domingo, outubro 28, 2018

Hoje


As sombras
reveladas
apenas
apontam outro lugar,
trêmulo de
tanta claridade!

De fato,
não se pode
vê-lo,
devolvido que está
à sua essência
incriada.

Mas ele está lá,
às vezes
sendo de novo
sem ser o mesmo.

Portanto a soletração
do seu mapa
é tarefa
que muito exige:
escuta,
perdões,
outras palavras...

Quase sempre
a correção da rota
é procurar o mesmo
depois de ter encontrado.
Com outra bússola.

sexta-feira, outubro 26, 2018

Duas areias

Com areia colorida,
alguém a desenhara.
Cada grão
(imune ao vento
e contido
no seu exato milímetro)
completava
a linda árvore
presa na garrafa.

Mas a vida
a derrubou,
e as areias
se ferem
e perdem
seus antigos
formatos.

O punhado
de longe verde
na mão ferida
é um perigo:
seu brilho nítido
exige cautela
e pede perdões
preventivos...

É que se forja
com certa tristeza
e muito temor
diversa faca
de vidro feita,
um tanto verde,
um tanto rubra.

domingo, setembro 30, 2018

Desafios do ensino da literatura na escola


“A literatura não se faz para ensinar: 
é a reflexão sobre ela que nos ensina.” 
(Jacinto Prado Coelho)
        
