domingo, outubro 01, 2006

"Grande sertão: veredas", de João Guimarães Rosa

Há vários enredos dentro do “Grande sertão: veredas”, de João Guimarães Rosa, livro fundamental da literatura não só brasileira, mas também ocidental, por contemplar todas as dimensões humanas.
O primeiro enredo é uma história de jagunços ou cangaceiros, como a palavra é mais conhecida aqui no Nordeste. Tem um sabor todo especial numa seqüência intensa de episódios que relatam uma história de traição, vingança e lutas entre dois grupos rivais que se enfrentam numa batalha decisiva: o grupo de Joca Ramiro, de cangaceiros motivados pelo Bem (mas que nem sempre agiam corretamente), e o de Hermógenes, motivados pelo Mal, total e cegamente. O narrador, Riobaldo, conta a sua versão dessa saga de pistoleiros, de como ele se tornou chefe e de como, sob sua chefia, o grupo venceu o inimigo, num monólogo ininterrupto que parece ser presenciado por um interlocutor, em silêncio.
O segundo é um enredo de amor: ampliando os sentidos do livro, o narrador acrescenta à dos cangaceiros uma linda história na qual ele se flagra sentindo “amor encoberto em amizade” por outro rapaz do grupo chamado Reinaldo ou Diadorim (o nome como só Riobaldo o chamava). Na verdade, no final do livro, tanto o leitor quanto o interlocutor ficam sabendo que Diadorim era uma mulher vestida de homem e que vivia disfarçada entre os jagunços para vingar a morte do seu pai, Joca Ramiro.
Esses dois planos entrelaçados já são muito difíceis de narrar, e Riobaldo tem pouco estudo. Aí começa a terceira aventura desse livro genial: numa oralidade entre regional e virtual, o narrador vai ampliando as potencialidades da língua portuguesa ao limite do possível e, vez por outra, faz sínteses filosóficas epifânicas que traduzem seus aprendizados existenciais – inventa palavras, usa aliterações, interrupções, recursos poéticos, numa festa lingüística inimaginável. Esse é o primeiro motivo de estar João Guimarães Rosa localizado no Terceiro Tempo do Modernismo Brasileiro, quando a linguagem tem uma característica inovadora e surpreendente, distante do traço clássico que ela possui no Segundo Tempo.
Enfim, nas entrelinhas, o livro explode de significados quando o sertão adquire uma significação ampla e parece ganhar um sentido de mundo (“O sertão está em toda parte”). A essa altura, Riobaldo, numa última e formidável ampliação, começa a contar, numa dimensão mítica, a história mesma do mundo e da magnífica trajetória do Homem que luta entre o Bem e o Mal. Começa a representar os homens quando, usando o livre arbítrio, pactua com o Mal e começa a querer “ser mais”, sem “tolerar conselho ou contradição”. O poder cega-o completamente e ele vai enveredando pelo caminho da ira, da raiva, do ódio... Diadorim estranha-o, fica triste e vai tomando uma dimensão simbólica extraordinária, quando se torna, através do sacrifício da própria vida, o salvador de Riobaldo (e, portanto, de todos nós?).
Essa última reflexão, entre mítica, religiosa ou transcendente, aponta uma das mais profundas análises já feitas sobre a condição humana, raramente tentada e mais raramente realizada: “Grande sertão: veredas” é uma “bíblia” em que está recontada uma história mítica exaustivamente narrada em nossos sonhos, tradições, lendas, desejos... é uma história linda de amor que desperta a lembrança longínqua de que não viemos para dominar uns aos outros, mas para viver uns pelos outros... é uma história completa sobre esta condição ordinária de ser gente que erra, acerta, perdoa, ama, escolhe, se arrepende e, no fim, narra para deixar para o outro o registro de uma vereda.

1 Comments:

At 9:10 PM, Blogger Ítalo M. Rocha Guedes said...

Interessante, esses dias estava lendo um ensaio de Otto Maria Carpeaux sobre a obra de Homero, em que essa também é comparada à Bíblia. Diz Carpeaux que o grego antigo lia a Ilíada como o cristão devoto lê a Bíblia, buscando, além de sentidos, a direção de como agir, como se portar diante da vida e da morte. A grande obra de arte deve ser isso, uma "Bíblia", uma interpretação de mundo, uma reencenação de mitos de acordo com a época, mas sempre universal.

 

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