segunda-feira, outubro 15, 2007

Bagdad Café e eu

Eu, realmente, sou louca por narrativas. Aliás, para quem não notou ainda, eu vivo delas – sou professora de literatura e amo contar as histórias para meus alunos e para mim mesma mil vezes, nem faço questão... Vou, cada vez, notando detalhes, acrescentando saberes, lembrando do que havia esquecido, vendo de outra forma... Sempre digo a meus alunos que o DNA do século XIX foi a palavra; o do século XX, a imagem. E histórias (em livros ou em filmes) são a minha missão e o meu prazer. De acordo com Rosário, há os que contam e os que ouvem, e eu sou dos que contam. Mas gosto tanto de contar que gosto de ouvir... para depois contar... E há certas histórias que têm, de raspão, algo de nós mesmos... Ai! Como é bom quando uma narrativa nos ajuda a ver não só o que em nós é positivo e merece permanecer, como o que é negativo e carece ser mudado.
Há alguns dias, estava assim de bobeira em casa e chega a minha irmã Débora (a esta altura, a coitada da diretora deste blog) com um filme na mão:
− Eu estava vendo esse filme lá em casa, parei a exibição e vim ver com você, porque a personagem central é a sua cara.
Aí nos sentamos e vimos o filme juntas. Seu título é “Bagdad Café” e a direção é do alemão Percy Adlon. A história é bem linda: uma alemã de nome Jasmin, depois de discutir com o marido, desce do carro no meio do nada e vai parar num lugar esquisito, misto de lanchonete, hospedaria e posto de gasolina, tudo caindo aos pedaços de sujo e velho.
Há um desconforto inicial entre os moradores e a alemã: ela nunca tinha visto pessoas negras e a dona do “negócio” é negra; eles desconfiam de quem quer ficar naquele lugar e, além de tudo, Jasmin carrega uma bagagem estranha (é que, na hora da briga, ela trouxe não a sua mala, mas a do seu marido).
Os personagens são muito charmosos: Brenda, a dona do Bagdad Café, é geniosa e escandalosa, vivia às turras com o marido, que acaba deixando-a, em termos, porque fica por ali, de longe, observando-a com um binóculo e exclamando:
− Oh, Brenda...
Acho que, de forma incompleta, ele pensava em como tudo seria bom, se ela gritasse menos...
O atendente do bar era um índio bonito com quem Brenda também gritava o tempo todo, e sua fuga era deitar-se e dormir numa rede pendurada por ali.
Havia também uma tatuadora meio doida e os filhos de Brenda: o rapaz era pianista, mas a mãe não o deixava tocar, pois achava que ele fazia barulho; e a moça saía o tempo todo com as companhias mais variadas; o que ela não queria mesmo era ficar com a família.
Enfim, estava lá naquele fim de mundo um ex-cinegrafista de Hollywood e pintor em crise, sem saber direito que rumo tomar.
Quando Jasmin chega, logo vai limpando tudo: joga o lixo fora, tira o pó, arruma, lava... Começa a amar, primeiro, o neto de Brenda, que só fazia chorar (e o consola), depois o filho e a filha... E Brenda fica com ciúmes, mas Jasmin é irresistível e acaba por também conquistá-la e adoçá-la...
Aí a gente tem que ampliar os benefícios de Jasmin para entendê-los, porque ela começa a fazer mágicas, uma espécie de espetáculo circense, no bar: fregueses começam a aparecer do nada, o pianista começa a servir para tocar o fundo musical dos números felizes e encantadores, a menina é incorporada ao grupo como ajudante de mágica e até a própria Brenda, tão azeda, fica feliz e mais leve... Aquele lugar tão inóspito, velho e sujo ganha uma vida e um sentido tão fortes, que a tatuadora ensaia ir embora, pois não sabia gostar de felicidade constante... O pintor ganha uma modelo e um porquê, pois Jasmin, tirando, aos poucos, a roupa, vira não só o motivo de suas pinturas, mas também seu caminho, depois que é pedida em casamento. Enfim, Jasmin transforma o Bagdad Café num lugar melhor, onde cada um pode ser feliz como quiser.
O filme é, realmente, lindo, inclusive porque questiona os padrões fechados de beleza e de felicidade, tão comuns e insossos a esta altura, de tão exaustivamente repetidos... Sua estética é meio surrealista, há um bumerangue que aponta uma volta a nós mesmos como roteiro possível... Gostei demais disso...
Mas bom mesmo é alguém achar que sou parecida com Jasmin!...

11 Comments:

At 4:11 PM, Blogger critila said...

Pois é, pelo que li, mesmo sem ter visto o filme, você se parece com Jasmin, Flávia..
Esbanjando alegria e tentando arrumar e explicar as coisas, por onde passa!