Como todos sabem, sou professora de Literatura no ensino médio privado do Estado de Pernambuco, tarefa que exerci não só na escola formal, mas também na rede paralela de aulas particulares da cidade, na qual pude fazer com mais liberdade o que sempre achei que devia, sem muitos obstáculos formais, e dentro de uma relação mais leve de custo-benefício, confesso.
De início, é preciso explicar o que ensinar literatura significa: estudei muito e compreendo o mundo a partir do seguimento da linha cronológica da História da Literatura Ocidental (e um pouco das artes plásticas) – a literatura brasileira dentro dele, evidentemente − desde a Idade Antiga até os dias atuais. Por meio da narrativa de sentidos históricos, sociais, culturais e simbólicos que é possível extrair dessa sequência de estilos de época, pude proporcionar a mim mesma e a meus alunos a tal reflexão para que o crítico português Jacinto Prado Coelho atenta na sua frase cuja clareza e obviedade tanto me têm ensinado, ultimamente.  
Acontece que vi esse saber sendo tão desvalorizado, paulatinamente, ao longo de minha trajetória profissional, que estou hoje aqui apreciando os resultados desse processo que terminará, ao que parece, por tirar a História da Literatura das salas do ensino médio. É preciso que se esclareça que não é a Literatura que está ameaçada, ao contrário: bienais, feiras literárias, fãs clubes e seguidores de escritores, resenhas no Youtube, adaptações de livros para o cinema, ofertas de graduações e pós-graduações de escrita criativa em diversos estados brasileiros... comprovam que mais do que nunca há canais abertos para a apreciação e a produção do texto literário. O que está em xeque é o ensino da literatura.
A relação da escola com a Literatura é bem ambígua: elas se dão bem, exceto quando a segunda convida a imaginação a pensar novas ordenações fora dos limites habituais. E isso não é raro, diga-se de passagem. Somada a outras questões contextuais nacionais e globais, essa ambiguidade tomou, recentemente, uma proporção tão notável, que se constata um afastamento invisível e sistemático entre a literatura e a escola e seus currículos. Como acho que a população brasileira não tem consciência do que está acontecendo, tenho exaustivamente denunciado e analisado causas e efeitos dessa política (não creio que inconsciente por parte de gestores) de verdadeiro apagamento das contribuições que a Literatura (e todas as ciências humanas) podem trazer para o tecido social brasileiro.
A construção processual e o fortalecimento cotidiano de uma democracia, na minha opinião, se devem, de início, a uma “atmosfera social” de reconhecimento de todos como merecedores de direitos iguais, embora sejam respeitadas as diferenças identitárias. É desnecessário lembrar que não é na aula de ciências que pautas como essas têm espaço. Em outras palavras, o desleixo com as humanas, o enfraquecimento dos movimentos sociais e a simplificação do currículo e, portanto, da escola de nossos jovens desestabilizaram profundamente o país. Não só: desviaram-no da direção de maior inserção que tínhamos encontrado. É claro que reconheço que há um contexto também global que foi ator desse processo. Porém, internamente, muita vitamina foi dada ao diabo. Como começou tudo isso?
 Acho que a primeira causa está na Universidade, que começou a questionar o ensino da História da Literatura, afirmando que os alunos estudavam literatura mas não acessavam o texto literário, ou seja: com certa razão, a Academia chamava atenção para o fato de que se estudava um discurso sobre a literatura e não a literatura. De fato, o texto literário, às vezes, na escola, tinha se transformado num mero pretexto para o estudo da biografia dos autores e da gramática normativa, embora isso se deva, talvez, à falta de conhecimento do como fazer e de reflexão sobre para que fazer e não propriamente a uma proposta de ausência total dessas questões na análise das obras.
O texto literário tem suas especificidades. E uma delas é a rede complexa de informações que tem de ser acessada para a sua compreensão: o contexto em que a obra foi escrita e alguns pontos da biografia de seu autor, por exemplo, são informações cruciais para se entender a obra, até porque um dos objetivos da Literatura é elaborar tanto a realidade circundante quanto a subjetiva. Nesse sentido, o conhecimento do contexto histórico e de alguns pontos da biografia do autor são informações necessárias para o entendimento do texto literário. A questão é de "cubagem".
Na verdade, penso que a escola é coadjuvante importante mas não único para os letramentos, o literário incluído, os quais são uma construção ou uma apropriação subjetiva, antes de tudo; essa instituição dará ao aluno algumas ferramentas ou pontos de partida, é claro. Mas a escolha dos “nossos” livros é uma ação que se empreende fora ou depois da escola, quando poderemos, numa busca desinteressada, achar aquele livro que não conta uma história, mas a que nos ajuda a contar ou a entender a nossa história.
Mais ações sociais e projetos devem ser empreendidas pelos Ministérios da Educação e da Cultura, por Organizações Não Governamentais, entidades privadas e públicas, bibliotecas, clubes de livro e de leitura, famílias... para complementar o papel da escola, que tem limites e não pode sozinha resolver todos os problemas e demandas sociais, nem formar leitores desinteressados em ser formados.
Na verdade, eu mesma penso que ler um texto literário é uma relação muito íntima com o autor, a qual só pode ser intermediada com muito cuidado; recitar um poema ou ler um conto, cuidadosa e cooperativamente, por exemplo, é possível numa sala de aula... Já o romance é um gênero desafiador nesse ambiente ou mesmo numa sociedade que se distancia aos poucos do silêncio, da atenção focada, da lentidão... Feliz ou infelizmente, há um ponto em que o aluno tem de por si só empreender a ação de pegar o livro e fazer o esforço de lê-lo.  
