sexta-feira, fevereiro 20, 2026

PALAVRA AOS FORMANDOS DO TERCEIRO ANO DO ENSINO MÉDIO DO SABER VIVER

Prezados alunos:

            Fiz questão de estar aqui hoje para me despedir de vocês com a profundidade e deferência necessárias; estamos juntos há três anos e tenho por vocês um apego todo especial – nesse tempo, tive outros empregos aos quais não  me adaptei e quero deixar claro o que constituiu para mim e para vocês todo esse tempo, todo esse aprendizado e toda essa experiência.

            Primeiro quero agradecer pela compreensão: vocês acertaram a ser acolhedores de minha diferença. Eu tenho apenas um irmão que é zootecnista e trabalha na área rural; por causa disso, ele tem um vocabulário que pertence ao conjunto das palavras, digamos assim, agro. Uma vez, ele queria comprar uma calça exatamente igual a outra que ele tinha e, chegando à loja em que tinha feito a compra com a roupa velha em mãos, exclamou:

Quero uma calça dessa mesma raça.

Pois bem: ele diz que sou “apartada”, usando um termo desse seu léxico próprio. Na área rural, usa-se essa palavra para dizer assim: “esse touro precisa ser apartado, os bezerros estão apartados”. Isso quer dizer que o touro precisa ser separado do resto do rebanho, sabe? Ou os bezerros estão separados das vacas. 

De fato, sou “apartada” da maioria – por ser mulher, mãe solo de três filhos (inclusive um deficiente), por ser idosa, por trabalhar com literatura, por ser espiritualista, por ser escritora e mais outras apartações inumeráveis.

Isso que aconteceu entre nós é uma riqueza que vocês construíram dia a dia, e eu espero que vocês não percam, de jeito nenhum.

A maioria de nós não nota, mas estamos (os que são motivados pelo bem e que nem sempre fazem tudo certo) construindo a utopia da diferença, depois que a utopia da igualdade falhou, tanto em 1789 quanto em 1917. Temos o privilégio de ter, desde meados do século XX, cada vez mais aperfeiçoados meios de comunicação e de transporte a nosso dispor, e isso nos deu a oportunidade de ir e vir mais. E ir e vir é um de nossos direitos mais básicos, pois nossa humanidade carrega a marca da busca que não para.

Então: estamos nos deslocando mais de um país para outro e, aqui no Brasil, houve uma mobilidade social quase impensável na Europa, por exemplo. Ou seja: agora temos diante de nós o desafio de viver com quem é diferente de nós na escola, na academia, no prédio e (vocês vão ver) na universidade e na vida profissional.

O tema da tolerância é difícil, porque, para praticá-la, é preciso conviver minimamente bem com o diferente. Sobre isso é bom não esquecer o que Gandhi afirmou: não precisamos entender o que toleramos.

É claro que sabemos que a tolerância tem limites e paradoxos. E que as bolhas das redes sociais nos impedem de ir em frente com mais rapidez: elas, de forma sistemática, aproximam iguais, e, sem perceber, nós nos acostumamos a falar para quem pensa como nós e a ouvir sempre o que pensamos, o que cria uma dificuldade de convivência com pessoas que não pensam como nós.

Mas o que quero dizer é: se vocês acertaram a fazer comigo e uns com os outros, nesses três anos, provavelmente acertarão a fazer a seguir na profissão e na vida de vocês.

Na verdade, Gandhi me perdoe, acho o verbo “tolerar” bonitinho... Lindo é o verbo “amar” para o qual a minha religião tanto chama atenção. Vocês sabem que sou católica, mas sabem também que, quando me perguntam qual a minha religião eu respondo:

Sou católica. Mas só Deus sabe...

Tivemos conversas hilárias, sérias, profundas, acho que errei, acertei, provoquei... O mesmo pode ser dito em relação a vocês... Gostei de ouvir vocês, às vezes, não gostei... Acho que aconteceu com vocês a mesma coisa... Em resumo: vivemos juntos, aprendendo, tentamos, não desistimos de nos entender.

De forma geral, estou aqui para pedir a vocês que continuem fazendo tudo isso: que não desistam, que teimem na direção do diálogo, que escutem, pensem, analisem e, depois, emitam opinião, não se eximam de participar da discussão de temas sociais. É assim – tentando, escutando, falando, retomando, perdoando, repensando que nos curamos dos ferimentos que a nossa convivência sempre faz, porque interferimos na vida e nas ideias do outro e este interfere nas nossas. Ou seja: nós nos ferimos uns aos outros, isso é inescapável. Mas nossas palavras são capazes de curar esses ferimentos.

Não caiam na armadilha da simplificação: somos diferentes uns dos outros, todos somos diferentes, e a diferença é uma riqueza, não uma dificuldade. A simplicidade da linguagem não é um caminho; se fosse assim, no trânsito não haveria brigas e acidentes perigosíssimos como há.

Somos complexos; portanto continuem estudando, lendo, discutindo, trocando ideias, divergindo, convergindo... Aperfeiçoem a capacidade de dialogar. 

A globalização criou “uma comunhão de destinos”, como diz Edgar Morin, e essa complexidade não pode ser enfrentada com simplismos e com a linguagem rápida e cheia de ordens da publicidade. Discordem quando alguém falar junto de vocês, que nossas relações mais importantes são as econômicas. Isso não é verdade, e vocês tiveram nesses três anos experiências suficientes para saber disso. 

As palavras são nossas mais importantes ferramentas – elas podem ferir, é verdade. Mas, principalmente, elas servem para, com elas em movimento, a gente pensar, escrever, comentar, concordar, discordar, guardar, relatar experiências, estabelecer limites, leis, ultrapassá-los sem ameaçar a vida... Quando elas se movimentam numa sociedade, as armas perdem seu sentido e podemos brigar sem que nosso sangue se derrame.

A palavra dita, buscada, escrita, sonhada, desejada, ouvida, partilhada... é, como diz Mia Couto, a única roupa que temos contra a violência com a qual insistimos em viver e que nos vitima cotidianamente. Basta de repetir erros que já cometemos no passado, por preguiça de ler, pensar e discutir com respeito e profundidade.

O filósofo tcheco Vilém Flusser opõe dois conceitos: discurso (que seria uma pessoa falar sem querer ouvir) e diálogo (ao contrário, uma pessoa que seria capaz de se modificar por meio do que a outra lhe diz, embora não perca de vista suas próprias opiniões e referências). Não é com manchetes simplórias que daremos conta de nossas complexidades. Nem com slogans. Nem com bolhas algorítmicas de ideias. Nem com criação pelo avesso de simplistas versões contrárias às de quem pensa diferente de nós. Nem com partidos, talvez, como comecei a pensar recentemente.

A verdade é um diamante cheio de ladinhos e vivemos num tempo que exige o acolhimento de todos. Não há só um caminho, nem só uma versão.

Precisamos ir na direção de um futuro que fale a língua da tolerância, da empatia e da inserção de todos. Esse idioma só poderá ser inventado se o exercício da palavra tomar o lugar das armas. E o diálogo tomar o lugar do discurso. O nome disso é utopia, eu sei. Mas ajuda a caminhar.

E vocês, pelo que vi, já começaram a falar essa língua. Pratiquem-na, não desistam dela. Eu estarei de olho em vocês. Obrigada por tudo. E parabéns!