domingo, dezembro 17, 2006

Meu amor

Nunca pensei escrever
sobre um navio afundado.

E sobre a noite pesada
do abismo debruçado...

Não devia escrever
este poema tão triste.

Nem devia falar
do projeto afogado.

Mas não vejo
peixe cintilante,
nem pérolas,
nem auroras...

Só concha fechada,
naufrágio,
bolhas que são gritos
impedidos pela água.

E nem adianta chorar:
o mar já guarda
lágrimas demais.

Sei que manhãs teimosas
vencem a treva noturna,
mesmo se não acredito.

Mas minha perna bonita
ficou presa na âncora.

E o perfume que inspiro
é o oceano salgado.

Nesse ermo profundo,
nesse silêncio gelado,
não há garrafa, papel,
caneta nem salvação?

Aí uma sereia escondida
nos recessos do meu soluço
se precipita e desata
o nó difícil de molhado.

E um peixe muito absurdo
(fora do esquadro e da esfera)
com sua avara lanterna,
como um líquido relâmpago,
revela bálsamos que sempre há
na franja da próxima onda
que o ser do mar sempre envia.

A mágica das manhãs
estende sob meu pé
alva alcatifa de areia
e uma faísca na água
é um objeto de vidro.

Suspendo e miro o aquário:
vejo o navio perdido
um escafandro fraturado
e uma ampulheta quebrada,
tudo sem solução...
Deixo tudo no mar.

Há uma riqueza sobrante
na palma de minha mão:
uma bússola prateada.

8 Comments:

At 9:59 PM, Anonymous Juliana Feitosa said...

eu sou fã!
só posso dizer isso!!!
aiai

 
At 7:58 PM, Anonymous Flora B. said...

Bravo!

"Sonho
Um poema que ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu próprio coração."
Mário Quintana.

Gostei mesmo, e muito!

 
At 2:08 PM, Anonymous Rosário said...

Flávia
depois de um navio afundado, conchas fechadas e silêncio gelado, conseguir enxergar uma bússola prateada na palma da mão ... é demais !!!
Só mesmo uma alma como você, prá conseguir uma coisa assim ! E um grande amor é feito disto mesmo: naufrágios, luta pela vida e encontro de bússolas que indiquem novos caminhos ...
Que este ano que se inicia possa ser iluminado por esta bússsola, prateando e iluminando seus caminhos para bem melhor !
Um beijo da amiga, sempre
Rosário

 
At 10:29 PM, Anonymous Miriam Carrilho said...

Menina,
quero mais é que a teimosia das manhãs desprendam a sua perna bonita dessa âncora carcereira, maldita. E a bússola seja estrela guia, maga, magia, esperança, caminho para todos os encantos que a vida tem para você.
O desejo de ser feliz a faz sereia e nos encanta com suas palavras, um canto, um desejo de alegria.
Gosto é muito de você.
Miriam C.

 
At 4:57 PM, Anonymous Anônimo said...

Olá dona Flávia Suassuna (com dois esses, como disse Lívia à moça atendente na Casa do Plissé):
li e reli o poema, depois os comentários, e passei também a comentar. Mas o que queria dizer já havia sido dito, inclusive do afeto, da admiração, do carinho bom e gratuito. Não cai bem dizer que subescrevo, que reitero as plavras de outrem. Pra quê gastar tinta com discurso ruim?! Resta-me dizer que a admiração peramnce intacta pela força, pelo desprendimento de mãe cuidadeira e pela energia que imanta as bússolas, certo de que saberá reaprender a recomeçar,como as canções e epidemias.....
beijão
J. Batista

 
At 5:35 PM, Anonymous luis manoel siqueira said...

Belo.

 
At 9:44 PM, Anonymous Andressa said...

oi flavia!! estou com saudades das suas aulas e de vc tb! perdi o numero da sua casa e encontrei seu blog, que por sinal é perfeito!, queria marcar um dia pra ir no seu curso te visitar :) beijao

 
At 7:59 PM, Anonymous Anônimo said...

Nessas horas de tristeza, nada melhor que ouvir a voz da experiência. Já dizia Bandeira:


"O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros — perdi-os...
Tive amores — esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece."

Acho que você também vai "ganhar essa prece"

Amanda Brandão
(aluna de Débora)

 

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