Terça-feira, Junho 30, 2009

Outra palavra no mar

Inescrita na água,

esta palavra

nos salvará!


Flutua,

maravilhosa...

Consolaria náufragos

e suicidas...


De ouvir dizer,

adivinhava:

uma pele diáfana

e uma renda de seda

guardam sua absurda beleza!


Mas não consigo pegá-la:

o mar e seus ardis

a distanciam...


Vento contínuo

corrente invisível

onda teimosa...

tudo carrega

a linda bolha

da minha mão.


A minha vida,

raiz prendida,

a esse soluço

dentro do mar...


Busquei sombrinhas,

depois um sino,

saia de tule,

boias de vidro...

Além de tudo

sereias cantam

confundem a busca

já tão difícil...


Esta palavra

tudo resume!

Queria tanto

saber dizê-la...

Se eu pudesse...

nos salvaria...


Este poema

sobre medusas

sou eu tentando,

desesperada...


O mar me ensina

a não desistir.

E, enquanto tento,

queria, ao menos,

ficar melhor!


Domingo, Maio 31, 2009

A agulha e seu limbo

Na minha bússola diferente

está guardado um lugar

onde a viagem comprida

encontra seu porto, afinal.


Uma viagem sozinha

com essa bússola

divergente...

Os remos, pedaços de fogo

na salmoura do vento;

as velas, pancadas brutas,

dessas inesperadas.


É uma bússola bonita

que aponta sítio encantado

com um tesouro escondido:

o mundo inteiro consertado

ao alcance da mão;

o vento alivia o esforço

a chuva lava o cansaço;

o amor (e seus inclusives)

triunfa, aliviado,

depois da última luta.


Mas ninguém sabe essa bússola

fechada dentro de mim

a chave caída no mar

com indícios de ferrugem.


Por isso a mão,

mesmo ferida do remo,

abriu o mar, ajudando,

o rumo contra as correntes.


E o vento no meu rosto

esculpiu aquilo que sou:

esse perfil exclusivo,

talhado durante o trajeto,

vem da viagem rara

que a bússola especial

me obriga a navegar.


(Difícil à noite

manter a rota,

nas tempestades,

na solidão;

o céu escuro,

cheio de nuvens,

vazio de estrelas

e indicações...


Sereias lindas

confundem o leme

ofertam mapas

fáceis demais...)


Minha bússola

(essa agulha imantada

dentro do seu limbo graduado),

apesar de seus ângulos

de medição assimétrica,

levará meu navio

na direção do tesouro:

no espelho,

verei meu rosto

mais verdadeiro;

na aurora clara,

divisarei nítidos roteiros;

não temerei

nenhuma mão estendida;

descansarei, sossegada,

no abraço que preciso.

Quinta-feira, Abril 30, 2009

Consuelo

Sou a campeã das histórias fabulosas da minha família, na atual geração. O episódio vitorioso, "Trança e Coque", está aí ao lado, no arquivo, em julho de 2007. Isso, inclusive, é genético, não sei se histórias estranhas acontecem conosco ou se temos um jeito especial de contá-las e, aumentando-as com detalhes hilários e nem sempre verossimilhantes, admito, temos a fama de bons contadores de histórias. Um dos tios de meu pai assumia isso numa boa e costumava dizer:

– Quem manda a verdade ser sem graça?

Mas, no fundo, acho que temos um sentido especial para a atração de duas coisas: o “episódio metonímico”, que acontece com todo mundo e com que todos se identificam, e as pessoas meio loucas que vivem por aí e se aproximam dos incautos.

Quando contamos histórias dentro dessa equação, fazemos o maior sucesso. Um amigo disse outro dia que somos uma “família narrativa”. Adorei isso!

Pois bem: vocês sabem que sou duplamente sócia de minha irmã Débora – neste blog, no qual ela é a diretora do Departamento de Digitação e Marketing, cargo essencial e necessário à periodicidade e à organização geral, e num curso de português para o vestibular, em que ela é tudo, porque sou muito atrapalhada e, se não fosse ela, como ela mesma diz o tempo todo, “essa empresa não iria para frente”. Basta dizer que, no último feriadão da Semana Santa, minha tia Eugênia telefonou, perguntando se eu queria viajar com ela e eu, sem nem me lembrar da aula, disse-lhe que sim, que adoraria ir com ela. A felicidade foi que na quinta-feira, “en passant”, eu disse a Debe:

− Amanhã, vou viajar com tia Gena.

