sábado, dezembro 20, 2025

AS NARRAÇÕES DE BYUNG-CHUL HAN E A POESIA SLAM

A LUTADORA

Acordo muda
e já começo.

A poesia
não se entrega,
só arde.

O dia corre
com suas tocaias,
minha luta se cansa
de inútil e sem eco.
A noite se fecha
nas suas trincheiras.

Reluto
mal nasce
outro dia...

Se me perguntam
por que resisto:
além de ruminar
a vida,
a poesia se veste
dos horizontes pensados
e faz de nós
o que somos. (Flávia Suassuna)

Recentemente, tive a sorte de ler “A crise da narração”, do filósofo coreano Byung-Chul Han, um livro muito esclarecedor. Nele o autor opõe storytellings a narrações (às vezes, ele escreve a palavra com “t” e, às vezes, com “s”, confundindo, de propósito, o contar com o comprar, numa tradução ligeira). 

Han acusa as storytellings de não gerarem vinculação; de só veicularem autopromoção e anúncios; de se deixarem apropriar pelo Capitalismo e de funcionarem de forma aditiva, dificultando a presença do contraditório. Também as culpa pelo aparecimento recente de populistas e extremistas tribais cujas teorias, na sua opinião, intensificaram a crise narrativa e tomaram o lugar das “palavras” propostas, sentido e identidadeDenuncia que postar, curtir e compartilhar são ações simplistas e de um imediatismo irresponsável, acrescentando que a velocidade do espalhamento chega a ser perigosa. Em seguida, acresce que as storytellings apagam tão completamente o olhar do outro que reina absoluta uma única versão ou visão. E o outro se torna consumível e descartável feito uma coisa.

Ao contrário das storytellings, os narradores, em suas narrações, nos emprestam as suas experiências, e elas se tornam tão nossas que as passamos adiante como se fossem nossas... E isso, na minha opinião, é bem capaz de construir margens de milagre e germinação de novos sentidos os quais nos deem a força e a habilidade para lidar com as paredes novas que surgem o tempo todo nos nossos labirintos, sejam eles sociais ou subjetivos. As narrações e os narradores também nos ajudam a entender que somos uma trança de gente e de palavras e que a felicidade é, ao contrário do que diz a gramática, um substantivo coletivo – ninguém é capaz de ser feliz sozinho, trancado no vigésimo andar de um condomínio fechado e cercado de muros. Nem dentro de um carro enorme com vidros blindados.

O final do livro nos presenteia com um capítulo cujo título é “Narração como cura”, e estou aqui tentando ordenar suas ideias a fim de que elas nos ajudem a pensar a poesia slam.

Byung-Chul Han, nesse antepenúltimo capítulo do livro “A crise da narração”, começa a pensar a partir do texto “Imagens do pensamento”, de Walter Benjamin, um alemão difícil de definir: foi ensaísta, tradutor, filósofo, sociólogo e crítico literário ao mesmo tempo. Numas das cenas do livro, Benjamin evoca o que chama de cena originária da cura – uma criança doente repousa numa cama, e sua mãe começa a lhe contar histórias.

Essa narração cura, de acordo com Benjamin, por vários motivos: proporciona relaxamento, cria confiança, acalma, acaricia, fortalece vínculos, apoia... É que as narrativas infantis falam de um universo resguardado (que transforma o mundo em um lar familiar) e a maioria delas obedece ao modelo básico da superação de uma crise.

Nesse contexto, a narração termina por ajudar a criança a superar a crise que a doença constitui. Han chama a atenção para o fato de que Benjamin fala também de uma mão que cura, ou seja, de mãos que carregam uma expressividade tão forte que seria indescritível – “era como se narrassem uma história” –, ele conclui.

E, então, Han arremata: “toda doença revela um bloqueio interno que pode ser removido por meio do ritmo da narração; a mão que narra libera a tensão, o congestionamento e o endurecimento.” Refere Freud, o qual também entende a dor como um sintoma indicativo de um “dique” na história de uma pessoa. Freud, inclusive, exemplifica com os transtornos psíquicos que expressam, na sua opinião, um bloqueio narrativo cuja cura consiste na verbalização: “o paciente é curado no momento em que se narra mais livremente.”

