domingo, novembro 03, 2019

O DIREITO À LITERATURA (IV)


         Dadas as características multipolares de nosso século XXI, é claro que seria ótimo que tivéssemos todos mais contato com o texto literário que não é apenas um inocente equipamento social – ele confirma valores e, às vezes, os nega; é caminho de fuga e denúncia; é arma para luta social e, ao mesmo tempo, pode escamotear a realidade... Feito a vida que ela representa, reelabora, ressignifica. 
  Então: por meio da literatura podemos aprender a viver, com nossas diferenças e complexidades, dialeticamente. Nossos matizes étnicos, ideológicos, culturais, de gênero e de classe são riquezas imperdíveis, e precisamos aprender a viver com eles, não nos servindo deles para justificar injustiças indefensáveis ou para inventar novas censuras, violências, vinganças e distâncias.   
            Recentemente, parece que estamos nos distanciando desse caminho: vivemos uma tirania simplificadora e polarizadora. Exigimos comportamentos, interrompemos uns aos outros, obrigamos uma pessoa a dizer da forma como queremos ouvir, não queremos escutar, só ser escutados... Na verdade, estamos reduzindo todos os recursos de expressão − a ênfase, a ironia, as repetições, os tons, os gestos auxiliares da comunicação oral... – a inadequações comportamentais e linguísticas, chegando, após uma discussão, a dizer que a pessoa até tinha razão, mas a perdeu em virtude do modo como falou. A língua com que temos de falar deixou de ser nossa, deixou de refletir o plural que somos ou que podemos ser...     
            Antônio Cândido, no seu ensaio de 1988, justifica o direito à literatura com uma cândida argumentação: ele afirma de início que, em uma sociedade com menos desigualdade social, todos teriam e gostariam de ter acesso à literatura; que a literatura humaniza e que os governos deveriam garantir a todos acesso a ela; em seguida, acrescenta que, no Brasil, o usufruto geral é impedido, em virtude das imensas desigualdades de renda, e que as classes dominantes não se interessam realmente por literatura, aproximando-se dela apenas por esnobismo; em contrapartida, depois de narrar um par de experiências, afirma que as dominadas têm uma “sofreguidão comovente” por ela. 
            Quero que se reconheça, nas suas ideias, o contexto do século XX – a presença das palavras “igualdade” e “desigualdade” e dos raciocínios bipolares.
       Já bem entrados no século XXI, é evidente que levantaríamos argumentos diferentes: com a Globalização e as migrações em curso no mundo inteiro, o exercício da tolerância que a literatura proporciona talvez a justifique e certifique agora.
            Ler um romance é passar alguns dias vendo o mundo na perspectiva do autor; é exercitar se colocar no lugar do outro − já que o narrador explicita os temperamentos, as personalidades e os pontos de vista das diversas personagens −; é aprender a reconhecer que o outro é diferente e, ao mesmo tempo, tão humano quanto nós, pois vive os mesmos dilemas, sente as mesmas dificuldades e dores, comete os mesmos erros...
      Evidentemente, aceito a argumentação de que documentários, notícias e reportagens também nos ensinam sobre outras culturas, outros pontos de vista e outras opiniões. Mas Contardo Caligaris me ajuda a estruturar o que estou tentando dizer: a literatura tem “uma mágica complementar”, porque, à proporção que ensina a diferença, ela ensina a semelhança, esse tutano comum que me obriga a ver uma pessoa diferente de mim como um semelhante humano como eu, apesar de suas idiossincrasias.        
Enfim, infelizmente, eu não observei nenhuma sofreguidão das classes dominadas em direção aos bens culturais, quando elas melhoraram seu acesso à renda; como as dominantes, as dominadas, até por uma questão de demanda reprimida, consumiram, quando puderam, celulares, carros e viagens aéreas, em detrimento de bens culturais. E se vê, por todo lado, o triunfo da cultura de massa que não é inocente, mas amplificadora dessa simplificação, uma vez que reduz seres humanos a consumidores. De coisas que não servem para dar um sentido satisfatório para a vida. Nem observo confiança das pessoas com as quais convivo nas informações que lhe chegam por meio desses maravilhosos meios de comunicação dos quais dispomos.
