sábado, abril 22, 2017

Guardando lugar no mês de abril...

segunda-feira, março 20, 2017

Outro idioma - para Diogo



“A violência, seja qual for a maneira como ela
se manifesta, é sempre uma derrota.” (Jean-Paul Sartre)

Cada um
guarda
uma palavra
exclusiva.

Ela dilata a memória;
legitima a vida;
alcança o futuro...

Como a pérola
daquela ostra
pousada
no fundo
do mar,
ela é o que somos...
E está sempre lá...

Entre tantas
é difícil
escolhê-la:
ao som do mundo...
e muitas vendas...

As coisas
também atrapalham...
Os sentidos
são cegos...

Fecha os olhos...
Sente
na veia
esse sopro
e seu passo sutil...
que carrega
outras perguntas...
outras respostas...

Escrito noutra língua,
esse vulto
espera só tradução...

Sua forma tênue
exigirá
que a pegues
com cuidado
nunca exercido...

Articulada,
essa palavra
será triunfo
e farol!

sábado, fevereiro 18, 2017

Democracia e outros desacertos brasileiros



Já falei de democracia, há alguns anos, neste blog, quando ele sofreu sistemática invasão de uma pessoa que me atingia profissional e pessoalmente com comentários anônimos. Hoje, volto ao assunto para defender Raduan Nassar, quando da outorga do prêmio Camões com que foi agraciado em maio de 2016.
            Raduan Nassar é um escritor pouco profícuo, mas a densidade de sua obra alcançou a admiração de milhares de pessoas, inclusive do júri do concurso, que destacou “a extraordinária qualidade de sua linguagem e a força poética de sua prosa”. É evidente que um escritor com a sua profundidade intelectual não fala sobre o que todos querem ouvir – ele fala sobre o que quer, sobre o que é preciso, ou mesmo não fala, como, de resto, é o que acontece na maior parte do tempo com ele próprio: vive numa fazenda, no interior de São Paulo, muito recluso, o que, no seu caso, não significa omisso.
            É que há algum tempo doou outra fazenda ao Estado brasileiro, com a única exigência de que fosse usada para fazer um campus agrícola em que se estudassem técnicas de cultivo sustentáveis das lavouras da região. Essa doação, na verdade, mudou o entorno social da área, dando oportunidades de ensino superior a filhos de trabalhadores rurais e até a índios, que estão “fazendo a diferença” quando se observa a questão do acesso à renda naquela parte do país.
Lembrando Paulo Freire, que certa vez disse que a pobreza rural tinha ligação não só com a falta de acesso à terra, mas também com outros “arames farpados”, como a falta de acesso à técnica, não posso deixar de admirar o que, sob a batuta de Raduan, está se fazendo naquela região.
Compreende-se, perfeitamente, a partir dessa narrativa, de que lado o escritor se encontra: ele é a favor de melhor distribuição de terra, de renda, de conhecimento e de técnica no Brasil e no mundo. E seu posicionamento não fica apenas no discurso: estende-se à ação coerente e corajosa de quem é capaz de tirar da própria carne para ver mais igualdade ao redor.
Pois bem: aos quase 82 anos, lúcido e tímido como poucos, no dia da entrega do prêmio, denunciou a situação sombria em que o Brasil está, na sua opinião: invasão de espaços, repressão e prisão dos mais fracos, violência contra manifestações populares, supressão de direitos, ameaça a universidades públicas e escolas, tudo com a anuência de instituições que deveriam resguardar o direito e o bem de todos.
Acusado de histriônico, foi, na verdade, discreto, tanto nos gestos quanto nos trajes. Mostrou-se, no entanto, contundente nas palavras, como acontece com a maioria dos escritores, cidadãos que dizem o que tem de ser dito, possa parte da população ouvir ou não. Confesso que admiro o “conjunto da obra”, como muito se tem dito – gostei do que ele fez, democratizando o tanto de tecido social que estava a seu alcance, e mais ainda admirei o fato de ele ter enunciado no discurso o que já havia realizado na prática. Não é todo dia que a gente testemunha coerência neste país...
Tenho conversado muito com meus alunos sobre a função do escritor neste mundo globalizado, que enxerga tudo através da técnica e da ciência, em detrimento das ciências humanas, ou nesses tempos cegos e difíceis que nos couberam (como acontece com todos os seres humanos, no fim das contas) e agradeci as palavras de Raduan Nassar – ele falou o que precisava falar ou o que quis falar, independentemente do que algumas pessoas ou o governo queriam ouvir; tornou audíveis as palavras de quem também está nas ruas, mas não sai nas manchetes; criticou instituições, como se costuma fazer, impunemente, numa democracia orgulhosa do que é; usou um momento de exposição pública para colocar sua posição política clara e coerentemente; como cidadão, agiu de forma legítima, pois qualquer um pode expor seus pontos de vista no Brasil, inclusive quem não tem o que dizer ou quem espalha preconceito, desavença e ódio. Não é o caso de Raduan Nassar, cuja lucidez merece atenção, cuja idade merece respeito e cuja biografia legitima seu direito imperioso de expressão.
Além disso, não foi o governo que o premiou; foi o Estado de Portugal e foi o Estado do Brasil. Portanto, o argumento de que ele não deveria ter aceitado o prêmio, já que tinha críticas ao governo, além de deselegante, é estapafúrdio e, infelizmente, confirma o que ele falou. Ou seja: que pairam ameaças, hoje, ao Estado de Direito no país.
Não há defesa possível contra as palavras de ministros e de outros cidadãos que o acusaram, durante a cerimônia ou depois dela, de expressar pontos de vista partidários os quais, mesmo que tivessem sido enunciados, ainda assim poderiam ter sido externados. Mas é mais ridículo ainda imaginar que não fossem seus de verdade: seu estofo intelectual e sua trajetória coerente garantem a exclusividade de suas interpretações e de sua visão de mundo.
Obrigada, Raduan Nassar. Você me fez pensar na democracia que quero, no país com que sonho, na função do escritor em tempos de cólera e de cegueira, no próximo mais fraco e naquilo de que, realmente, preciso para ser uma pessoa de verdade. Obrigada também ao resto das pessoas que me mostram que, como disse o escritor, “não há como ficar calado”.

sexta-feira, janeiro 20, 2017

Desafio - para Dinaldo Lessa



Inapagável,
o passado
está lá.

Ele me governa,
apesar de não
falar.

Rio em mim,
desses que
fundam
em silêncio
e devagar...

Impossível
precisar
a nascente
nem a foz
dessa água
que trafega
sem cansar...

Tudo que sou
depende dessa linfa
(impossível tatuagem
semovente)
onde moram peixes –
facas brilhantes
e mortais –
que me fazem exclusiva
e ligada
a abismos,
jazidas de energia
e desespero.

O desafio
é conspirar
a exata medida
do indulto
desse rio...

E jamais
deixá-lo
impedir
as chuvas
que limpam seu curso
indispensável.