− Você está louca? E a nossa aula?

Tive que ligar e dizer que não podia viajar, e a pobre da Debe passou uma semana se queixando de que o curso fica nas costas dela, que a empresa assim não não vai para frente etc. etc. etc...

A coitada organiza tudo, faz todas as compras, fica toda nervosa e eu, meio zonza, só agradeço e dou minhas aulas.

Um dia lhe confessei que gostaria de ajudar mais nas complicações empresariais e familiares, e ela exclamou:

− E tua vida é refresco, mulher?

Na semana passada, aperreada para terminar logo de preparar minhas fichas para o dia seguinte, derrubei a caixa de grampos, que se espalharam pela sala inteira. Apanhei tudo bem direitinho, mas eles cresceram e se multiplicaram quando se partiram e não couberam na caixinha de volta, apesar de minhas tentativas. Quando cheguei em casa, telefonei logo para Debe:

− Debe, tenho um crime para confessar: derrubei a caixa de grampos, novinhos em folha, que você comprou e não consegui botar de volta... Você me perdoa?

− Se não fosse eu, o que seria dessa empresa, meu Deus, ela exclamou, rindo. E, no dia seguinte, quando cheguei ao curso, estava tudo arrumado e perfeito, como ela gosta.

Débora tem um senso de humor ácido, franco e muito engraçado e sai com cada tirada... Foi dela o diagnóstico de que minha casa é uma “mundiça sem remédio” (no arquivo ao lado, em abril de 2008, "Chá de rolha - 10"), descrição competente e irretocável, vale a pena frisar.

Há algumas semanas, no nosso curso, sistematicamente, começamos a receber ligações de um homem procurando Consuelo. Nossa empresa recém-nascida não tem secretária e, toda vez que o telefone toca, uma de nós ou meu filho Daniel, que nos dá uma mão com as cópias das apostilas, tinha que largar o que estava fazendo para dizer:

− Aqui não há nenhuma Consuelo, foi engano.

Nossos alunos já estavam achando graça quando o telefone tocava e eu dizia, antes de sair da sala:

− Coitado! O bichinho ainda não encontrou Consuelo...

Aí, quarta-feira, aproveitando que era Débora que estava na sala, expliquei melhor:

− Senhor, por favor, já dissemos várias vezes, aqui é um curso de português; há pelo menos dois anos, esse telefone não é mais de Consuelo...

− Desculpe − do outro lado, o homem respondeu.

Desliguei o telefone. Daí a pouco, o telefone volta a tocar:

− Alô! – eu disse, já irritada.

− Desculpe, eu liguei antes, acho que há algum problema no dial do meu aparelho; sem querer, liguei de novo, desculpe, não sou do mal, desculpe...

− Tudo bem, respondi e desliguei de novo.

Aí o telefone tocou de novo. Eu nunca pensei que seria o órfão de Consuelo novamente, achei que fosse outra pauta...

− Alô?!

− Por favor, não desligue! É que sofro de depressão, Consuelo costumava me escutar... Meu nome é Genilson, não sou do mal, como já disse; sou, inclusive, militar reformado...

− Meu senhor, eu sinto muito...

− Como é seu nome?

− ... Flávia... − respondi, com um fio de voz, hesitante.

− Flávia, veja bem, observe, tudo isso é uma conjunção cósmica, você não acha? Será que você não poderia substituir Consuelo? Você não acha que é coincidência demais? Eu telefonar assim, quase sem querer, e você atender? Poderíamos conversar... Quem sabe, até eu poderia estudar português aí... Sofro de depressão...

− Escute, respondi, tentando ser ríspida, aqui é um lugar de trabalho... Não é possível... Até logo... Desculpe... Acho que a conjunção cósmica errou.

Desliguei.

Passou bem depressa pela minha cabeça um verso que escrevi: a mão que suplica do poço carrega uma arma?

Todo mundo que soube da história ficou com pena de Genilson e horrorizado porque eu disse que a tal conjunção estava errada. Acho que muitos acreditam que conjunção, quando é cósmica, é certa, mesmo que o observador seja deprimido e desorientado.

Na verdade, tive medo.