É evidente que percursos anteriores a essa ação a tornarão menos árdua: a contextualização da obra, o levantamento de pontos da biografia relacionados ao texto, a leitura de resenhas de leitores anteriores, a discussão de alguns raros pontos teóricos, como narração, ponto de vista, foco narrativo são pontos de partida irrenunciáveis. Mas ler é uma comunicação intersubjetiva, não dá para fugir disso.
E é bem difícil construir leitores numa sociedade que não valoriza a leitura nem oferta tempo livre e silencioso para ler. E a escola tem pouco o que fazer em relação a isso e até replica essa hiperocupação do aluno e do professor, a qual impede a leitura e a reflexão. 
Outra ambiguidade da relação escola-literatura está na leitura dos livros conhecidos por “clássicos”. É compreensível que a escola tenha um apreço por eles. Mas acho que já chegamos a um consenso sobre o ponto de que essa leitura não deve ser obrigatória. É a diferença entre fazer sexo com amor e ser estuprada, desculpem a comparação... Desse modo, falar dessas obras com amor por meio de sua localização no tempo e levantar uma teia de informações de artes plásticas, História, Geografia, Filosofia e Sociologia que se “linkam” entre si talvez seja o que se pode fazer para começar a apresentá-las para os mais novos. Não me parece que o mercado editorial esteja interessado em fazê-lo.  
A segunda pancada nas humanas foi o processo de formação e subsequente desenvolvimento da sociedade global de massa e seus convites, que foram se tornando, na verdade, uma espécie de bombardeio de dados tremeluzentes, viciantes e desconexos, com um paradoxo embutido: ao passo que intensificam a comunicação global instantânea, os meios de comunicação de massa ameaçam apagar sussurros locais. Essa sereia hipermoderna tem, de forma subrreptícia, feito a realidade social, com seus deveres e preocupações éticas e, portanto, coletivas, parecer sem sentido e, portanto, desnecessária. E a palavra “desejo” ficar perigosamente sinônima da palavra “direito”.
Nesse contexto, é preciso notar como o descuido e a descrença em relação às artes põem em perigo nossa qualidade de vida; é urgente aprender a se proteger contra a tirania da propaganda e, consequentemente, dos bens materiais. E não me parece que uma educação focada nas ciências apenas há de construir democracia, sustentabilidade e distribuição de renda.
Sem o exercício da alteridade que as artes e, principalmente, a Literatura proporcionam, não seremos capazes de nos colocar no lugar do outro, para chegarmos à conclusão inequívoca de que precisamos distribuir melhor nossas riquezas e nossa natureza, porque o outro é alguém que tem humanidade e direitos legítimos.
Uma maneira de retomar o foco é oferecer aos olhos de nossos jovens e mesmo adultos oportunidades de percepção estável da beleza e da ordenação, ou seja, da contemplação da Arte.
A terceira pancada foi a do materialismo, que nos transformou em seres não só incapazes de ver além do social e do econômico, mas também motivados por necessidades e desejos apenas materiais. Por conseguinte, o objeto artístico foi condenado a se tornar uma agenda política das questões contemporâneas e ficou subordinado a slogans, partidos e interesses mascarados. 
A História da Arte não é uma narrativa arbitrária e imperialista; é um acervo em que estão registradas as refrações de nossa consciência, de nossos sonhos, de nossas conquistas; em que estão guardadas as nossas tentativas nem sempre exitosas de entender o diferente, de nos aproximar dele, apesar do medo, de lutar por ele e de falar por ele, quando isso lhe é impossível; em que estão inscritos os nossos erros, defeitos, perdões, esforços, elaborações, ressignificações...
A quarta pancada foi dada pelo que chamo de levantamento de oposições simplistas. Essa tendência é muito perigosa em qualquer sociedade moderna, porque as pessoas passaram, aos poucos, a se perceberem diversas em relação a religião, etnia, acesso à renda, classe, gênero, sexualidade, diversidades identitárias...
Depois da valorização ocasional que tiveram as ciências humanas −  a Literatura (e as artes plásticas) incluídas − pós Segunda Guerra Mundial, quando grandes humanistas surgiram das cinzas, devagar, foi ganhando corpo a ideia de que nossas crianças e jovens tinham que estudar mais as ciências naturais, para não só criar riquezas, mas também nos recuperar de seguidas crises econômicas. Isso até pode ser verdade. Entretanto, entre o foco nas ciências naturais e a desvalorização das humanas, há milhares de pontos que precisam ser examinados, pensados, avaliados... É esse comportamento simplificador – as ciências produzem riqueza e as humanas não − que denuncio aqui.
E mais: professores e técnicos que defendem uma educação só científica, na minha opinião, não ignoram a Arte, querem apagá-la do currículo, como já estão fazendo. Pois a percepção do contraditório da realidade humana que a Literatura (e a Arte, a História, a Geografia, a Sociologia e a Filosofia) permitem é inimiga do absurdo moral necessário para executar desenvolvimento econômico cego à desigualdade.
Recentemente, escrevi textos em que convidei à reflexão, à escuta e ao diálogo, que, reconheço, não são “palavras” fáceis. Na verdade, acho que tenho falado dos mesmos assuntos há alguns meses... Com a ajuda de Guimarães Rosa, Vilém Flusser e Mia Couto, tenho ratificado a importância da reflexão, do pensamento original, da escuta cuidadosa do outro e da expressão oportuna, quando conseguimos acrescentar algo novo. Espero que saiamos melhores desta eleição que se aproxima e consigamos retomar a direção que perdemos. E que tenhamos aprendido que o melhor caminho é plural e, ao mesmo tempo, consensual. Sem a presença da Literatura, esse cimento que tanto nos ajuda a entrelaçar intuições, saberes e sentires, não caminharemos na direção correta.

