ANTÍTESES E OUTRAS TRISTEZAS NO DIA DO PROFESSOR, ESPECIALMENTE O DE LÍNGUA PORTUGUESA
Não é a primeira vez que caio numa antítese de mãos dadas com o Instituto Ricardo Brennand.
Da primeira vez, há uns doze anos, tinha ido com uma equipe da Rede Globo fazer um programa para o projeto GLOBO EDUCAÇÃO, de minha querida Jô Mazzarolo, sobre João Cabral de Melo Neto. Quando chegamos perto da favela que serviria, digamos, como cenário da aula, eu caí num choro convulso, indignada com aquela ainda existente realidade na minha tão querida cidade... Tive (não sei como) de me recompor sob o olhar respeitoso da jornalista e dos técnicos que me acompanhavam e que esperaram, pacientemente, que eu parasse de chorar. Não sei como o programa foi editado, nem me lembro se ele prestou, se o choro se estampou no vídeo e ficou tatuado para sempre... Não importa...
Quatro ou cinco horas depois, fui à formatura dos alunos do terceiro ano do colégio onde ensinava na época, no Instituto Ricardo Brennand. Tinha havido um casamento no dia anterior à formatura, e as famílias dos noivos tinham mandado buscar não sei onde uns lustres lindos de cristal que deram ao casamento e à formatura (que pegou uma carona na ornamentação) uma luz muito rica e uma atmosfera de muita sofisticação.Quando
vi o cenário composto pelos lustres, fiquei muda de impactada: é que eu tinha
posto o pé, apenas algumas horas antes, numa palafita inaceitável, e a antítese
tinha feito uma espécie de terremoto de escala altíssima dentro mim.
Tive
muita vontade de, na época, escrever uma crônica, mas fiquei com medo de que
meu texto parecesse que eu estava distribuindo culpas e responsabilidades. E
desisti.
Hoje
é o dia do professor. Quando abri o celular depois de tomar café, li a notícia
de que os sobreviventes de Gaza estão presos num silêncio difícil de descrever.
Felizmente,
ao contrário, eu tinha passado os últimos dois dias no Instituto Ricardo
Brennand tendo o privilégio de participar do projeto PARA LER. No caso, o
projeto propunha ler e discutir o livro TERRA SONÂMBULA do escritor moçambicano
Mia Couto (que esteve presente num rápido primeiro momento) com a mediação do
presidente da Academia Pernambucana de Letras, Lourival Holanda. Em outras
palavras: eu e mais duas ou três dezenas de pessoas tivemos o privilégio de
pensar e falar sobre o absurdo destrutivo das guerras com a ajuda do texto de Mia
e dos comentários de Lourival.
Confesso
que fui eleita membro dessa Academia em 2023 sem entender bem os motivos: me
sinto sempre muito deslocada em todo lugar, nela não é diferente – é que
escrevo por motivos banais (para entender, para explicar, para ruminar a soma
de meus dias, para participar como posso do ramerrão do mundo...). E o apreço
que recebo das pessoas de lá é uma surpresa que alivia um pouco o meu eterno
deslocamento. Apesar dele, continuo
tendo o tempo todo uma sensação de que não sou adequada ou algo parecido com
isso que não sei nominar. E o pior: a esta altura da vida nem sei se isso tem
conserto...
Essa
dicotomia entre a guerra e as palavras está escrita no livro de Mia de forma
magistral – numa espécie de português vingado e ampliado, ele nos convida a
entender o que é uma guerra fraticida como a que Moçambique viveu: “uma cobra
que usa os nossos próprios dentes para morder” e cujo veneno fica circulando “em
todos os rios da nossa alma.” Ele completa dizendo que “o sonho é o olho da
vida” e que, durante a guerra, todos são cegos, e toda terra fica sonâmbula ou
meio morta.
Acontece
que Mia tem as palavras de muitas línguas que lavaram ou lavam todo o absurdo
daquela guerra (como todas) longa e perdida, já que não há vencedores nelas, só
perdas e derrotas... O autor, à semelhança de meu amado João Guimarães Rosa,
“quebra” a língua portuguesa, numa espécie de vingança mansa, e aos cacos soma
uma miríade de línguas e dialetos que expandem as compreensões ao infinito,
presenteando-nos com novos horizontes grávidos da paz que todos desejamos, de
com força, quando estamos na linha do tiro. E, convenhamos, se um está nessa
linha, todos estamos.
Sendo
a crônica um gênero menor que combina com o meu deslocamento e a minha falta de
jeito – confesso que interrompi muitas vezes o genial Lourival para recitar
poemas, tentar, desajeitadamente, completar o que ele disse e até para chorar
(uma psicóloga que estava lá chegou a perguntar se eu estava bem, fazendo um
preciso diagnóstico de minha falta de jeito) – estou escrevendo esta para dizer
aos habitantes de Gaza que eu desejo de todo coração que eles reencontrem as
palavras e que com elas possam conversar, confessar, inventar perdões, escrever
textos ficcionais, fazer documentários, relatar experiências, sonhar saídas,
brechar caminhos... Enfim: lavar essa guerra suja e seguir a vida.
Sem
as palavras, que estão em textos literários, não literários, em armistícios, em
tratados de paz, em leis... as guerras chamam mais armas, armas mais
destruidoras, até armas que matam pessoas e não derrubam prédios para que não
haja maiores prejuízos financeiros... Esses absurdos que só nós humanos somos
capazes de inventar...
Estou
cada dia mais certa de que a imaginação, escrita nas palavras, às vezes, se
esquece do que é e vira realidade.
Portanto
precisamos inventar com palavras um futuro cheio daquilo que pude viver no
Instituto Ricardo Brennand, ou seja, testemunhar que é possível a materialização
de um mundo que tenha cada vez mais gente que se proponha a tecer um manto
enorme de palavras doces que cubra todas as pessoas e as proteja para sempre da
lógica absurda das armas.


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