Nesse contexto, reitero a importância da “escuta literária”, ou seja, ler com calma textos literários (poemas, romances, novelas, contos, crônicas, peças de teatro) para não esquecer das figuras de linguagem, da paleta de cores, sabores, cheiros e texturas possíveis que existem na nossa expressão, das liberdades possíveis... A fim de acertar a derrubar as prisões desnecessárias dessa ortodoxia polarizada que está nos jogando uns contra os outros, quando tudo já permite diversidade.
E o tal direito à literatura, quem o garante? Proponho um mutirão do Estado, da Universidade, das bibliotecas, da Escola, da família, das organizações não governamentais, dos meios de comunicação e do próprio cidadão.
O Estado deve ampliar as políticas de aquisição de livros para bibliotecas públicas e escolares e apoiar, financeiramente, projetos diversos; juntamente com as Universidades, deve também repensar as bibliotecas existentes e criar novas (pelo menos uma em cada município do país), formando entre elas uma rede de partilha de experiências exitosas em projetos para a formação ou o amadurecimento de leitores literários; mais especificamente, essa mesma Universidade, por meio de seus cursos de Letras, Pedagogia, Biblioteconomia, Artes Cênicas e Visuais, poderia se comprometer com a formação de leitores e mediadores que atuariam nessas bibliotecas, para que elas fossem mais acolhedoras e mais ativas no papel do letramento literário; a Escola, além de suas ações pedagógicas ordinárias, tanto poderia se empenhar em efetivar projetos escolares, como feiras de conhecimento, com o propósito de incrementar a leitura literária, quanto poderia organizar grupos de alunos no contraturno para rodas de leitura e discussão de textos literários ou para visitas nas bibliotecas e outros espaços sociais, onde vivências de leitura literária estivessem acontecendo; a família se disporia a ser coadjuvante dessas ações, não  só participando da concepção e da execução dos projetos escolares, quando fosse possível, mas também viabilizando e incentivando a presença das crianças e dos adolescentes nos diversos eventos sociais por acontecer, além de se esforçar para ler e, assim, dar o exemplo às crianças e aos adolescentes sob sua guarda; a televisão e o rádio, com todo o poder que têm, poderiam participar de várias formas – montando peças teatrais famosas, como já aconteceu e, infelizmente, não mais acontece, adaptando obras literárias para outras linguagens e incrementando programas de entrevistas e documentários com escritores e roteiristas, para mostrar a todos a importância de um olhar plural sobre os problemas que nos afetam, elencar possíveis saídas para eles, aprofundar percepções, a fim de entendermos que soluções não caem do céu, são construídas de mãos dadas; as Organizações Não Governamentais, como a UBE e a CULTURA NORDESTINA, por exemplo, poderiam participar executando palestras, workshops, concursos, maratonas de recitação, cursos de leitura e escrita criativa e dando apoio logístico a projetos sociais de valorização da leitura literária. Por fim cada um de nós deve entender a importância da leitura e da escrita na participação social e deve fazer um esforço para se aparelhar a fim de construir sua própria cidadania e viabilizar seus direitos (incluso aí o direito à literatura), os quais, ao fim e ao cabo, são construções subjetivas. Não dádivas.
Acredito que essa teia de ações permitirá que possamos escolher nossas leituras sem sermos dirigidos pelo “Mercado”.  E que possamos nos tornar, além de consumidores, agentes construtores de uma sociedade mais compreensiva e mais inclusiva. 
Mas nada disso será possível enquanto não se distribuírem melhor nossos bens materiais e não se democratizarem condições dignas de trabalho e de vida, pois o usufruto dos bens culturais (inclusa aí a literatura) depende de tempo livre usado em prol do autodesenvolvimento e, por conseguinte, do desenvolvimento de todos. 
Essas palavras são lembretes, para que não percamos a direção. 

