reais para que sejam apresentadas soluções, a fim de superá-los.
Bolsistas ou pagantes (de toda sorte – uns pagam muito, outros nem tanto, porque fazem trabalho voluntário, esportes, arranjam empregos variados, trabalham no campus em creches, no jardim, nas cantinas...), os americanos se orgulham dos números de sua universidade, um sistema complexo e grande, que conseguiu profissionalizar uma população eficiente e rica.
É claro que há outros valores noutras sociedades e culturas e é aí que entram as adaptações e a criatividade de cada povo. Mas o que se quer aqui é apenas considerar o papel do vestibular nesse sistema: localizar o aluno numa universidade para que seus talentos sejam desenvolvidos e aproveitados socialmente, porque a sociedade americana disponibiliza vagas para quase todos. E o vestibular segue as regras desse jogo.
Não é o que acontece na sociedade brasileira, sabidamente uma das mais excludentes do planeta. Apenas 10% da população completa cursos universitários cujos modelos monolíticos variam somente em relação à qualidade dos alunos que chegam: os cursos modelam grade curricular, carga horária, metodologia e didática igualmente, o que, ao longo da formação acadêmica, vai forjando dois grupos de profissionais – o mais capaz e o menos – e, mais tarde, uma multidão incontável de desempregados ou subempregados que mais recentemente resolveu virar a turma que faz rotineiramente concursos públicos, como se fosse possível a uma sociedade empregar toda a sua população na esfera pública, sem a contrapartida da iniciativa privada, responsável pela geração da riqueza.
Muito recentemente começam a “pipocar” universidades alternativas aqui em Pernambuco, como o Instituto Tecnológico ou o Senac, mas são iniciativas recém-nascidas nas quais a população ainda não acredita e que, num processo lento, terminarão por conquistar seu lugar no sistema.
No Brasil, portanto, o vestibular tem um papel diferente do que tem nos Estados Unidos: ele precisa cumprir um “dever de exclusão” porque a sociedade brasileira disponibiliza “vagas” para poucos – certamente uma sociedade excludente precisa de mecanismos de exclusão e nosso vestibular é apenas uma entre as muitas ferramentas que o sistema utiliza para descartar a maioria.
Nosso vestibular é frequentemente acusado de injusto e excludente. E é. Mas ele é apenas a ponta do “iceberg” de nossa lógica política; é apenas a cachoeira de um rio que se estreita absurdamente ao longo do seu leito e que afoga gente demais nas suas águas.
O que precisamos enxergar no espelho desse rio é nossa face refletida. Com um revólver nas têmporas.
É difícil o percurso: democratizar a qualidade do ensino fundamental, quebrar a lógica da reprovação escolar, incluir a pluralidade com suas necessidades especiais, capacitar os professores para enfrentar desafios imprevisíveis, valorizá-los, para que se sintam parte de um projeto social essencial, repensar o ensino médio a fim de prepará-lo para a diversidade que o alcançará, priorizar o essencial e descartar o desnecessário. Sobretudo encarar as disparidades e as contradições.
É difícil. Mas é inescapável e urgente.
O vestibular é injusto, até porque a sociedade brasileira é injusta. Democratizá-la é tarefa de todos e isso se faz num processo lento e penoso de embates de quereres e interesses de toda sorte.
De qualquer forma, há fraturas visíveis na arquitetura dessa lógica excludente dentro de cada brasileiro que começa a se inquietar buscando saídas e soluções. Mas é preciso mais empenho.
Que façamos do espetáculo de nossa desmedida violência impulso para buscar novos caminhos, orientados por outra bússola: a da maioria. E que nossa criatividade e nossa alegria costurem um tecido mais elástico cuja trança seja fruto do trabalho e da participação de todos nós.

Quarta-feira, Agosto 31, 2011

Bicicletas e outros desastres

Débora, nossa diretora do Departamento de Digitação e Marketing, comprou uma bicicleta, e a inauguração desse veículo foi um acontecimento de tal relevância que merece uma referência neste blog.

Os leitores mais antigos sabem que temos um problema insolúvel no “gene das inaugurações”, as quais costumam dar chabu. Já os mais novos podem acessar, no arquivo ao lado, os textos de fevereiro de 2007 e abril de 2008 para conferir. Mas, antes de falar dessa inauguração, digamos, globalizada (mas nem por isso exitosa), quero fazer uma reclamação dos professores de ciclismo.

Não sei bem de onde eles tiraram a ideia de que sabemos andar de bicicleta; de que têm apenas de dizer que a segurarão (mas, na verdade, não o farão) e que, quando a soltarem, sairemos pedalando mundo afora, perfeitamente, porque precisamos apenas nos lembrar... Para eles, lá dentro, no mais profundo do nosso eu, somos ciclistas competentes, porque, ainda no útero de nossas mães, passamos nove meses pedalando.

Meu primeiro professor de ciclismo foi meu primo Ciduca. Ele trouxe sua biclicleta para minha casa e, nem sei se pedi ou se ele ofereceu, montei na “cuja”, quando ele me prometeu:

– Pode subir, vou segurar aqui atrás e não vou soltar!

Eu não sabia ainda desse problema didático-metodológico de professores de ciclismo e, na maior inocência, acreditei. Andei assim uns três ou quatro metros e fez-se o (in)esperado: ele me largou! E eu... caí.