segunda-feira, agosto 27, 2018

"A carta roubada", Edgar Alan Poe


Prólogo
Esta é a segunda vez que tenho o privilégio aperreado de falar para o Centro de Estudos Freudianos e, depois de muito pensar, achei necessário fazer, de início, um resumo de minha fala anterior, pois acho que ela e a de hoje estão interligadas. Como sou professora de História da Literatura, é sempre observando uma sequência cronológica que consigo arrumar minhas ideias. Recentemente, tive acesso a uma frase do crítico literário português Jacinto Prado Coelho (“A literatura não se faz para ensinar: é a reflexão sobre ela que nos ensina.”) que muito me incentivou a continuar estimulando a reflexão sobre a literatura, apesar do enfraquecimento do valor dessa ação que está em curso.
Lá em 2010, comecei falando de um tempo meio indeterminado, quando ainda não havia o gênero narrativo (subdividido em conto, novela e romance) com que estamos trabalhando. Nesse tempo, que engloba desde a Idade Antiga até a Idade Média, a tradição situava o que era esperado de cada indivíduo do grupo, desde o nascimento até a morte; os mitos, inicialmente, e a religião católica, em seguida, não só produziam sentidos para a vida e para a morte, explicitavam rituais e explicavam por que as coisas são como são, mas também “sustentavam” as interdições, necessárias para a manutenção e mesmo a consolidação dos laços sociais; a família e os antepassados (e/ou contadores de histórias) detinham um saber que “perpetuava” o sentido de algumas experiências de que o grupo se apropriava como referência – chefes, guerreiros, reis e santos tinham suas vidas exaustivamente contadas e recontadas, e isso tudo orientava escolhas morais, determinava valores, estabelecia caminhos. É claro que levanto aqui conceitos que parecem imutáveis, como numa vitrine, mas eles traziam desvios embutidos, tanto que, mesmo muito lentas, mudanças ocorreram. Para que essa “equação” se completasse, vários condições são necessárias: o tempo passava muito devagar, as comunidades eram pequenas e exercitavam a oralidade, as identidades eram fortalecidas e legitimadas no dia a dia e os homens se pensavam como partes integrantes de um todo.
         A Idade Moderna, em seguida, começa a “quebrar” essa lógica – a ampliação do processo de urbanização, as Grandes Navegações, os descobrimentos e seus relatos plásticos e escritos, a Imprensa e a Reforma Protestante fraturaram aquela visão monolítica, e novos paradigmas instauraram-se: o fortalecimento do Capitalismo comercial e a consolidação dos Estados nacionais faziam par com o Absolutismo, em que Deus fortalecia o Rei que, por seu turno, tinha o “direito divino” de governar.
         O romance, como gênero, nasce no começo do século XVII, com o “Dom Quixote”, de Cervantes, em circunstâncias tão especiais, que, realmente, só começou a se desenvolver no final do século XVIII, quando o Iluminismo se contrapõe ao Absolutismo, por meio das ideias de progresso e razão e da afirmação do homem como sujeito que observa a realidade. Nascem aqui as “palavras” liberdade, fraternidade e igualdade, as quais têm apenas uns 200 anos.
         Durante toda a Idade Moderna, que é um período de transição (intervalo em que se hibridam o antes e o depois), constata-se, assim, uma crise crescente nas relações dos indivíduos – embrionários e em construção – com a tradição, que, até então, amparava suas escolhas de vida e sua visão de mundo.
Aí começa a Idade Contemporânea, que contém o século XIX e o XX. O historiador Eric J. Hobsbawm localiza o primeiro entre 1789 (ano da Revolução Francesa) e 1914 (começo da Primeira Guerra Mundial) e, o segundo entre 1914 e 1989 (ano da Queda do Muro de Berlim).