domingo, outubro 20, 2019

O DIREITO À LITERATURA (III)


              O cimento que cola os direitos humanos e a literatura é o reconhecimento de que aquilo que é indispensável para mim é também indispensável para o outro. De cabo a rabo. Ou seja: se Tolstoy é importante para mim, devo colocá-lo numa cesta básica de bens à qual todos teriam, sem exceção, acesso, inclusive os femininos e os etcétera que estão no masculino plural, de acordo com as regras da língua portuguesa. Pois segurança alimentar está, sim, ligada com integridade espiritual. Negar a primeira, neste tempo em que temos condições técnicas e materiais de garantir alimentos a todos, é estapafúrdio. E negar a segunda, neste tempo em que dispomos de meios de comunicação tão eficientes e baratos, é uma mutilação.
            E o que têm os atuais meios de comunicação a ver com nossa integridade espiritual? Tudo: eles poderiam viabilizar a circulação tanto das ideias dos dominantes quanto dos dominados e, portanto, o tal “equilíbrio de ideias” proposto pelo escritor nigeriano Chinua Achebe, já que quase todos têm um celular com que são produtores de conteúdo e com que opinam sobre conteúdos enviados nas redes sociais. Por conseguinte, “direitos espirituais” − como liberdade individual de crença, de escolha, de orientação e de expressão; acesso à arte, à cultura, à informação e ao lazer – seriam expandidos e partilhados... E poderíamos, assim, nos desenvolver mais equitativamente também do ponto de vista psíquico e espiritual, até porque essa circulação plural terminaria por construir mais compreensão e, por conseguinte, mais tolerância. 
Acontece que nada disso está ocorrendo: nesses meios de comunicação, continuamos sectários, intolerantes e violentos. Na contramão de nosso século XXI, tempo que permite a pluralidade, talvez a mais verdadeira identidade dos seres humanos. 
Está em curso, na verdade, uma espécie de hipocrisia: a maioria das pessoas (aí incluídos políticos, empresários e donos de meios de comunicação) concorda com a ideia de que deveríamos dividir melhor todos os nossos bens; não se regozija, nem acha subterfúgios religiosos, como já aconteceu, para brutais desigualdades, mas, efetivamente, não se esforça para que haja mudanças. Talvez porque não saibamos ainda o que fazer para seguir em frente num caminho novo? Enquanto não sabemos, viramos estátuas raivosas, porque brigar é o verbo mais fácil. 
Além do mais, podemos todos falar na internet, mas não com as palavras que escolhemos sozinhos ou num consenso social – somente com as que foram escolhidas ninguém sabe por quem. São sempre frases na voz passiva, sem os agentes da passiva. Dentro de bolhas algorítmicas: as redes sociais reforçam a tendência comum de buscar informações e argumentações que se alinhem às nossas opiniões, comportamento que, provavelmente, cria uma sensação de pertencimento a grupos identitários. Mas dificulta o achamento de estratégias de tolerância.
Inventou-se um vocabulário asséptico com que todos devem falar... No entanto, essa língua é como usar uma roupa alheia com que não nos sentimos bem... Com que nunca nos acostumaremos, porque não fomos feitos para ela e por ela e com ela... Os “proprietários” dessa língua não só interrompem, boicotam e impedem o fluxo idiossincrático da verdadeira expressão (a palavra “idioma” tem o prefixo “idio” que significa “próprio”), mas também cristalizam e mumificam as palavras e as expressões, dificultando a relação particular que cada um de nós tem com uma palavra e não com outra, com uma expressão e não com outra... E empobrecendo as buscas, as metáforas, as nuances, as ironias, as brechas, a imaginação... Perder tudo isso é como perder delicadezas e riquezas e sentidos... Tanto apego ao literal... E nada faz sentido... 
Os recursos de expressão e nossas escolhas vocabulares e sintáticas não são aleatórios, são reflexo de nossa subjetividade. Escolha, liberdade, erro, acerto, conserto, busca, consenso... É tudo isso junto que cria um idioma de verdade e o renova, alargando as apreensões, de acordo com Wittgenstein. Porque se precisamos de novos caminhos, precisamos de novas palavras. Palavras “fatigadas de informar” (como diz Manuel de Barros) e de brigar não inventarão um futuro melhor que é o que no fundo desejamos: “um futuro que fale a nossa língua”, como diz Mia Couto.
O absolutismo linguístico e mesmo ético e ideológico decorrente desse vocabulário detento é de uma pobreza lamentável. Há poucos dias uma aluna veio conversar comigo sobre se deveria haver limites no humor. E acrescentou:
− Uma pessoa que faz humor com negros é racista, e quem ri também...
− Então, no “Auto da Compadecida”, a cena de João Grilo dizendo que Deus é muito queimado revela o racismo de Ariano Suassuna e, quando nós rimos, revelamos nosso racismo enrustido? É isso? – eu perguntei.
− Não, ela respondeu com uma expressão surpresa...  
O direito à literatura está no meio de toda essa discussão. Na literatura, as palavras andam soltas da prisão do dicionário, e aí podemos brincar na rua com elas de esconde-esconde, de Academia, de seguir o mestre, de inventar línguas, de pular, de passar o anel, de cantar, de telefonar sem fio, de rimar, de contar sílabas, de cruzá-las, de caçá-las... E de crescer com elas, nelas, por elas... Como sujeitos e como proprietários de um idioma que é nosso e de muitos e cujo uso nos faz seres exclusivos e sociais ao mesmo tempo. 

sexta-feira, setembro 20, 2019

O DIREITO À LITERATURA (II)


