PESADELO
Estou presa.
O barulho impede
a memória e o sonho;
minha canoa é cega.
Não há tempo:
os relógios quebraram-se
de apressados.
Algumas palavras
rasgaram a mordaça
e, por um instante,
tentam transfundir
a memória e o sonho
que falecem
ligados às máquinas
da gramática da suspeita.
Mesmo amarrada,
alcanço o leme,
mas não adianta:
a canoa perde-se,
a água entra,
a concha ferida
de minhas mãos
luta contra o sal.
Tudo arde, e eu grito.
Nada: só palavras presas
podem ser ditas,
e eu as desconheço.
O avesso
desse pesadelo
é a palavra fugida
deste poema.


0 Comments:
Postar um comentário
<< Home