sábado, abril 20, 2019

FALHA


O corpo e a alma
foram projetados
para a compreensão:
em resumo,
há nas suas oposições
o encarte da vida.

Mas, aos poucos,
inventamos essa dor,
que desordena.

E, agora,
se há outro nome
para corpo e alma,
esse nome
se chama solidão.

quarta-feira, março 20, 2019

CORAGEM


Nem a morte
diz a verdade:
resta de cada corpo
uma memória
tatuada no visível.
e de cada espírito,
uma ausência guardada
mas nunca perdida.

Só uma rara
coragem,
porém,
é capaz de ver
essa teia.

quarta-feira, fevereiro 20, 2019

A LUTADORA (para minha irmã Débora)


                    “Lutar com palavras
                    É a luta mais vã.
                    Entanto lutamos
                    Mal rompe a manhã.”
                   (Carlos Drummond de Andrade)
Acordo muda
e já começo.
A poesia
não se entrega,
só arde.

O dia corre
com suas tocaias,
minha luta se cansa
de inútil e sem eco.
A noite se fecha
nas suas trincheiras.

Reluto
mal nasce
outro dia...

Se me perguntam
por que resisto:
além de ruminar
a vida,
a poesia se veste
dos horizontes pensados
e faz de nós
o que somos.

domingo, janeiro 20, 2019

ESTAÇÕES


Não se sabem logo
as palavras certas
que fazem o corpo:
muita violência
se fia no curso
dessa confecção.

Às vezes,
a soletração
do amor
é uma rima pobre
amarrada
numa cama cheia de areia.

A solução
é desenhada
no roteiro
de muita solidão:
de tanto
convocarem-se
palavras mudas,
elas acabam
por falar
o inapagável.

Ganha-se
a riqueza
derivada da pronúncia
da trincheira.

E o corpo
enfim
acerta
a amar
depois de perder.

quinta-feira, dezembro 20, 2018

MANGUE


Embora desejem,
as duas águas
têm medo.

Mas as marés
não se governam,
e o encontro se dá:
o mangue nasce
no gosto salobro
das ambivalências.

Aí nascem formas bizarras
feito caranguejos e
raízes estranhas,
que a lama mastiga.

Entretanto um mangue
participa da música do mundo
e acha sua inesperada harmonia:
aquela água parada
fabrica parte do absurdo
da vida.

São encontros assim
(derivados não só
do passo da lua
mais ainda – quem  sabe? –
do diálogo inaudível
das constelações)
que consentem
o possível necessário.

terça-feira, novembro 20, 2018

ÁGUA-VIVA


No lado oculto de mim
examino o enigma
do meu corpo:
o desejo é medusa
ali, perpétua, tatuada,
forma que entesoura
o que pelo mundo
se desperdiça –
a caravela
sobrante dos naufrágios
move a minha vida
na linha ambígua
da água

(mergulhado,
certo perigo
esconde-se
em ardidos fios
de mortal veneno).

Entretantas
sua beleza forma-se
de quase nada,
é sugestão escrita
em língua
pouco conhecida e
guarda, na sua púrpura,
outra exclusiva beleza.

domingo, outubro 28, 2018

Hoje


As sombras
reveladas
apenas
apontam outro lugar,
trêmulo de
tanta claridade!

De fato,
não se pode
vê-lo,
devolvido que está
à sua essência
incriada.

Mas ele está lá,
às vezes
sendo de novo
sem ser o mesmo.

Portanto a soletração
do seu mapa
é tarefa
que muito exige:
escuta,
perdões,
outras palavras...

Quase sempre
a correção da rota
é procurar o mesmo
depois de ter encontrado.
Com outra bússola.