sábado, setembro 27, 2008

Lendo Machado de Assis - 4

“Ao vencedor, as batatas.”

Uma espécie de continuação de “Memórias póstumas de Brás Cubas”, “Quincas Borba” é menos experimentalista e famoso, mas é mais profundo e sutil. E ainda mais triste. Da trilogia mais conhecida de Machado, é o menos palatável – na dificuldade que impõe ao leitor para decifrá-lo e na mensagem.
Se se pode pensar numa imagem que um livro evoca, uma sala de espelhos é o que aparece à mente quando tentamos sintetizá-lo. Seu enredo mais claro é a história de Rubião, herdeiro de Quincas Borba, o mesmo filósofo louco que era amigo de Brás Cubas nas “Memórias póstumas de Brás Cubas”. Mas há um contexto mais amplo que o texto “Quincas Borba” refere – o da nossa sociedade engessada por relações de trocas de todos os matizes, principalmente os materialistas.
De início, Rubião aparece cuidando do filósofo doente, já meio enredado na sua loucura e na sua teoria, que o confundem e paralisam. Quando o filósofo morre, deixa para Rubião não só toda a sua fortuna – que Rubião não consegue quantificar racionalmente −, mas ainda seu cachorro, que também se chama Quincas Borba (espécie de âncora do passado e da loucura) e que persegue Rubião no seu trajeto de decadência até a morte, disfarçado de ascensão social e econômica. Uma das chaves para entender o “Quincas Borba” é essa ascensão rápida demais a que foi empurrado o personagem. Porque não foi compreendendo, durante a própria construção dos percursos, aos poucos, o novo espaço que adentrava, Rubião tornou-se presa fácil das armadilhas do mercado e das relações de interesse que se organizam no tecido social dominante a que ele foi alçado e no qual não foi criado.
Rico, Rubião muda-se de Diamantina para o Rio de Janeiro e, ainda no trem, encontra Sofia e Palha, que vão introduzi-lo nas engrenagens mercantilistas da sociedade, as quais, por sua vez, o esmagarão devagar à nossa vista.
O leitor, quando se olha no espelho, vê Rubião – um homem bom e cego, à beira do abismo – e parece adivinhar o perigo que ele corre ao lado do casal (meio serpente, meio sereia), que duplica a sociedade com seus apelos insistentes e suas exigências inescapáveis de status e aparências. A inocência de Rubião – que é sua verdadeira riqueza e o vetor que o precipita no abismo, ao mesmo tempo – atrai uma corja inumerável de parasitas que refletem a sociedade, vista no seu lado mais negativo, que, por sua vez, num espelho de lente, se reflete, aumentada no casal Sofia e Palha. Esse jogo de imagens refletidas umas nas outras é como um labirinto de enganos que prendem, enlouquecem e matam Rubião com seus brilhos falsos e suas figuras invertidas.
Mascarados pelo status e pela riqueza, Sofia e Palha vão subindo, na escada social, à proporção que quebram ética, valores, vínculos... Sabem de cor todos os fios do tecido com que costuram sua ascensão, usam Rubião e o descartam com facilidade, quando já não havia o que tirar dele. Blindados pelo conhecimento das regras que garantem a invulnerabilidade no jogo, consomem, mas não são consumidos pelo sistema e terminam encastelados no topo da pirâmide de onde observam a demência do personagem central, com escárnio. Nesse jogo mortal, dentro do labirinto, só Rubião não conhece as regras...
O propalado adultério de Sofia, que se adivinha sem se realizar, nada mais é do que uma estratégia de ataque: ela é cúmplice do roubo de Palha, favorece o desequilíbrio da vítima, fere-a, apressa sua confusão mental e golpeia-a mortalmente, soprando-a, com a cara limpa e o discurso correto dos inocentes... O marido a usa, ela o usa e os dois usam o desejo recalcado de Rubião para ganharem o jogo dentro da sala de espelhos que brilham e invertem valores.
As pressões desse jogo de martírios são poderosas: elas não só potencializam os germes de loucura internos de Rubião, desde a herança ambivalente de Quincas Borba, mas também maltratam o leitor, fazendo-o antever a pilhagem, testemunhar o crime, sem poder ajudar a vítima.
No final do jogo, na sala de espelhos, não há vencedores: Sofia, Palha e companhia sobem para baixo, Rubião morre e o leitor se entende partícipe.

2 Comments:

At 6:01 AM, Blogger Samarone Lima said...

Flávia, estou numa fria. Como ir para um café com você, se li apenas um reles conto do Machado?
Depois das crônicas machadianas, estou me sentindo 39% mais burro que o normal.
Sama, seu criado.

 
At 10:37 PM, Blogger Rita Fernandes said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 

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