Nesse ponto, Han revela que Benjamin se fez duas perguntas – a primeira: não seria toda doença curável, caso se deixasse arrastar pela corrente da narração? A segunda: a narrativa que o doente faz ao médico, no início do tratamento, já não seria o início do processo de cura? E eu faço a terceira: não participaria a poesia desse mecanismo de cura?

Atrevo-me a expandir a ideia de Byun-Chul Han afirmando que a poesia, sim, está ao lado das narrações nesse lugar de salvar: a narração, a poesia e a substância de que são feitas – a palavra – são terapêuticas, e uma das explicações para isso é que estruturam não só a construção de sujeitos e a compreensão e a tolerância do outro, mas também saídas.

Em determinado ponto do texto, Han usa uma concessiva para dizer que embora o storytelling esteja fortíssimo, o clima narrativo está desaparecendo: ninguém escuta ninguém; ninguém narra mais, ninguém tem tempo, nem paciência para escutar, vencidos que todos estamos pela lógica da eficiência. Como conhece a eficácia das histórias, Han usa uma para tornar suas ideias mais compreensíveis – “Momo”, do escritor alemão Michael Ende. Nessa narrativa, a menina Momo pode curar as pessoas simplesmente escutando-as de uma forma especial: é que ela não só ouvia o partilhado, mas se concentrava na pessoa, “no quem do outro.”  E acrescenta que o toque também tem seu poder de cura, evocando outra cena originária em que o toque da irmãzinha cura o irmão onde dói.

A questão é que vivemos numa sociedade sem diálogo e sem toque: só queremos discursar e não dialogar (usando as palavras de Vilém Flusser, filósofo checo e meio brasileiro) e é impossível acariciar objetos que são passíveis de apenas serem agarrados e apropriados. Desgraçadamente, a pobreza das narrativas não anda só, mas com a avareza do toque, e elas estão nos deixando depressivos, solitários e ansiosos. Em suma: a crescente conectividade, paradoxalmente, nos isola, desvincula e adoece, principalmente do ponto de vista psíquico, mas não só.

Ao contrário, a palavra salva! Quando a pomos em movimento no conto, na novela, no romance, no teatro, na poesia, no slam, no jornalismo, no roteiro de filmes e documentários, nos consultórios de psiquiatras, psicólogos e psicanalistas, nos diálogos... conseguimos ordenar, hierarquizar, entender, perdoar... E sobreviver... E achar um sentido... E nos manter vivos, apesar de tudo. Lembro que Lacan dizia que o suicídio é uma demissão subjetiva.

Portanto, a poesia slam é um milagre: ela nasceu, aqui no país, há uns dez anos, na Praça Roosevelt, no centro de São Paulo – e já se espalhou pelo país todo – como resposta pacífica à truculência policial e estatal; é autoral; constrói sujeitos; forma laços; organiza grupos a que pessoas marginalizadas começam a pertencer; denuncia as doenças sociais que vitimam os habitantes das periferias – racismo, pobreza, falta de horizontes, preconceito, violência –; pluraliza e democratiza os espaços de expressão; é não só um espaço de reinvindicação de direitos, mas também uma ferramenta de organização política.

Ao fazer poesia em vez de matarem ou matarem-se, os jovens das periferias se constroem cidadãos, fazem-se ouvir, aprendem a escrever, leem, estudam e se empoderam como deve ser: na construção paulatina de si mesmos e de coesão social. 

Que venham mais prêmios, mais coragem, mais resistência, mais soluções, mais escutas e mais expressões para esses jovens, cujo caminho são sementes de esperança. Como sempre digo quando posso, quando há palavras em movimento, o sangue não corre.

Agradeço a eles a oportunidade rara de testemunhar que é possível escolher a linha da palavra, mesmo quando se é colocado na linha do tiro.