O que os historiadores chamam Idade Contemporânea é um período de tempo que contém o século XIX, o XX e o XXI de que estamos falando. 
O historiador Eric J. Hobsbawm localiza o primeiro entre 1789 (ano da Revolução Francesa) e 1914 (começo da Primeira Guerra Mundial) e, o segundo entre 1914 e 1989 (ano da Queda do Muro de Berlim). Evidentemente, o século XXI nasce a partir desse último fato histórico. 
Ao longo do “grande século” – Hobsbawm assim se refere ao XIX, por sua lógica medir mais de cem anos –, o sujeito ocidental, paulatinamente, se desliga da tradição (que fala por ele), e se comprova uma compulsão de falar, escrever, narrar, para elaborar ou criar (?) uma nova ordem – a burguesa industrial. E a literatura se constituiu como contraponto necessário, que elucidava novos costumes, novas relações sociais, novos comportamentos, novos valores; criava identificações e apresentava ideias, teorias, discussões, argumentos, contra-argumentos, exemplos, experiências.
         Balsac, Vítor Hugo, Stendhal, Charles Dickens, Jane Austen, Tolstoy, Flaubert, Eça de Queiroz, lá na Europa, e José de Alencar, Manuel Antônio de Almeida, Aluísio Azevedo, aqui no Brasil, entre outros, construíram uma tradição narrativa em que um narrador onisciente, linear, cronologicamente orientado, isento, objetivo e predominantemente masculino entrou no lugar da “voz da tradição”, digamos assim, e trouxe o necessário: aconselhamento, sentido, explicação, orientação...
         As guerras mundiais do “pequeno século”, palavras com que, por contraposição, Hobsbawm se refere ao século XX, instauraram o malogro da razão e, consequentemente, da ciência e do progresso material. Por conseguinte, instala-se o antitradicionalismo, ou seja, as novas gerações desfazem o que foi feito pelas anteriores. Também a quebra da tradição romanesca aparece como consequência: a fratura da lógica, da perspectiva, da linearidade narrativa, da cronologia e mesmo do narrador; o aparecimento do monólogo interior, ou seja, da narração não episódica; a transgressão do código da língua; a retração do descritivo; a quebra das fronteiras entre realidade e imaginação; e o narrador que não é onisciente, nem sabe contar bem a história são traços novos que revelam uma nova ordem, cada vez mais complexa e cheia de conflitos e encruzilhadas.
         A literatura parece não fazer parte desse novo século que substituiu a palavra – o DNA do século XIX – pela imagem – o DNA do século XX –, mas os roteiros submersos dos filmes e das propagandas, e os inúmeros escritores que, apesar das dificuldades, deixaram suas narrativas desconcertantes e desconcertadas apenas nos mostram que continuamos seres narrativos e que nossos relatos são influenciados pelo tempo, ao passo que o influenciam, como uma cobra que morde o próprio rabo. Sendo assim, continuamos a contar histórias: Virginia Woolf, James Joyce, Durrel, Pasternak, Saramago, João Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Graciliano Ramos recontam, revelam, tropeçam, perguntam, refazem, inquietam, mas falam do esgarçamento em curso da hierarquia, da responsabilidade de quem não “sofre” um destino, da falta de segurança, de certeza, de sentido... Em suma, o século XX carregou a ferida da bipolaridade: o muro de Berlin dividiu o mundo em duas partes antagônicas armadas até os dentes, e as palavras “igualdade” e “desigualdade” tiveram que ser elaboradas.
O século XXI − que começou depois da queda do muro de Berlim − nos impõe ainda mais novos desafios, já que estamos lidando não só com a falência dos conceitos bipolares do século XX, que não são mais suficientes para nos localizar na realidade que nos cerca, mas também com atomização, fragmentação, variedade e multipolaridade... Nesse contexto, a palavra que está sendo elaborada é “diferença”. 
Pois bem: na década de 70 do século XX, o escritor Otávio Paz já adiantava a resposta de nossa pergunta: ele afirmou que não vivíamos naquela época o fim da literatura, de que tanto se falou, mas o fim da literatura moderna e suas características – a ironia, o tema da metalinguagem e a supervalorização do novo com a consequente quebra da tradição. E que uma literatura fora dos parâmetros da do século XX estava sendo gestada, sem que se percebesse claramente. Ele tinha razão. A literatura não morreu e apresenta-se forte no século XXI.
Só é difícil saber com que características. Mas estudiosos do assunto já adiantam algumas: o “make it new” das vanguardas não é mais importante; a maioria dos romancistas atuais (que escrevem livros volumosos) não busca mais transformação inovadora da língua ou da técnica narrativa (volta, inclusive, a narração na terceira pessoa) e usa os diálogos tradicionais e as descrições; os conflitos econômicos deixam de ser centrais, e surgem novos − culturais, religiosos e psíquicos; a ironia e a paródia deixam de ser utilizadas; a literatura começa a ser empregada para afirmar particularidades, inclusive sexuais...  

