PALAVRA AOS FORMANDOS DO QUINTO ANO DO SABER VIVER
Boa noite a todos.
Estamos vivendo tempos difíceis e maravilhosos, ao mesmo tempo: por um lado, muitas transformações ocorrem muito depressa, e isso dificulta nossas relações; por outro, estamos inventando curas para diversas doenças e podemos nos comunicar rapidamente com pessoas que estão muito. muito longe de nós por meio de aparelhos telefônicos formidáveis. O nosso maior desafio hoje é saber usá-los, pois uma de suas características é que eles nos capturam e roubam o nosso foco.
Durante
o tempo em que eu eduquei os meus filhos, tudo também era custoso (sempre é
difícil educar), mas não era tão difícil de conseguir, porque, em cada casa, só
havia uma televisão e tínhamos de negociar o tempo todo o aparelho e o canal.
Essa negociação, sem dúvida, era uma espécie de diálogo que exigia olho no olho,
presença, fala, discussão...
Como
todo diálogo é difícil (temos de lidar com posições e pensamentos diferentes
dos nossos, com tons de voz que se alteram, com lágrimas...), tudo nos treinava
para viver, na medida do possível, uns com os outros e para entender a nós
mesmos. É que, às vezes, nos surpreendemos com as palavras que saem das bocas,
pois nossa linguagem tem um lado inconsciente e, portanto, surpreendente.
Outra
diferença: quando eu era de idade de vocês, tinha mais tempo livre para ler o
que me fosse indicado pela escola e o que eu quisesse; a escola não tinha o
turno integral, e o lazer era todo menor – não éramos tão demandados para
vermos shows, streamings, jogos on line, filmes...
Não
estou dizendo que o passado era melhor do que o presente, de jeito nenhum. Toda
geração vem diferente e sem bula, e a convivência é sempre muito difícil.
O ponto é a palavra e seus poderes. A linguagem oral é um instinto para a quase totalidade das pessoas; a escrita é sempre mediada, ou seja, alguém tem que nos ensinar a ler e a escrever.
A escrita nos ajuda a organizar ideias; registrar informações; expressar ideias de forma mais clara e, portanto, a facilitar a aprendizagem, a colaboração e o pensamento crítico; nos auxilia a preservar o conhecimento e a cultura e permite interação entre pessoas que estão separadas no tempo e no espaço. Quando não estamos bem, psicologicamente, o profissional da saúde mental nos pede para falar e/ou escrever sobre o que pensamos e sentimos. É nesse longo caminho de palavras, entre certas e erradas, que nos achamos.
Mas
estamos vivendo num verdadeiro tsunami de opiniões e de distrações que roubam o
nosso foco e nos soltam dentro de um verdadeiro labirinto: estamos perdendo a
capacidade de hierarquizar e nos concentrar por um longo tempo. E isso está nos
fazendo perder privacidade e qualidade nas nossas relações sociais presenciais.
Acontece
que não estamos produzindo mais nem melhor, estamos só adoecendo...
Queria
terminar dizendo que estou muito orgulhosa do lançamento do livro de vocês e
que, na minha opinião, isso constitui um ato político muito importante nos dias
de hoje. Teimar em ler e escrever é uma resistência e um posicionamento social
admirável e necessário, quando tudo empurra a gente para simplificações e falta
de capacidade crítica.
Espero
que vocês continuem a percorrer essa trilha aberta pelo Saber Viver e pelos
seus mediadores – nossos professores – que escolheram uma profissão difícil e
pouco valorizada. Mas perseveram a favor de vocês, podem acreditar nisso.
Esses
caminhos são para poucos e eleitos. Tenham coragem de continuar neles.
Lembrem-se de que os pontos de chegada são importantes, mas nós do Saber Viver
acreditamos que a travessia, o modo como seguimos é muito importante também. Ou
talvez mais...
E
o caminho da palavra, do diálogo, da negociação, do respeito pelo diferente é o
melhor caminho, mesmo que ele seja mais difícil. Parabéns!


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