quarta-feira, maio 20, 2026

PESADELO

 

Estou presa.

O barulho impede

a memória e o sonho;

minha canoa é cega.

 

Não há tempo:

os relógios quebraram-se

de apressados.

 

Algumas palavras

rasgaram a mordaça

e, por um instante,

tentam transfundir

a memória e o sonho

que falecem

ligados às máquinas

da gramática da suspeita.

 

Mesmo amarrada,

alcanço o leme,

mas não adianta:

a canoa perde-se,

a água entra,

a concha ferida

de minhas mãos

luta contra o sal.

 

Tudo arde, e eu grito.

Nada: só palavras presas

podem ser ditas,

e eu as desconheço.

O avesso

desse pesadelo

é a palavra fugida

deste poema.