A IMPRECISÃO HUMANA
Sou uma poeta que, de vez em quando, escreve crônicas. Medianas, admito. Mas crônicas são isto: um assuntinho não agudo, mas suportável, que invade nosso pensar e que só se deixa controlar quando escrito. Acontece que escrever não o remove – ele fica ali, crônico, sem cura... Com recidivas intermitentes...
As coisas crônicas resultam de uma combinação randômica de fatores genéticos, fisiológicos, ambientais e comportamentais: são efeito de predisposição familiar que se realiza (ou não) em virtude de uma arrumação específica de escolhas, experiências e erros.
No meu caso, passo meses ou anos sem
escrever uma. Aí, sem querer, tropeço numa de alguém que mora longe, perdida
num jornal virtual nos meandros labirínticos da internet, num card de algum
grupo do WhatsApp... E me dá uma vontade ingovernável de também falar do
assunto dela.
Coitada da crônica... Ela vive agora
assim: sem lugar, escondida, escorraçada feito um caramelo, sem eira, nem
beira...
Pois bem: distraída, li uma crônica
linda de José Eduardo Agualusa sobre a imprecisão humana que, na sua opinião,
será o próximo grande luxo. Por meio de uma narrativa, como costumam fazer os
escritores, narra a história de um rapaz que, desempregado, resolveu restaurar
e vender máquinas de escrever e seus apetrechos. E, assim, achou um jeito de
sobreviver.
Sua paixão por elas, Agualusa nos reporta, era tamanha que ele era capaz de destrinchar a história de cada uma delas – quem a tinha possuído; quem a comprara; por que alguém precisa usar uma (fiquei sabendo ali que médiuns preferem máquinas de escrever a computadores para as suas psicografias); qual a personalidade de cada uma e quais as diferenças entre elas.
A partir daí, o cronista começa a imaginar ideias: de pessoas que pudessem se enamorar de coisas imperfeitas, feito textos com erros ortográficos, fotos embaçadas de pessoas sem um pedaço da cabeça ou um braço, discos de vinil com pipocos, manuscritos com manchas de café, seres humanos com suas incoerências...
Seguindo seu raciocínio, comecei a fazer
uma lista de coisas maravilhosas que foram inventadas depois de um erro, ou por
causa dele – penicilina, micro-ondas, viagra (!), raio X, marca-passo, cola
Super Bonder, post it... A lista é enorme...
Então: como chegamos a essa massificação
da perfeição em que estamos afundando, como num pântano de tristezas? Vozes
monótonas; relógios exatos; mapas rigorosos; lentes versáteis; balanças
impecáveis... Tudo manuseado por anjos que prescrevem comportamentos ideais;
dietas com alimentos que não podem, de jeito nenhum, ser escolhidos; corpos que
ficam presos entre números e algarismos; vigilância, julgamentos e censura de
humoristas e expressões; uso e abuso de “slogans” que não são frases autorais,
mas produtos baratos e industrializados que compramos nas gôndolas dos
supermercados cujos corredores, como sabemos, guardam todos os nossos enganos e
defeitos.
Se prestarmos muita atenção, entretanto
e felizmente, talvez constatemos que ainda continuamos enfeitiçados pelos tons
e subtons inumeráveis das vozes que recitam poemas ou cantam ou tentam seduzir;
ainda chegamos atrasados; nos perdemos; não enxergamos; ficamos acima do peso
ou abaixo; compramos vinis, livros, máquinas de escrever; vamos depressa, mesmo
sem saber para onde... Enfim, ainda somos atraídos pela diferença, pela
exceção... E continuamos a sofrer de/com pequenas imperfeições...
Não nasceria dessas perfeições inatingíveis esse fascínio pelas impressões digitais, pela compreensão de que números torturados podem mentir, crimes horríveis podem acontecer e de que nossa humanidade não precisa só de produtos de limpeza, mas também de compreensão e de perdões sofridos e lavados de lágrimas e outros líquidos inomináveis?
Em vez de planejar e prescrever mais perfeições, talvez fosse melhor recuperar nossa humanidade (feito o rapaz recuperou as máquinas de escrever), moldando um mundo em que fosse possível compartilhar devagar medos, coragens, erros, acertos e perdões. E compreender que a pressa, a tal perfeição e o barulho repetitivo das máquinas estão nos afastando ao aumentar nossas injustiças e ao ressaltar nossas diferenças, tentando apagar nossas semelhanças.


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