terça-feira, agosto 20, 2019

O DIREITO À LITERATURA (I)


Todos falamos muito sobre literatura, palavra presente nos currículos universitários, nos catálogos das editoras, nas discussões em escolas, festas, feiras e prêmios, nos meios de comunicação impressos e eletrônicos... Mas talvez seja mesmo impossível precisar um conceito único de literatura: circulam entre nós apenas acepções, historicamente variáveis. Em outras palavras: ao longo de nossa história, concepções sobre a palavra “literatura” mudaram, porque os contextos históricos mudaram.
            Vindas da Grécia antiga, quando Aristóteles conceituou a literatura como um modo de representar mimeticamente a realidade por meio de palavras, passando por Kant (que disse ser ela uma produção de discursos coerentes sem finalidade externa), pelos românticos (que a tomaram como sinônimo de exteriorização de sentimentos) ou mesmo pelos teóricos do século XX que a tomaram como um processo de comunicação com ênfase na própria mensagem, essas acepções são confundidas e confundem quando se fala a palavra “literatura”.
            De início, é preciso dizer que só é possível uma definição contextual. A literatura já serviu para manter o “status quo”, para catequizar, para obter favores de poderosos, para homenagear mestres do passado... A noção que a maioria das pessoas tem de literatura, hoje, data dos anos finais do século XVIII, quando, crescentemente, ela foi se tornando uma profissão, uma espécie de discurso, uma instituição, uma disciplina escolar... Aí chegamos ao XIX, ao mesmo tempo o século de maior prestígio da literatura e de ameaça a ela: na sua primeira metade, apareceram escritores chamados de publicistas, que funcionavam como profetas da nacionalidade, ou como porta-vozes do modo de pensar burguês, o qual defendia as utopias da liberdade, da igualdade e da fraternidade, como Vítor Hugo ou Charles Dickens; na sua segunda metade, na esteira do declínio desses ideais, a literatura chegou a não só encastelar-se em um discurso metalinguístico, para se desvincular do utilitarismo da sociedade burguesa, mas também a cultivar  um discurso cifrado e hermético que terminou por afastar a maioria dos leitores. 
            A crítica e o ensino da literatura seguiram esse mesmo caminho: perderam prestígio na passagem do século XIX para o XX – a primeira se enfraqueceu, quando ficou ao lado da censura e da hierarquia, perdendo espaço quando outras atividades culturais lhe fizeram concorrência; o segundo se afastou da filologia e da retórica, servindo-se, consecutivamente, da história, da estilística, da sociologia e da psicanálise, e foi gravemente ferido pela Linguística e pelo estruturalismo. A partir do fortalecimento da globalização e dos movimentos sociais amplificados pelos formidáveis meios de comunicação de que agora dispomos, tanto a crítica quanto o ensino voltaram-se para estudos de temas considerados politicamente corretos. 
            Nesse contexto, a sempre frágil especificidade da literatura estilhaçou-se, e se chegou a executar um velório o qual não foi seguido de seu enterro – feiras locais e internacionais, bienais, entrevistas e discussões com escritores que se tornaram verdadeiros pop stars, publicações, lançamentos e vendagens milionárias provam que a literatura está mais viva do que nunca.
Ainda em introdução à questão central do direito à literatura, pode-se acrescentar que as funções e mesmo o direito à literatura também são interligados com o contexto histórico e que a expressão “direito à literatura” foi, digamos, inaugurada, depois de um ensaio de Antônio Cândido, de 1988, intitulado com a expressão. 
Evidentemente, embora a noção de que existem direitos seja muito antiga, não se pode falar especificamente de direitos humanos até o século XVIII; antes, a sociedade estamental predominante na Europa era centrada na religião e no coletivo família, linhagem ou corporações laborais , e não se concedia individualidade ao ser humano. Nesse contexto, os pensadores racionalistas do período tornaram laicas as antigas teorias do direito natural, desvinculando-as de uma ordem divina. Para eles, cada homem em particular é, por natureza, livre e tem certos direitos inatos de que não pode ser alienado quando em sociedade. Foi essa corrente de pensamento que acabou por inspirar a atual ideia de proteção dos direitos do homem.
Mas, especificamente, “o” tempo dos Direitos humanos é a década de 40 do século XX, quando os líderes mundiais tomam consciência das atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial, o que os levou a criar a Organização das Nações Unidas (ONU), com a pretensão de manter a paz no mundo. Foi através da Carta das Nações Unidas, assinada a 20 de Junho de 1945, que os povos exprimiram a nova agenda de “preservar as gerações futuras do flagelo da guerra; proclamar a fé nos direitos fundamentais do Homem, na dignidade e valor da pessoa humana, na igualdade de direitos entre homens e mulheres, assim como das nações, grandes e pequenas; em promover o progresso social e instaurar melhores condições de vida numa maior liberdade". A criação das Nações Unidas simboliza a necessidade de um mundo de tolerância, de paz, de solidariedade entre as nações, que faça avançar o progresso social e econômico de todos os povos.
Nesse contexto, a literatura tem um papel fundamental, não há dúvida. Mas que literatura? Se não acertamos a responder essa pergunta, como falar do direito à literatura? 