Foi um acidente espetacular: caí por cima do limoeiro de minha mãe e me arranhei toda nos espinhos, além de que havia obras no quintal e me lanhei inteirinha nas lascas do granito que sobravam por todo lado. Fiquei tão ferida que tive febre, no dia seguinte, e prometi a mim mesma nunca mais subir numa bicicleta. Ah! Também doeu o fato de que minha mãe, levantando os olhos das costuras, exclamou:

– Ô menina desesperada, sai de cima do meu limoeiro!

Eu queria sair, é claro, mas não podia nem me mexer, porque estava quase morta e porque episódios dessa natureza costumam desatar acessos de riso incontroláveis na minha família e ninguém tinha condições de me ajudar.

Muitos anos depois, meu filho mais novo, então com seis anos, aprendeu a andar de bicicleta e gostava tanto disso que me disse:

– Ô, mãe, é tão bom... Por que você não tenta?

Eu lhe contei minha experiência desmantelada e ele retrucou:

– O difícil, mãe, é fazer duas coisas ao mesmo tempo: pedalar e dirigir. Mas, se a gente for naquela ladeirinha lá da granja, aí você só vai precisar dirigir. Que tal?

Eu não sei onde estava com a cabeça para achar que ele tinha razão. Levamos a bicicleta ao cume da ladeira... Eu confesso que estava temerosa...

– E aí, mãe, posso soltar?

– Daniel...

Ele soltou! A ladeirinha nem era tão pequena assim... Lembro que minhas bochechas começaram a tremer e, nessa hora, eu descobri uma coisa horrível: meu problema é de direção, porque eu não conseguia governar o que, naquela época, se chamava “guidon” e saí de lado, que nem um siri.

O avô dos meninos tinha tentado plantar umas laranjeiras na ladeira, mas elas tinham morrido e restavam apenas suas covas. Não sei como, passei por cima dos buracos, sentindo na pele o que chamamos por aqui de “catabi”. Para ser sincera, sofri um acidente ginecológico... E fiquei com a sensação de que sempre sofria acidentes cítrico-ciclísticos!

Voltando, então, ao episódio mais recente da inauguração malograda da família... Débora tinha sido aconselhada pelo médico a exercitar o joelho, pedalando. Aí comprou uma bicicleta chinesa por uma pechincha. Chegou aqui em casa toda feliz e pediu a Daniel para armá-la. Fomos todos para a garagem do prédio... A danada da bicicleta demorou que só para ficar pronta. Daniel, coitado, suava em bicas e nada dava certo – os parafusos não apertavam, as roscas remoíam, um negócio difícil mesmo... Mas ele deu por finda a tarefa, lá pelas tantas... E lá se foi Débora para Aldeia, na cidade de Camaragibe, onde se daria a inauguração ao mesmo tempo internacional (dada a origem da bicicleta) e transmunicipal, já que outra cidade sediaria o evento.

Já em Aldeia, nossa irmã Lívia admirou a compra:

– Por esse preço, vou comprar uma também!

Depois do jantar, Débora vestiu-se a caráter, enquanto nosso cunhado Antonio enchia os pneus. Fazendo pouco dos meninos (cujas bicicletas já estão velhas), Débora montou na bicicleta nova e... o pedal voou!

Antonio tentou recolocar, procurou os parafusos, não achou, parece que não havia mesmo, era só uma rosca remoída...

Todos a postos para uma segunda largada... Débora não conseguiu fazer a curva e embicou na casa da vizinha da frente!

Lívia, já reconhecendo o fracasso da inauguração, ria que as lágrimas escorriam. Mas Débora, ainda otimista, insistiu, saiu de bicicleta, depois de uma terceira largada: “Sou boy, sou boy”!

– Ô compra ruim! – exclamou Antonio discretamente a Lívia (sufocada de tanto rir), para não estragar o entusiasmo de Débora.

A bicicleta, Débora descobriu, tinha que ser guiada sempre para frente. Se ela quisesse fazer uma curva, seu pé assava no pneu. E era tão emperrada que nem o mais habilidoso ciclista poderia se equilibrar direito na danada; para compensar a falta de estabilidade, Débora era forçada a tremer o “guidon” e pedalar com muita força...

Alguns minutos depois, volta Débora, a pé, segurando a bicicleta, e sem sandália, porque o pedal saíra de novo e a levara junto, sabe Deus para onde.

Ficaram as duas pensando se a bicicleta não teria sido feita para as chinesas, que têm os pés pequenos. Mas Antonio era categórico: as peças eram de má qualidade e as rodas, grandes demais para a estrutura, as bitolas não casavam com as chaves-padrão de sua maleta de ferramentas...

Lívia e Débora morriam de rir e tentavam, sem sucesso, por telefone, me contar o episódio, já que eu tinha ficado em Recife e não tive a oportunidade de testemunhar essa outra inauguração malograda da família.

Felizmente, pagando a diferença, Débora conseguiu trocar a chinesa (já sem o barro, depois de um banho de mangueira) por outra, no dia seguinte.

Agora, analisando a “psicologia dos fatos”, como diz meu amigo Samarone, podemos chegar a várias conclusões: já sei quanto custa uma crônica minha, a diferença entre os preços das duas bicicletas; a economia é a base da porcaria, como bem diz o pai de Antonio; bicicletas e professores são seres em que não se pode confiar, os dois juntos, então, nem é bom falar; é preciso ter muita cautela com a globalização...


catabi s.m. BN.E. 1 irregularidade de terreno que provoca solavancos em veículos; costela-de-vaca, costela 2 p.met. o solavanco produzido por essa irregularidade ETIM Nasc. sugere orig. onom. SIN/VAR catabil. (Dicionário Houaiss da língua portuguesa)