Pensei nas cidades grandes, onde tantas pessoas estão juntas e, ao mesmo tempo, tão sós e infelizes... Em como é difícil ser gente, num mundo hostil e desumanizado, onde é mais seguro ter medo... Nos nossos meios de comunicação tão maravilhosos, mas que não nos ajudam a vencer a nossa babel e a nossa solidão... Naquele homem doente, que não sabe pedir ajuda... ou que pede ajuda a quem tem medo de ajudá-lo... ou que, de propósito, pede ajuda à pessoa errada, porque lá dentro a sua dor é o que ele tem, sem querer perder...


A Consuelo, que ajudou Genilson, antes de se cansar e vender o telefone.

Domingo, Março 29, 2009

Março despedaçado

Meu começo de ano foi de uma tristeza avassaladora: fui revisitada pelo abismo, a palavra que uso para as coisas humanas fundas que não consigo entender. Toda vez que isso acontece, como num pesadelo, todos os meus abismos voltam e os reavalio e comparo.

Tenho dois abismos principais: a doença que interrompeu meu filho do meio e o meu casamento; os outros abismos são menos meus, mas de todos nós. Ou seja, tenho, dentro de mim, abismos pessoais e gerais, como todas as pessoas, só que também tenho coragem (minha tia Germana diagnosticou-a como gentil e preguiçosa, com a ajuda de Guimarães Rosa) e jeito (apreciar arte me deu a ferramenta de ver tudo de uma maneira pessoal) para analisá-los e, como já disse, com medo da parábola dos talentos, falar deles (o texto está no arquivo ao lado, em janeiro de 2008).

Meu primeiro abismo é de todos o mais fundo; com ele aprendi que coisas horríveis acontecem com pessoas boas e que Deus, às vezes, não nos ouve, apesar de nossas insistências. Eu poderia não dizer essa segunda parte, mas aí ninguém teria ideia da proporção desse abismo dentro de mim.

Para resumir o que aconteceu, uso um raciocínio de Singer, sobrevivente do holocausto nazista: “Quando estou feliz, lembro o campo de concentração e concluo que não é tão bom; quando estou triste, lembro-o também e resumo que não é tão ruim". Isso mesmo me restou – desde o fato, nunca mais fui feliz, nem infeliz, só alegre, o que é mesmo diferente.

Meu segundo abismo diz respeito àquilo em que acredito e que, na prática, falhou: creio veementemente no amor, na delicadeza e, principalmente, na capacidade das pessoas de se reconstruírem noutra direção. Acreditar nisso, lutando, durante um tempo longo demais, e avaliar o desperdício foi muito doloroso. Mas esse abismo eu consegui pular, era menor. Continuo a pensar da mesma forma, só que, como uma ostra, guardei minhas pérolas e não sei se serei capaz de mostrá-las novamente; agora tenho medo.

Alguém poderia pensar que há uma incoerência entre o fato de me considerar corajosa e o medo, mas essas palavras são pertencentes – não há coragem sem medo.

Uma cirurgia que me abriu o peito e me deixou uma ferida em carne viva me fez revisitar esse último abismo, de forma transitiva direta, e a perda de um sobrinho recém-nascido, de forma transitiva indireta. Mas as cicatrizes começam a nascer...

As crônicas lindas do meu amigo Samarone costumam me inspirar e, na última, ele falou algo em torno de que somos todos do interior e que temos um imperativo de fuga, traduzido na expressão “fugir com o circo”. É verdade.

Ao ler o texto, lembrei-me de uma história hilária de nosso arquivo familiar: um dia, em Taperoá, resolvemos assistir ao espetáculo de um circo mambembe lá chegado, Gran Circo-Tourada, com hífen.

Como nosso dinheiro era pouco, arregimentamos todas as carteiras de estudante, possíveis e impossíveis, e, em alegre corso, chegamos à bilheteria:

– Meia entrada? O que é isso? – perguntou o bilheteiro.

Dá para ver o começo do esquema... Quando entramos, as arquibancadas eram, literalmente, um puleiro, difícil de explicar: havia uma espécie de cerca de pau-a-pique, com uma tora para apoiar os pés, e outra para segurar com as mãos; nela, ficamos todos em pé, num equilíbrio instável e perigoso, como o das galinhas na mesma situação, coitadas.

Os bois do título, aliás, os únicos animais do formidável e inesquecível espetáculo, tão assustados quanto nós, batiam na esquisita estrutura que, juntamente com a do circo, balançava, forjando um terremoto metafórico indescritível e ameaçador.