sábado, julho 20, 2019

MULHER E LITERATURA


   Há mais de seis meses, não escrevo em prosa; nesse período compus alguns poemas, ação mais fácil quando me faltam ideias claras e articuladas... Mas confesso que, desde as eleições, venho sentindo muita dificuldade de entender e explicar, os dois verbos que movem a minha escrita.
            Ao longo desse tempo, assisti (meio intrusa) às aulas do meu amigo Antônio Paulo, li e pensei muito... Prestei intensa atenção nas pessoas... Aí esse texto começou a nascer, embora estivesse entalado...
            Pois bem: chegou a hora do Congresso da Academia de Estudos onde trabalho. Cida Pedrosa, a convidada com quem vou dividir a fala, escolheu o tema “Mulher e literatura”; por acaso, eu estava acabando de ler dois livros − “Meio sol amarelo” (de Chimamanda Nigozi Adichie) e “Mais de uma luz: fanatismo, fé e convivência no século XXI” (de Amós Oz) −, e tudo começou a se encaixar.
            Antes de começar a falar de Chimamanda, ou de qualquer literatura escrita por mulheres, preciso explicitar com cuidado o conceito de “centrifugação”, levantado por um grupo de escritores espanhóis. “Centrifugar” e “centrifugação” são duas palavras cujos significados remetem a “tirar do centro”. Quando escrevi no Google “Escritores africanos”, por exemplo, apareceram na tela quatro escritores brancos; é isso centrifugar, algo como invisibilizar, se é que essa palavra existe. Duas mulheres negras formidáveis (Chimamanda e Mukasonga) simplesmente não apareceram na tela do meu computador.
            Estudando Chimamanda depois de terminar de ler seu livro, eu esbarrarei num vídeo do Youtube em que ela levanta o conceito de single story (história única, em português). Por meio de narrativas, como costumam fazer os escritores, ela enfatiza a importância de escutarmos várias histórias, para termos uma visão mais completa da realidade. De alguma forma, eu intuía isto: durante o ano passado, falei várias vezes de escuta.
            No vídeo, ela conta que, quando chegou nos Estados Unidos, sua colega de quarto admirou-se de ela saber falar e escrever tão bem em inglês, ou seja, Chimamanda constatou que ela sabia quase nada da África e do seu país, a Nigéria, que tem a inglesa como língua oficial. Mas de forma bem humilde também narra um episódio que aconteceu com ela própria: quando chegou no México, admirou-se de o povo de lá viver de forma tão normal e, na verdade, viu que tinha assimilado, sem querer, a história única dos mexicanos contada pelos americanos. 
Ela adianta que, ao lado dos genocídios, das guerras, das catástrofes e das epidemias, a África tem, como o México, pessoas que resistem, lutam, prosperam − apesar dos governos −, amam, são amadas, estudam, leem, escrevem... E conclui: a história única não é mentirosa, mas incompleta e geradora de estereótipos. Vale-se de palavras de outro escritor nigeriano (Chinua Achebe), para afirmar que é necessário um “equilíbrio de histórias”. O livro “Meio sol amarelo” de Chimamanda é um painel sobre a guerra de secessão Nigéria/Biafra, entre 1967-70, que perpetrou o genocídio de sua etnia, a Igbo, e matou mais de um milhão de pessoas.
Tudo isso combina perfeitamente com as ideias de Amós Oz no seu esclarecedor “Mais de uma luz: fanatismo, fé e convivência no século XXI”, coletânea de três ensaios em que o autor defende, resumidamente, que há mais de uma luz, não uma só, daí o título do livro. E que há muitos tons e subtons entre o preto e o branco. 
No primeiro ensaio, chamado “Caro fanático”, ele começa dizendo que “uma coisa é sair em perseguição a um bando de fanáticos armados nas montanhas do Afeganistão, nos desertos do Iraque ou nas cidades da Síria. Outra, completamente diferente, é combater o próprio fanatismo”. E começa a apresentar ideias sobre a natureza do fanatismo e sobre como contê-lo.
Afastando-se dos leitores simplificadores de Samuel Huntington, para quem o campo de batalha atual é uma guerra de civilizações travada entre a selvageria islâmica e a cultura ocidental, Oz reconhece vários comportamentos como fanáticos menos evidentes: antitabagistas, vegetarianos, ambientalistas, opositores da globalização, membros de partidos políticos e de times de futebol... apresentam, infelizmente, condutas violentas. E ele tem razão.