 
At 8:56 PM, Anonymous Anônimo said...

Minha amiga, eu acho que Jasmim é que se parece com você.E ela deveria ficar profundamente orgulhosa por isso.
Beijo, Fernanda Bérgamo.

 
At 7:00 PM, Anonymous rosário said...

Querida Flávia
este era um dos filmes que estava planejando assitir com vocês, exatamente porque você tem a sutileza, a coragem, a reserva, o poder de transformação, de criação, de adoçar a vida, de ousar !
Enfim, você é irressistível e torna melhor o que e quem está à sua volta.
E concordo com Fernanda: Jasmim é que foi inspirada em você !
bjs e saudades
Rosário

 
At 5:42 PM, Anonymous Henrique said...

Desde que eu entrei no curso de V&F e comecei a escutar você, Flávia, falar e mudei muitos conceitos e métodos na minha vida e nos meus atos.
Acho que transformar a opinião dos seus alunos para melhor é algo que te faz parecida com Jasmin.

abração professora

 
At 3:02 PM, Anonymous Paulo Fernando Cabral said...

Realmente, você é uma Jasmin na vida dos teus alunos.Através das associações de palavras e de imagens que você faz em sala é mais fácil refletir sobre o nosso papel de humano.Sua irmã não errou quanto á comparação.Transformação,mudança e aprimoramento são peças chaves de seu dicionário da vida.Repito,torne mais amplo o acesso de pessoas aos teus pensamentos.Pessoalmente,sexta(19)tinha duas aulas, no mesmo horário,mas eu estava com muito cansado,então resolvi assistir literatura, porque sairia da sala mais tranquilos .Você é masssa, FLÁVIA.bjs e abraços.Paulo.

 
At 3:30 PM, Blogger lagarta said...

e quem não acharia!
se tem alguém capaz de arrumar tudo dentro das pessoas, esse alguém é vc! e quem te conhece, e não precisa conhecer muito já se deixa encantar pelas tuas loucuras e risos!

flavinha, eu sou tua aluna, e até robei uma frase que tu vive dizendo pra gente pra descrever quem sou eu.. pois é, é fácil se identificar com as coisas que tu diz na sala, parece até que vc sabe dos segredos de cada um e tá falando particulamente pra gente, é uma graça!

beijos

 
At 10:48 AM, Anonymous Adriana Magalhães said...

Hehehehe... Interessante, adorei! É que no momento só estou tendo acesso a internet em lan houses e não sei se acharei esse filme pra locar por perto de casa, mas farei o possível pra vê-lo algum dia. Eu gostei da parte da tatuadora, acho que eu pareço com ela!! rsrsrs... É que eu NÃO CONSIGO querer ficar com a família, acredite, eu tento de tudo, mas tudo parece melhor do que está no meio da minha!! Aliás, que qualquer família, é algo muito... Estranho? Não sei, é simplesmente algo muito.

Ahhh, fazia tempo que eu não aparecia aqui, né? Mas quem tarda não falha!! (hã?!?! hahaha)
Pois é, linda Jasmin, tenha ótimos dias e trate de responder meu e-mail, hein? Ora, ora!! Heheheh... brincadeirinha, entendo que és muito ocupada, não tem pressa, viu? :P

Beijos!!!

 
At 4:04 PM, Blogger Thelma said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 10:20 AM, Anonymous Rosário said...

Flávia, querida
recebi um e mail de minha amiga que me indicou Samarone e ela disse que sempre comprava os livros indicados por ele. Agora ela disse que vai assistir Bagdad Café por sua reflexão sobre ele e vai terminar comprando os livros que vc indica, já pensou? Você está mesmo influenciando a vida de muita gente!

 
At 7:38 PM, Anonymous Cida said...

Lembro do que Flávia fala na sala de aula “eu sou boa em ressuscitar " isso mesmo, você consegue ressuscitar e muda a forma de pensar das pessoas que passam por você.
As meninas têm razão, Jasmim parece com você!!!
Há! Vou assistir o filme para matar saudades suas
Bjs minha querida

 
At 1:28 PM, Blogger thiagoband said...

Ixi!
faz tempo que num apreço aki..e lendo num podia deixar de comentar sobre o "Bagdad Café"
Ah..bem q poderia ter um destes aki!
Adoraria conhecer a Fl´via-Jasmim! Ou já a conheço sim!
A Jasmim encanta tbm
e é adorável!
poiss...o filme muito lindo por sinal! Tu esqueceu de comentar da música da Jeveta Steele, chamada "Calling you" que é o tema do filme do começo ao fim! Escuto a música e só me vem brenda e Jasmim no filme!
tenho até o DVD!
Flavinha , saudades imensaas!

Bjoo do teu eterno aluno

 

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