Ao longo do “grande século” – Hobsbawm assim se refere ao XIX, por sua lógica medir mais de cem anos –, o sujeito ocidental, efetivamente, se desliga da tradição (que fala por ele), e se comprova uma compulsão de falar, escrever, narrar, para elaborar ou criar (?) uma nova ordem – a burguesa industrial. E a literatura se constituiu como contraponto necessário, pois elucidava novos costumes, novas relações sociais, novos comportamentos, novos valores; criava identificações e apresentava ideias, teorias, discussões, argumentos, contra-argumentos, exemplos, experiências.
         Balsac, Vítor Hugo, Stendhal, Charles Dickens, Jane Austen, Tolstoy, Dostoievsky, Flaubert, Eça de Queiroz, lá na Europa, e José de Alencar, Manuel Antônio de Almeida, Aluísio Azevedo, aqui no Brasil, entre outros, construíram uma tradição narrativa em que um narrador onisciente, linear, cronologicamente ordenado, isento, objetivo e predominantemente masculino entrou no lugar da “voz da tradição”, digamos assim, e trouxe o necessário: aconselhamento, sentido, explicação, orientação...
         As guerras mundiais do “pequeno século”, palavras com que, por contraposição, Hobsbawm se refere ao século XX, instauraram o malogro da razão e, consequentemente, da ciência e do progresso material. Por conseguinte, instala-se o antitradicionalismo, ou seja, as novas gerações desfazem o que foi feito pelas anteriores. Também a quebra da tradição romanesca aparece como consequência: a fratura da lógica, da perspectiva, da linearidade narrativa, da cronologia e mesmo do narrador; o aparecimento do monólogo interior, ou seja, da narração não episódica; a transgressão do código da língua; a retração do descritivo; a quebra das fronteiras entre realidade e imaginação; e o narrador que ocupa um lugar de exceção são traços novos que revelam outra nova ordem, ainda mais complexa, cheia de conflitos e encruzilhadas.
         A literatura parece não fazer parte desse novo século que substituiu a palavra – o DNA do século XIX – pela imagem – o DNA do século XX –, mas os roteiros submersos dos filmes e das propagandas, e os inúmeros escritores que, apesar das dificuldades, deixaram suas narrativas desconcertantes e desconcertadas apenas nos mostram que continuamos seres narrativos e que nossos relatos são influência de nosso tempo, ao passo que o influenciam, como uma cobra que morde o próprio rabo.
         Talvez o declínio da função paterna, constatado nos consultórios, tenha esmagado o narrador tradicional, mas o fato é que, sem ele, continuamos a contar histórias. Virginia Woolf, James Joyce, Durrel, Pasternak, Saramago, João Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Graciliano Ramos recontam, revelam, tropeçam, perguntam, refazem, inquietam, mas falam do esgarçamento da hierarquia, da responsabilidade de quem não “sofre” um destino, da falta de segurança, de certeza, de sentido, da relatividade, do medo do tempo em que nos coube, inicialmente, viver.
         Esse século XX, como todos os outros, trouxe ambiguidades, é verdade – ele começa a autorizar a diferença e, portanto, torna desnecessário o relato da narrativa do herói, o qual deixa de ser a referência a ser seguida, o que traz consigo a dificuldade do novo, o que é ônus. Mas ele também traz bônus, que, por meio dessas mesmas narrativas, estão sendo elaborados e ressignificados, como sempre nos é possível.
Isso tudo para os baby boomers que somos é bem complicado, porque já está em curso um novo tempo – o século XXI – que nos impõe ainda mais novos desafios, já que estamos lidando não só com a falência dos conceitos bipolares do século XX, que não são mais suficientes para nos localizar na realidade que nos cerca, mas também com atomização, fragmentação, variedade e multipolaridade, “palavras” que, como todas as outras, devem ter um lado escuro...