Depois diz ele que o fanatismo é mais antigo que toda ideologia que existe no mundo; “é um fundamento fixo na natureza dos seres humanos, um gene mau”. E começa a listar: genocídios, jihad, cruzadas, inquisições, gulags, campos de extermínio, porões de tortura não são novidades na nossa história, e muitos desses fatos vieram antes do radicalismo atual do Islã.
Continuando a pensar, Oz chega a um ponto esclarecedor: “quanto mais difíceis e complexas se tornam as perguntas, tanto mais cresce a avidez por respostas simples, respostas com uma única sentença, respostas que apontem sem hesitação os culpados por todos os nossos sofrimentos, respostas que nos asseguram de que, uma vez que eliminemos e exterminemos os malvados, imediatamente todos os nossos tormentos desaparecerão”. Cita sua própria infância radical de sionista-nacionalista e um personagem de uma obra sua, para concluir que há confrontações que não se definem no preto e branco e que “o ódio cego faz com que os que se odeiam de ambos os lados da barricada sejam quase idênticos um ao outro”.
Prossegue trazendo a ideia de que, no tempo, “estamos todos nos afastando dos horrores” de Stálin e Hitler os quais, sem querer, evidentemente, desenvolveram, em duas ou três gerações, um temor profundo de todo extremismo e uma espécie de contenção das pulsões que levam ao fanatismo; constata o ressurgimento do ódio, do fanatismo, da aversão ao diferente, da brutalidade revolucionária que não estão no volume com que são expressos, mas na falta de tolerância com os discursos discordantes. E levanta três causas para isso – ânsia de pertencer a um grupo, endeusamento de líderes e políticos e infantilização de multidões que desaguam em apagamento do sujeito. 
A pertinência de Oz também denuncia o apagamento da fronteira entre a política e a indústria do entretenimento as quais, servindo-se dos meios de comunicação e desse “jardim de infância global”, fazem as palavras “irado”, “hilário”, “bizarro” e “tosco” ganharem eleições, divertirem as massas, desviarem sua atenção e sugarem o seu dinheiro. 
            Mukansonga, cujo livro “Baratas” traz no título a palavra com que sua etnia, os Tutsis de Ruanda, foi rotulada, materializa a ideia de Chimamanda de que um povo termina por ser reduzido à história única que se conta, injustamente, contra ele e poderá ser alvo fácil da violência do extermínio. 
            Fiquei muito agradecida a Chimamanda e a Amós Oz por terem me dado o cimento que juntou os tijolos da minha angústia de vários meses. Por meio deles, obtive mais palavras e mais narrativas para entender e explicar um pouco melhor o meu próprio contexto social que se mostra um campo minado em que é muito difícil exprimir ideias, principalmente se elas saem da ortodoxia polarizada.  
Oz argumenta com propriedade que há escalas do mal – defensores agressivos da qualidade ambiental causam um mal infinitamente menor que aquele que realiza um atentado a bomba contra uma multidão. Inclusive acrescenta que também causa mal quem não atenta à gradação. Já que concordo com ele, pisando no campo minado, afirmo: embora haja gradações infinitas entre elas, as duas visões que se confrontam no país estão, sim, dificultando convivências possíveis.  
É obvio que há uma pior do que a outra: mentira e agressão (Oz considera a agressão a “mãe de todas as violências”) são metodologias tão abertamente erradas e inaceitáveis, que nem sabemos direito como reagir a elas. Mas também há do lado cá um comportamento que merece atenção. Um país com 200 milhões de pessoas não pode ter só duas ideias. Quem está ganhando com isso? Só existe uma história da escravidão? A mulher é só vítima, e o homem é só algoz no Brasil?
            Oz declara a certa altura do texto que alguns colegas do movimento pacifista o condenam, com raiva, porque ele tem uma ideia diferente quanto ao caminho para alcançar a paz entre Israel e a Palestina. Ou seja: a história ou ideia única é imposta como um pacote pronto com vários itens com os quais se tem que, obrigatoriamente, concordar. 
