PALAVRA AOS FORMANDOS DO TERCEIRO ANO DO ENSINO MÉDIO DO SABER VIVER
Prezados alunos:
Fiz questão de estar aqui hoje para me despedir de vocês com a profundidade e deferência necessárias; estamos juntos há três anos e tenho por vocês um apego todo especial – nesse tempo, tive outros empregos aos quais não me adaptei e quero deixar claro o que constituiu para mim e para vocês todo esse tempo, todo esse aprendizado e toda essa experiência.− Quero uma calça dessa mesma raça.
Pois
bem: ele diz que sou “apartada”, usando um termo desse seu léxico próprio. Na
área rural, usa-se essa palavra para dizer assim: “esse touro precisa ser
apartado, os bezerros estão apartados”. Isso quer dizer que o touro precisa ser
separado do resto do rebanho, sabe? Ou os bezerros estão separados das
vacas.
De
fato, sou “apartada” da maioria – por ser mulher, mãe solo de três filhos
(inclusive um deficiente), por ser idosa, por trabalhar com literatura, por ser
espiritualista, por ser escritora e mais outras apartações inumeráveis.
Isso
que aconteceu entre nós é uma riqueza que vocês construíram dia a dia, e eu
espero que vocês não percam, de jeito nenhum.
A
maioria de nós não nota, mas estamos (os que são motivados pelo bem e que nem
sempre fazem tudo certo) construindo a utopia da diferença, depois que a utopia
da igualdade falhou, tanto em 1789 quanto em 1917. Temos o privilégio de ter,
desde meados do século XX, cada vez mais aperfeiçoados meios de comunicação e
de transporte a nosso dispor, e isso nos deu a oportunidade de ir e vir mais. E
ir e vir é um de nossos direitos mais básicos, pois nossa humanidade carrega a
marca da busca que não para.
Então:
estamos nos deslocando mais de um país para outro e, aqui no Brasil, houve uma
mobilidade social quase impensável na Europa, por exemplo. Ou seja: agora temos
diante de nós o desafio de viver com quem é diferente de nós na escola, na
academia, no prédio e (vocês vão ver) na universidade e na vida profissional.
É
claro que sabemos que a tolerância tem limites e paradoxos. E que as bolhas das
redes sociais nos impedem de ir em frente com mais rapidez: elas, de forma
sistemática, aproximam iguais, e, sem perceber, nós nos acostumamos a falar
para quem pensa como nós e a ouvir sempre o que pensamos, o que cria uma
dificuldade de convivência com pessoas que não pensam como nós.
Mas
o que quero dizer é: se vocês acertaram a fazer comigo e uns com os outros,
nesses três anos, provavelmente acertarão a fazer a seguir na profissão e na
vida de vocês.
Na
verdade, Gandhi me perdoe, acho o verbo “tolerar” bonitinho... Lindo é o verbo
“amar” para o qual a minha religião tanto chama atenção. Vocês sabem que sou
católica, mas sabem também que, quando me perguntam qual a minha religião eu
respondo:
− Sou católica. Mas só Deus sabe...
Tivemos
conversas hilárias, sérias, profundas, acho que errei, acertei, provoquei... O
mesmo pode ser dito em relação a vocês... Gostei de ouvir vocês, às vezes, não
gostei... Acho que aconteceu com vocês a mesma coisa... Em resumo: vivemos
juntos, aprendendo, tentamos, não desistimos de nos entender.
De
forma geral, estou aqui para pedir a vocês que continuem fazendo tudo isso: que
não desistam, que teimem na direção do diálogo, que escutem, pensem, analisem
e, depois, emitam opinião, não se eximam de participar da discussão de temas
sociais. É assim – tentando, escutando, falando, retomando, perdoando,
repensando que nos curamos dos ferimentos que a nossa convivência sempre faz,
porque interferimos na vida e nas ideias do outro e este interfere nas nossas.
Ou seja: nós nos ferimos uns aos outros, isso é inescapável. Mas nossas
palavras são capazes de curar esses ferimentos.
Não
caiam na armadilha da simplificação: somos diferentes uns dos outros, todos
somos diferentes, e a diferença é uma riqueza, não uma dificuldade. A
simplicidade da linguagem não é um caminho; se fosse assim, no trânsito não
haveria brigas e acidentes perigosíssimos como há.
Somos
complexos; portanto continuem estudando, lendo, discutindo, trocando ideias,
divergindo, convergindo... Aperfeiçoem a capacidade de dialogar.
A
globalização criou “uma comunhão de destinos”, como diz Edgar Morin, e essa
complexidade não pode ser enfrentada com simplismos e com a linguagem rápida e
cheia de ordens da publicidade. Discordem quando alguém falar junto de vocês,
que nossas relações mais importantes são as econômicas. Isso não é verdade, e
vocês tiveram nesses três anos experiências suficientes para saber disso.
As
palavras são nossas mais importantes ferramentas – elas podem ferir, é verdade.
Mas, principalmente, elas servem para, com elas em movimento, a gente pensar,
escrever, comentar, concordar, discordar, guardar, relatar experiências,
estabelecer limites, leis, ultrapassá-los sem ameaçar a vida... Quando elas se
movimentam numa sociedade, as armas perdem seu sentido e podemos brigar sem que
nosso sangue se derrame.
A
palavra dita, buscada, escrita, sonhada, desejada, ouvida, partilhada... é,
como diz Mia Couto, a única roupa que temos contra a violência com a qual
insistimos em viver e que nos vitima cotidianamente. Basta de repetir erros que
já cometemos no passado, por preguiça de ler, pensar e discutir com respeito e
profundidade.
O
filósofo tcheco Vilém Flusser opõe dois conceitos: discurso (que
seria uma pessoa falar sem querer ouvir) e diálogo (ao contrário, uma
pessoa que seria capaz de se modificar por meio do que a outra lhe diz, embora
não perca de vista suas próprias opiniões e referências). Não é com manchetes
simplórias que daremos conta de nossas complexidades. Nem com slogans. Nem
com bolhas algorítmicas de ideias. Nem com criação pelo avesso de simplistas
versões contrárias às de quem pensa diferente de nós. Nem com partidos, talvez,
como comecei a pensar recentemente.
A
verdade é um diamante cheio de ladinhos e vivemos num tempo que exige o
acolhimento de todos. Não há só um caminho, nem só uma versão.
Precisamos
ir na direção de um futuro que fale a língua da tolerância, da empatia e da
inserção de todos. Esse idioma só poderá ser inventado se o exercício da palavra
tomar o lugar das armas. E o diálogo tomar o lugar do discurso. O nome disso é
utopia, eu sei. Mas ajuda a caminhar.
E
vocês, pelo que vi, já começaram a falar essa língua. Pratiquem-na, não
desistam dela. Eu estarei de olho em vocês. Obrigada por tudo. E parabéns!


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