Todo o circo era uma gambiarra: os sapatos dos palhaços traziam uma ripa de madeira na frente, colada embaixo, provavelmente, porque o circo não tinha recursos para comprar sapatos de palhaço de verdade; as roupas eram mulambentas; a ajudante do mágico estava grávida e, bocejando de sonolenta, coçava seu ventre avantajado; os “touros” eram perebentos; e o número dos palhaços, pornográfico...

No meio do “espetáculo”, me deu vontade de chorar, com pena de tudo e com vergonha de Rafael, um amigo salvadorenho do meu irmão, que estava conosco e tinha ido visitar a cidade e o circo, como turista. Avalie...

Saímos – as três irmãs – estropiadas de temor, vergonha e pena, até porque ficamos com problemas de consciência social por ter conseguido, depois de explicações urbanas, convencer o bilheteiro a nos vender as entradas por metade do preço! E, como pudemos constatar, o circo estava abaixo da linha de pobreza e precisava de uma bolsa-escola para sobreviver.

É claro que, se eu fugisse com um circo, não seria com esse, do qual eu, antes, fugiria, com certeza, se tivesse antevisto a desgraça.

Esse circo é triste e alegre... Como a vida...

Um dia, eu li uma história da tradição popular japonesa que, talvez, me ajude a concluir esta crônica de hoje: um homem, fugindo de um leão, caiu num abismo cheio de cobras, mas conseguiu segurar-se nas pedras e raízes da parede. Sem saída, notou que, ao lado, havia um pé de morango, carregado de frutas, e, então, entre leões e cobras, pendurado, começou a saboreá-las, devagar e com prazer.

Sou assim mesmo: caí em abismos; nem sei como, curei as feridas; as cicatrizes, à flor da pele, me acompanharão... A literatura é meu morango ou meu circo, tanto faz... É com ela que, para suportar, fujo, como o personagem de “Abril despedaçado”. E compreendo.


Para Samarone Lima, de novo.

Sábado, Fevereiro 14, 2009

Sobre abismos

“Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só
a fazer outras maiores perguntas.” (João Guimarães Rosa)

De repente, me pego pensando sobre as palavras. Já disse por aí que fico com elas no coração um tempo, olho seu significado no dicionário, vou avaliando-as como quem observa um diamante, seus ladinhos tantos... E, na escrita, guardo o que vou descobrindo.
Esses dias, duas palavras me povoaram – destino e escolha.
Os gregos antigos já disseram foi muito sobre a primeira, eles que nem sequer tinham uma palavra que significasse “livre arbítrio”. Seus oráculos traduzem, nas suas narrativas, seus medos, sua reverência, sua subordinação a essa ideia infeliz de que nada, em nosso destino, pode ser mudado.
É claro que sei ser a nossa circunstância uma espécie de destino ingovernável. Mas há sempre um espaço e um jeito dentro de qualquer prisão.
Numa das nossas mais primeiras e mais queridas narrativas, Sófocles conta a história de Édipo, que terminou, sem querer, cumprindo seu destino horrível.
Ainda nos restam resquícios dessa ideia difícil nos desvãos de nossas superstições, no poder que ainda delegamos a interpretadores de cartas, mãos, búzios e astros de saberem o que, sem remédio, nos espera. Porém não me parece que isso tem, hoje, o peso que tinha na Grécia antiga.
Também, nesse intervalo, nasceram as três grandes religiões monoteístas, erramos um tanto em nome delas e ganhamos um Deus onisciente, onipresente e onipotente que coordena tudo e todos. Além disso, Ele nos deu um presente, o livre arbítrio, que não sabemos usar. Tudo junto – injustiças, arbitrariedades, violências, fome, ignorâncias... – foi justificado, aceito, naturalizado, explicado como “a vontade de Deus”.
Desse modo, a palavra destino enfraquece, e Deus aparece com uma força sem medida. Machado de Assis transcreve essa ideia numa frase clara: “Ninguém pode decidir o que há de fazer amanhã; Deus escreve as páginas do nosso destino; nós não fazemos mais que transcrevê-las na Terra”.
Não me parece boa a ideia de que Deus escreve a nossa vida prevendo maldades para nos dar como presentes...
Então, a modernidade chega e nos traz quatro palavras cruciais: igualdade, liberdade, fraternidade e indivíduo. Ou seja, somos livres para pensar e agir e, portanto, responsáveis pelo nosso próprio destino, numa sequência de escolhas que o vão forjando. Essa ideia tem a cara do nosso tempo, que hipertrofiou o eu e a matéria e tirou Deus do centro do pensamento.
Mas, como diz Guimarães Rosa, uma coisa é arrumar as ideias; outra é lidar no diário com pessoas e suas mil e tantas misérias, mais ou menos isso: e o que constato é que escolhemos às cegas, às vezes, e só depois é que verificamos o erro – nossos medos, nossas fraquezas, nossos projetos falidos, os episódios ruins que nos atropelam ao longo da vida, nossas ignorâncias, tudo turva a nossa visão, e confunde, e dificulta...
Mesmo assim, algumas vezes, escolhemos (ou cumprimos?) nosso destino e tudo se encaixa: é quando o que devemos fazer é o que queremos fazer e, então, o rio flui no seu leito perfeitamente.
Mas, na maioria das vezes, quedamos inertes, sem saber o que é certo e melhor, mesmo que dentro da palavra escolha esteja a capacidade de escolher bem (somos inclinados naturalmente para o bem?).
Por outro lado, há também, nesse conjunto de palavras, a liberdade individual de escolher o mal. O que faz alguns de nós irem por esse caminho é um mistério, desses que nos ocupam sempre e sempre: arte, ciência, todas as áreas de nosso saber pesquisam motivos, explicações, perdões, punições... Como todos, sei pouco sobre isso: escolher o mal é perder Deus e o homem de uma vez. É perder tudo. Inclusive a liberdade. Porque o mal é uma prisão sem porta e sem janela.
A pessoa vem destinada a ser má? De quem é a responsabilidade disso, só dela? Ela é má ou doente? O mal está na sociedade? No indivíduo? Por que nossas tão necessárias relações são, ao mesmo tempo, tão difíceis? Onde mora a força dos que suplantam seu próprio destino? Ou a fraqueza dos que desistem?