            E eu tenho ouvido queixas de amigos de trabalho sobre xingamentos que receberam por não aceitarem o pacote da esquerda inteiro, sendo por isso acusados de serem de direita; reclamações de homens que se sentem agredidos quando ouvem a frase “todo homem é potencialmente um estuprador”, a qual, em última instância, confirma a força e a superioridade masculina em detrimento da mulher indefesa que resta fraca e vítima nas brechas sociais... Não só: acusa todos do crime de poucos. De onde vem essa polarização que é apenas um resumo mal feito das possibilidades de nossos relacionamentos? Desde quando a História é apenas um relato? Todas as mulheres são indefesas? Todos os homens são agressores?  
No seu contexto, Oz propõe como solução para esses impasses curiosidade, imaginação e humor. E Chimamanda, o tal “equilíbrio de histórias”. Ou seja: ela convida à disposição de ouvir mais e falar mais, por meio de narrativas escritas, cinematográficas, radiofônicas... Gosto muito dessas ideias: uma pessoa curiosa e imaginativa é capaz de se colocar no lugar do outro. Por conseguinte, é capaz de pensar ‘e se fosse comigo?’ e de, por isso, começar a respeitar a diferença que o outro sempre carrega, seja ele branco ou preto, hetero ou homo... E gosto do humor que, mesmo politicamente incorreto, às vezes, é uma válvula de escape para os seres imperfeitos que sempre seremos. Pois não podemos só fazer de conta que somos bonzinhos e calar. Mais dia, menos dia, seremos assaltados pelo recalcado, como diz Freud; de alguma forma isso escuro que somos deve ser elaborado. 
No nosso contexto, à lista de Oz e Chimamanda eu acrescentaria a palavra, porque ela é, na minha opinião, a ferramenta para se conseguirem as outras. E, enquanto não houver escola eficiente para todos, a valorização dos escritores e roteiristas que, diferentemente do que supõe o autor americano do conceito de “lugar de fala”, são, sim, capazes de falar pelos centrifugados, como fez Chimamanda de várias formas – por ser mulher, negra, africana e por ter, corajosamente, colocado Ugwu como um dos personagens centrais do seu romance. 
Num genocídio, o que corre é sangue; não palavras. Só depois elas vêm, para lavá-lo, feito a obra de Mukasonga, que é não só a mortalha de sua mãe, mas também de seu povo. E nossa, que uma história daquela mata todos nós.
Também é preciso repensar de forma autônoma, para que não se fortaleçam, esses pacotes de ideias que têm uma ligação muito forte com o cumprimento cego das expectativas do outro. Esse comportamento nada mais é do que, nas palavras de Lacan, outra “demissão subjetiva”. Isso tudo tem resultado no inusitado crescimento do número de suicídios atual. 
Mais que tudo, conclamo a um uso mais responsável dos nossos maravilhosos celulares e das redes sociais que, em vez de terem se tornado meios de comunicação efetiva entre nós, viraram uma rinha de galos de briga, porque não estamos acertando a fazer um equilíbrio de histórias variadas. Em vez disso, vencidos pelos algoritmos, só ouvimos a palavra de quem pensa igual a nós. No pacote. Sem contradição. Ou viraram uma marreta com a qual julgamos estar resistindo ao “inimigo”. Na verdade, estamos amplificando-o e dando a ele a direção de nosso pensar, de nosso agir, de nosso sentir... “Quase nunca se consegue derrotar uma ideia, ainda que distorcida, usando apenas uma grande marreta. É necessário ter uma resposta; uma ideia contrária, uma crença mais atraente, uma promessa mais convincente”, diz o mágico Oz...
E, tenho certeza, só chegaremos a elas, se, em vez de armas, usarmos narrativas que espalhem mundo afora, não as histórias únicas, mas as histórias plurais, que nos ensinam a verdadeira diversidade que é a que não perde de vista o nosso tutano comum. 

quinta-feira, junho 20, 2019

A MENINA NINA (para a minha neta Nina)


Enfim chegaste
e és minha
feito o sal é do mar!

No rubro rio
de tuas veias,
corre nosso
pertencimento
que não se explica.

Nosso destino
é difícil.
Mas não temas:
eis estas palavras,
meu delicado contributo
para teu mundo mais corrigido;
nelas,
estarei sempre
a teu lado.

segunda-feira, maio 20, 2019

QUEM SABE?


O desejo
não se ensina,
nem o voo,
que estão na natureza
mesma do ser.

É sede
nunca saciada,
ou dom identitário?