Parte I (resumo)
         Aqui começa a minha palestra de hoje sobre o conto “A carta roubada”, de Edgar Alan Poe (1809-1848), autor exemplar do contexto fortemente cientificista do século XIX, principalmente em sua segunda metade, tempo que também gerou as teorias de Freud (1856-1939), a obra de Machado de Assis (1839-1908), as ideias de Marx (1818-1883) e de Darwin (1809-1882). Todos estão no portal daquilo que se conhece hoje por homem psicanalítico.
         Poe escreveu, além de outros gêneros, o que se chama Literatura fantástica e Literatura policial, sua irmã; a Ficção científica é uma última irmã temporã, pois surgiu um pouco mais tarde, no século XX. Esses três gêneros nasceram da morte que a Ciência do século XIX provocou no religioso e seus conseguintes. Não poderia ser outro o ninho das ideias de Marx, que imaginou um homem sem religião; de Darwin, que ergueu argumentos naturais incontestáveis; e de Freud, que levantou causas bem humanas para o que antes tinha explicações sobrenaturais.
         Pode-se, de forma resumida, afirmar que a mentalidade do século XIX pretendia, com Progresso (científico, tecnológico e material), resolver todos os problemas e responder a todas as perguntas do Homem. Sendo assim, esses gêneros literários surgem quando quase todos estão certos de que algumas palavras são inaceitáveis – “insólito”, “inexplicável”, “milagre”, “mistério”, “incompreensível”, “impensado”, “impensável”, “inesperado”, enfim: “medo” ...
De acordo com Todorov, Literatura fantástica é aquela que narra as experiências de alguém que só acredita nas leis naturais e na lógica. Mas enfrenta situações para as quais não consegue explicações racionais. Pior: não tem as chaves conceituais para o seu entendimento. Nesse mesmo fluxo, vêm as personagens Quincas Borba e Simão Bacamarte, de Machado de Assis, que são científicos e enunciam teorias dogmáticas como as do século XIX, embora sejam loucos ou fiquem loucos, em decorrência da inaplicabilidade de suas teorias à realidade humana, exasperante na sua complexidade.
Esse caldeirão ter nascido no final do século XIX é uma comprovação das ambiguidades em/com que nos movemos.          
         O conto em estudo se passa no século XIX. Auguste Dupin mora em Paris com um amigo, o narrador da história. Certo dia, entra em sua residência o delegado de polícia parisiense, Senhor G., em busca de conselhos para solucionar o roubo de uma carta. Conta que ela fora roubada pelo Ministro D., de dentro dos aposentos reais, e descreve o aspecto da carta. O delegado confessa que já fizera, na casa do ministro, todas as revistas e buscas sugeridas pelos manuais policiais, mas mostra-se desolado por não ter conseguido encontrá-la. Depois da explicação de todos os expedientes utilizados na busca, Dupin diz-lhe que não o pode ajudar.
         Um mês depois, o delegado volta, ainda tão deprimido por não ter desvendado o crime, que exclama que pagaria 50 mil francos a quem o ajudasse a solucionar o caso. Dupin, surpreendendo a todos, pede que ele preencha o cheque e lhe entrega a carta.
         O amigo pergunta como ele a conseguira, e Dupin narra a sua busca: como o delegado subestimara o Ministro, por ser um poeta, e levara em conta a estatística de seus anos de polícia em que todos os criminosos, nos casos de objetos escondidos, ocultaram-nos de maneira rebuscada –, não considerou que o Ministro, também um matemático, poderia agir com simplicidade. Então, foi visitar o Ministro, uma vez que o conhecia de outros tempos. Enquanto conversavam, observou um porta-cartas pendurado no meio da lareira, com um documento que reconheceu ser a carta procurada, embora ela estivesse disfarçada. 
         Ao sair do apartamento, Dupin esqueceu propositalmente sua tabaqueira, com a intenção de voltar no dia seguinte. Fez em casa uma cópia exata da carta e voltou fingindo que viera buscar o objeto esquecido. Havia combinado com um amigo para simular, a determinada hora, um tiroteio na rua. Quando o Ministro chegou à janela para observar o que se passava, Dupin trocou a carta e, na cópia, ainda colocou uma frase com que se vingava por uma peça que o Ministro lhe pregara em Viena.
         Em outras palavras, o conto é policial (confesso que também li, no livro de Poe “Histórias extraordinárias” de que disponho, “O gato preto”, um exemplo perfeito da linha fantástica do autor); ambos os textos lidam não só com o esperado, mas também com o inesperado. Ou seja: a literatura, nos dois textos, está sendo usada em uma de suas funções cruciais – a de ser um espaço onde se fala (de forma clara ou metafórica) aquilo que não deve ser falado.