Sábado, Janeiro 10, 2009

A casa

Vista assim de cima,
vencida,
desabitada,
nem mostra o que guardou:
amor
risos e sonhos;
malogros,
medos e dores.

Permanece
inerte,
apesar de tudo que houve.

A casa conta
projetos
desenhos
de muito antes de mim.
Há muito repousa
instalada
num pedaço de chão.

Aquela que fui
se mirou
no lago do jardim,
cujo espelho não guarda
minha imagem de então,
lacrada em algum retrato
sem cor, nem sentido.

As coisas têm um calendário
só delas,
secreto,
parado,
além de tudo que sou:
a casa restará imbatível
mesmo depois que me for.
(pintada de novo
recebe
outro recomeço
inocente).

As coisas,
o que pretendo
com tê-las?
Ganhar seu jeito de ser?
Guardo tudo
um segundo
na palma da minha mão?

As coisas me seduzem
porque quero ser como elas
(e somos como nós mesmos):
o relógio
na parede da casa
está é dentro de mim.

Sou a única que passa
nesse mundo que ficará.

Outras histórias
se contam
dentro da casa
de novo.

As coisas
reinventadas
reinam
incólumes
em seu reino...

Mas tenho
uma pérola sigilosa
na minha ostra
cardíaca:
uma íntima senha
que revela
o sem-sentido
das coisas
e justifica
meu motivo depois...