Parte II (diálogos)
Certas palavras (Carlos Drummond de Andrade)
Certas palavras não podem ser ditas
em qualquer lugar e hora qualquer.
Estritamente reservadas
para companheiros de confiança,
devem ser sacralmente pronunciadas
em tom muito especial
lá onde a polícia dos adultos
não adivinha nem alcança.

Entretanto são palavras simples:
definem
partes do corpo, movimentos, atos
do viver que só os grandes se permitem
e a nós é defendido por sentença
dos séculos.

E tudo é proibido. Então, falamos.

         Em “A carta roubada” e “O gato preto”, Edgar Alan Poe assusta e diverte e cura e salva, falando naquilo que não deveria falar no século XIX: dos fatos inexplicáveis e das perguntas irrespondíveis que, às vezes, nos atropelam durante a vida. Naquele momento, imagino que o mainstream deveria funcionar neste sentido: se a Ciência (com maiúscula) explicava tudo ou explicaria tudo – era só seguir a linha evolutiva do saber experimental para se chegar, em breve, ao conhecimento objetivo de tudo –, as narrativas recém-nascidas prestaram um enorme favor, quando se tornaram o lugar no qual o que se deve calar foi falado.
A palavra inglesa “mainstream” e a expressão “politicamente correto” são perigosamente próximas. Por isso é bom parar e pensar nos seus respectivos lados escuros: o da primeira está no fato de que, certamente, não se deve falar sempre o que todos falam, além de que ele carrega palavras como “comodidade”, “demagogia” e “conservadorismo”, todas muito negativas; o da segunda, nascido no lado escuro da palavra “respeito”, é uma espécie de cartilha (ora visível, ora invisível) que direciona como se deve falar ou escrever o que se quer falar ou escrever. Por incrível que possa parecer, esse comportamento existe – circula pelo WhatsApp, por exemplo, um “Manual para o uso não sexista da linguagem”.
Difícil de ser questionado e relativizado, o politicamente correto carrega as melhores intenções. Mas é daquelas questões que terminam levando ao inferno pelo caminho das fórmulas dogmáticas e simplistas. Pois a solução que tenta dar é reducionista e acaba por gerar um empobrecimento dos sujeitos que se projeta (ou se constrói) no empobrecimento da linguagem. Wittgenstein mesmo já mostrou que a linguagem e a apreensão da realidade são interdependentes: o limite da primeira significa o limite da segunda.
Nesse contexto, jornalistas, professores, alunos, técnicos que projetam políticas educacionais... pretendem simplificar o aprendizado de língua ou a comunicação no afã de democratizar a Educação e a Informação. Assim, o estudo da gramática e a sugestão, a conotação, a polissemia e a ironia, por exemplo, em última instância, uma espécie de tecnologia de ponta da comunicação, passaram a ser ferramentas mal conhecidas ou desconhecidas e, sem elas e sem o exercício de abertura dos sentidos que elas possibilitam, a comunicação fica muito ameaçada. E pode se fechar à alteridade, às nuances, às discordâncias, à complexidade, nossa mais primeira e tão esquecida característica. Tudo isso junto embaraça a reflexão e dificulta o avanço de nossas questões.
Por conseguinte, a “mão invisível” da simplificação mais inaceitável foi tomando corpo e realizando a afirmação infantilizada de uma verdade escrita em cartilhas que não traduz a heterogeneidade e a complexidade nem de nossa ontologia, nem de nossas relações; e, portanto, de nossos pensares e sentires e falares e saberes...
Evidentemente, pode-se também constatar o lado claro do politicamente correto no cuidado com o mais fraco, nas ideias e ações consensuais a que podemos chegar, na busca de mais palavras que, sem dúvida, abrirão novas percepções, novos saberes e novos estares...
É a aceitação cega dessa cartilha que escamoteia uma espécie de “processo colonial” difícil, por ser invisível e inquestionável. “Alguém” – não se sabe bem quem, um sujeito bem indeterminado – sabe como se deve falar e quem deve falar e o que se deve falar. E nos divide em “bonzinhos que falam certo” e “mauzinhos que falam errado e por isso devem calar”. E nos subdivide em dois times de estátuas que se olham e se odeiam.
Acho que Freud já tinha alertado para o perigo disso: há uma diferença significativa entre ter feras visíveis, estudáveis, estudadas, pensadas, faladas, espetacularizadas na literatura (ou num zoológico ou num circo, como metáforas) e soltá-las entre pessoas: é a diferença entre a convivência minimamente possível e a barbárie.
Aquilo sobre o qual não se fala não desaparece – fica ali “nos crespos do homem”, conforme diz João Guimarães Rosa, e pode nos assaltar de repente, ainda mais violentamente.
Portanto, a literatura (ou a palavra, ou a psicanálise, acho que dá no mesmo) seria uma prevenção contra esse “invivível”; ela elabora o conteúdo desses crespos, ao passo que dificulta que ele se materialize em perseguições e assassinatos e violências de verdade; elas permitem a ressignificação desses crespos, de modo a tornar a nossa vida social possível, mesmo que não perfeita, o que de resto ela nunca será.
Poe fala de assuntos “censurados” no seu tempo, sem dúvida. Ao mesmo tempo, articula com competência o que (hoje e no século XIX) queremos falar e não podemos ou não sabemos; instiga-nos a mensurar o tamanho de nosso apreço à liberdade de expressão e a avaliar as nossas negociações tão difíceis nos terrenos da comunicação; convida-nos a enfrentar a vida (e seus inerentes medos, dificuldades, dores, tristezas, perdas, alegrias...) e a nossa ontologia e sua natureza sem nome de tão complexa e profunda. Usando ficções escritas numa linguagem metonímica ou desviada (como a carta do texto em estudo), o autor enriquece nossas percepções, espelha nossa ontologia, oferece-nos uma possibilidade de olhar para nós mesmos, como quem sai da ilha para ver a ilha ou da bolha para ver a bolha.
Poe é desses escritores cuja leitura nos faz recuperar e elaborar esse conteúdo sufocado (não perdido, nem apagado) pelo mainstream e suas simplificações. E o melhor: nas palavras, podemos ressignificá-lo sem correr riscos, nem derramar sangue. Evidentemente, é bom frisar que os tons de cinza (ou a paleta de cores) com que nos tatuamos demonstram que, ao fim e ao cabo, barbárie seria a negação dos direitos humanos, por exemplo, e de outros consensos que partilhamos ao longo de nosso trajeto. Em outras palavras, a palavra “consenso” não é igual à palavra “mainstream”.
         Quem pensa que a arte deve se tornar politicamente correta e que é apenas lugar de fala de minorias enxerga estreito, ameaçando sufocar tudo com a fumaça de nossos crespos, por falta de cano de escape, e simplificando tanto que corre o risco de assinar o atestado de óbito da arte sem saber. Além disso, nos empurra no abismo de realizarmos a barbárie, não nas palavras, mas no real. Uns contra os outros... Como deve ter acontecido com nossos ancestrais pré-históricos, quando ainda estava por nascer isto que chamamos de “humanos”.

Parte III (o conteúdo da carta)
“Uma coisa é pôr ideias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias...” (João Guimarães Rosa)
        