Segunda-feira, Dezembro 01, 2008

Uma história sobre tudo - 2

Não houve rumores. Minha irmã Lívia e seu marido o viram no Fórum de Custódia. Falaram dele naquela confusão da chegada de Caio e Vitória. Imagino que isso levou Débora a pensar durante um tempo que não consigo precisar. Aí, nem sei quando, anunciou:
– Vou adotar Ricardo.
A partir daí, começou a escrever um diário para registrar os passos, as correspondências e os diálogos com a moça do Conselho Tutelar e o juiz. Falaram-se por telefone e, no meio da semana, ela me disse:
– Sábado, vou ao interior conhecer Ricardo.
Não sou mulher de abandonar uma irmã na porta da maternidade. E, no dia marcado, fui com ela ao abrigo. Meu filho Daniel foi conosco de bússola e de bom que é. Fizemos uma confusão tão grande na saída que nos atrasamos. Quando entrei no carro, vi o diário, perguntei o que era aquilo e pensei, depois que Débora disse, “Ele não vai nem se importar...”. E seguimos.
Quando passamos por Escada, ela contou que já tinha corrigido umas provas de vestibular para uma faculdade de lá. Houve uma questão que pedia um adjetivo que substituísse a expressão “que não pode ser habitada”. Vários candidatos escreveram “anecúmena”, e a comissão precisou procurar no dicionário para saber que estava certo. Seguimos. Duas horas depois, chegamos.
O abrigo é uma granja onde vivem cerca de quarenta adolescentes. É dirigido por um padre que tem cara e nome de anjo. Gostei dele porque, quando Débora disse que ia adotar Ricardo, ele a aprovou com olhos tristes e doces. Há uma casa maior, com um alpendre sem cadeiras, de tijolo aparente, e muitos quartos de um lado, um jardim bonito e, lá embaixo, nos disseram que havia animais e uma horta. Ficamos sentados no chão. A dor que esse abrigo provoca não é na arquitetura, é na alma, apesar do anjo.
– Esse abrigo não tem, eu disse.
– O quê? – Débora perguntou.
– É apenas isso, não tem, como Macabéa, de “A hora da estrela”, de Clarice Lispector, eu respondi.
Aí ele apareceu. De olhos baixos, calmo, meio sem jeito, recebeu as coisas todas que trouxemos, foi guardá-las e voltou para ficar conosco, com o diário na mão. Com seu jeito manso, falou muito e, lá, acolá, lia o texto. Calava. Falava. Lia. Aí exclamou:
– Vou decorar de tanto ler esse papel e não vou conseguir entender o milagre que está acontecendo na minha vida.
É preciso ver a tranqüilidade de Debe. Tão agoniada que é, está cheia de certezas, feliz, não titubeia, e isso tudo deu a ela uma calma que ela normalmente não tem.
– Fico imaginando o que vocês estão pensando... Tenho quinze anos, todo formado... – ele falou.
– Não estou pensando nada, meu filho, sossegue, Débora respondeu imediatamente.
Nenhum de nós sabia direito o que falar, eu só sabia o que chorar. Olhei aquele menino triste com cuidado, vi que o sapato que havíamos trazido ficaria grande, sabia depois de cor cada detalhe, quando as pessoas perguntaram. Débora não sabia nada. É bom dizer que somos o contrário disso – sou distraída, e Debe, ligadíssima. Mas nesse dia trocamos os papéis. Sem combinar nem ensaiar.
Apenas um menino do abrigo ficou conosco durante a visita. Assim que chegou, notei que ele tinha déficit cognitivo. Num rompante, terminou por me perguntar:
– O que é isso? – e apontou meu colar.
– Uma folha, respondi.
– É de comer?
– Não, é de enfeitar...
Aquele abrigo é um lugar difícil de entender. Difícil de aceitar. A beleza sobrante de minha folha prateada virou punhal de gelo dentro do meu coração. Tenho vontade de chorar quando uma coisa parece “um saco meio vazio de torrada esfarelada”, como Macabéa, de novo, eu que sei de cor que nada é mais essencial do que o supérfluo, até porque nos falta mais do que comida. Mas, naquele lugar, minha folha prateada, inútil, como tudo que é belo, era um escândalo.
Quando nos despedimos, meu filho disse a meu sobrinho:
– Tua vida vai mudar, cara.
– Para melhor, pela primeira vez, ele respondeu.
Saímos em silêncio. Eu mesma não sabia o que dizer. De vez em quando, chorava, enquanto obras na estrada e plantações de cana passavam, ao som dos blues de Daniel.
– Que lugar anecúmeno, ele disse, muitas músicas depois.
Nosso silêncio concordou.
De uma forma que não sei, queria pegar aquele menino triste no meu colo e abraçar como fiz com Caio e, principalmente, com Vitória, que, antes, era a que tinha mais marcas. Queria saber dizer a ele uma cascata de palavras suaves para que ele esquecesse sua vida inteira em lugares como aquele. Queria acertar a pegar a sua mão e mostrar a ele que há um mundo diferente depois dos muros. Além de tudo, queria acertar a fazê-lo enxergar que, nesse mundo, há não só coisas, mas também valores. E que minha folha prateada não é apenas prata, é também beleza.