           Recentemente, dei uma palestra sobre o livro “Um amor incômodo”, da misteriosa escritora italiana Elena Ferrante, cujo assunto é o assédio sexual. Ao final da análise, cheguei a algumas conclusões: esses nossos assuntos não poderiam ser tratados por delegados submetidos a procedimentos e protocolos, nem por jornalistas superficiais, nem deveriam ser expostos na mídia na linguagem objetiva. Deveriam ser tratados pelas aparelhagens de Saúde. Tomando emprestadas as palavras de Poe, posso dizer que esses nossos assuntos não são notícia, nem fatos que estão fora de nós, como seres maravilhosos, feiticeiras, demônios, fantasmas e gênios... São internos. Tratá-los dentro de oposições simplistas é um dos comportamentos geradores do discurso de ódio de que também participa o acusador, sem o saber. Aliás, esse e outros assuntos são como o da carta do nosso texto em análise – só deveriam ser falados e ouvidos por poucos companheiros de confiança, os quais entendem as quebras e podem participar do retorno ao trilho da Lei. 
         A personagem do livro, Délia, quando criança, disse que o sócio do pai tinha um caso com a mãe, versão que “colou” perfeitamente na história da família, a qual se dispersou quando da adolescência da personagem. Anos depois, no momento da morte da mãe, Délia volta a sua cidade e, revendo os lugares, foi lembrando/desvelando o real acontecido: ela mesma tinha sido sistematicamente violentada pelo pai do sócio. A complexidade das relações entre as pessoas da narrativa aponta para uma questão fundamental – não há apenas uma vítima e um algoz, como propala a tevê às treze horas, nem o caminho a seguir se reduz à condenação do algoz.
Mia Couto talvez me ajude a terminar esta palestra de hoje: no seu livro “A confissão da leoa”, ele trabalha os efeitos nefastos do processo colonial que vitimou seu país e o nosso e diz, corajosamente, que costumamos responsabilizar “os de fora pelos nossos problemas e não enfrentamos as questões “de dentro”.
Encaremos: somos um país com um povo cortado dentro, temos sequelas daquela divisão colonial que nos separava entre senhores e escravos. Está mais do que na hora de nos ouvirmos uns aos outros. E de sabermos que ouvir não significa sempre concordar. Não só: é possível falarmos uns pelos outros, pois, apesar de nossas inúmeras diferenças, temos um tutano humano que nos iguala.
Quando há circulação de palavras, o sangue deixa de correr. A palavra dita, buscada, escrita, sonhada, desejada, ouvida, partilhada... é, como diz Mia Couto, a única roupa que temos contra a violência com a qual insistimos em viver e que nos vitima cotidianamente. Basta de repetir erros que já cometemos no passado, por preguiça de ler, pensar e discutir com respeito e profundidade.
Em virtude dos últimos acontecimentos, faço aqui um apelo à reflexão e ao diálogo. O filósofo tcheco Vilém Flusser opõe dois conceitos: discurso (que seria uma pessoa falar sem querer ouvir) e diálogo (ao contrário, uma pessoa que seria capaz de se modificar por meio do que a outra lhe diz, embora não perca de vista suas próprias opiniões e referências). Não é com manchetes simplórias que daremos conta de nossas complexidades. Nem com slogans. Nem com bolhas algorítmicas de ideias. Nem com criação pelo avesso de simplistas versões contrárias às de quem pensa diferente de nós. Nem com partidos, talvez, como comecei a pensar recentemente. A verdade é um diamante cheio de ladinhos e vivemos num tempo que exige o acolhimento de todos. Não há só um caminho, nem só uma versão.
Precisamos ir na direção de um futuro que fale a língua da tolerância, da empatia e da inserção de todos. Esse idioma só poderá ser inventado se o exercício da palavra tomar o lugar das armas. E o diálogo tomar o lugar do discurso. O nome disso é utopia, eu sei. Mas ajuda a caminhar.

sexta-feira, julho 20, 2018

A janela aberta

A noite é tão completa
que me faz
escutar teus passos.

De cima, a cidade
é mansa e vertical.
As colunas
dos prédios
alcançam e apagam
as estrelas...

Lá longe
os recifes
guardam
a cidade.

Os pássaros
mudam as estações:
trouxeram
este vendo frio
que alisa
meu seio
cheio de cicatrizes.

Este cubo
escuro
é o retrato
da minha vida.

E teus passos
nem são teus,
nem te trazem.
Até quando?

sábado, junho 23, 2018

A chuva


Chove sobre o Recife.
A água inunda as ruas,
anuncia um desastre
e escorre ameaçadora
pelo flanco dos morros.
Os relâmpagos fotografam
minha solidão.
Os trovões
espantam tudo.
Os pássaros
refugiaram-se
no meu quarto.

Estamos todos
molhados.
Eu, de lágrimas.

domingo, maio 27, 2018

Outro amor e seu tempo - para Ana e Yves


Nesta escuridão,
apenas tocam-se
coisas mortas.

O milagre de ver
não é gratuito:
só um esforço
de luz enxerga
as vestes de folhas
das árvores;
a frescura do vento
invisível
com o enfeite inútil
dos pássaros;
a água do rio
que salva
sem saber;
o mar e suas marés
insistentes;
as auroras,
resumo
do giro mudo
das galáxias...

Assim, não se mede
pelo tempo
nem somente
pelo corpo
(de que é apenas
eco distorcido)
esse amor refeito
no desenho
difícil do milagre,
quando é tarde –
tempo de saber-se
e saciar-se;
de aprender-se
o valor das coisas
repetidas e mínimas,
o sentido
nesse absurdo de existir.

Por isso
este poema
que louva
a teimosia do desejo
no corpo ferido
sem medo, entretanto,
dos combates
já perdidos
que se lutam
no curso
claudicante
do amor.
E a peça luminosa
que se soma
de todo amor
que se luta,
para um mundo corrigido.