domingo, março 09, 2008

Nossas coisas

Rubem Braga tem uma crônica linda chamada "Recado ao senhor 903", na qual ele escreve uma carta ao seu vizinho, que tinha reclamado do barulho de sua máquina de escrever. Ele dá razão ao queixoso e pede desculpas, à medida que vai desdobrando uma fileira de números: ele não sabe o nome do vizinho que mora no apartamento 903, pega o ônibus 109, que o leva ao número 527, que é o seu local de trabalho, mais especificamente na sala 305... E constata que nossa vida está toda numerada e só é "tolerável quando um número não incomoda outro número, mas o respeita, ficando dentro dos limites de seus algarismos". Os parágrafos de conclusão começam assim: "... Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo..."
Pois bem, essa frase, esta semana, não me saiu da cabeça...
Fui fazer compras no supermercado e, no caixa, havia um revisteiro abarrotado de revistas de toda sorte - culinária, fofocas, moldes para roupas, informações... E havia uma que me chamou a atenção: era uma revista para homens e o título, em inglês, como costumam ser as coisas que não são importantes em si, mas precisam de uma carga externa de valor, era algo sobre a saúde masculina, alguma coisa assim...
Fiquei hipnotizada pelas manchetes. A primeira era assim: "Mais prazer! Seja uma máquina de sexo". A segunda dizia: "Perca peso a jato! Dois quilos por semana". A terceira: "Drible a velhice agora!" A quarta manchete mudava de assunto: "Sete regras para se vestir bem a vida toda". As duas últimas eram: "Manual completo para ficar sarado" e "Acabe com a frescura dela". Ou seja: todos os problemas masculinos podem ser resolvidos facilmente, desde que se compre essa maravilhosa revista em que estão as soluções.
Oscar Wilde gostava de dizer que sempre há soluções fáceis (e erradas) para problemas difíceis, e passei esses últimos dias (principalmente o dia 8, o da mulher) pensando sobre o hilário absurdo dessas manchetes.
É que a sociedade do espetáculo a que nos resumimos nos transformou em números; Rubem Braga, como sempre, tem razão: nosso corpo foi transformado numa tabela de medidas e submetido a uma olimpíada de desempenhos; como se fosse uma máquina, suas finalidades parecem funcionais, busca-se a eficiência infalível, os resultados mensuráveis; está mostrado, revelado, exposto, esquadrinhado nos seus pontos mais recônditos; nosso desejo está sendo dirigido e, a toda hora, nos é dito o que desejar, como se fôssemos incapazes de saber sós o que querer; nosso erotismo, um trunfo formidável que nossos sujeitos ergueram ao longo de nossa trajetória, está simplificado, quantificado... Tudo isso está fazendo uma ansiedade competitiva, avaliativa, comparativa e um erotismo medicado, doente, assustador, na minha opinião...
Há uma espécie de perda nesses conceitos de "corpo" e "erotismo": nem nosso corpo é só capa; nem nosso sexo é quantificável matematicamente - isso tudo só tem resultado em solidão a dois ou em apagamento de sujeitos. Encerrados nessa lógica, estamos ficando uma sociedade sem partilha, sem escuta, sem escolhas, sem afeto, sem encontro... Isso tudo serve pouco ao bem-estar nosso e possível de cada dia.
Nossa felicidade não pode ser medida pelo número de nossas relações sexuais performáticas, um pênis ereto não garante a solução de nossas dificuldades de relacionamento, achar o ponto G não resolve as carências femininas...
Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo... Volta-me a frase de Rubem Braga... Um mundo onde o mérito da beleza interna confirme e vença modelos e tabelas; onde o erotismo seja também conectado à vida interior; onde conseguiremos suplantar a vivência simplesmente animal para sermos sujeitos que nos tocamos subterraneamente à medida que nossa sexualidade seja uma história a dois, construída no confronto, na escuta, no perdão, no recomeço, no desejo como jogo simbólico de sensibilidades e quereres.
No dia da mulher, pensei muito nisso tudo, inclusive em como somos tratadas como "seres frescos" ou coisas, porque temos demandas, solidões, tempos necessários que assustam quando colocados na pauta da relação...
Que, nesta vida e neste mundo, nossa sutil e complexa ontologia seja considerada num todo indivisível e possamos ser felizes na pluralidade de nossos desejos, sonhos, sujeitos, cansaços, sonos, dificuldades, incompetências...
Que, nesta vida e neste mundo, compreendamos que, como diz Adélia Prado, "erótica é a alma" e seus desvãos, esconsos, que nem sempre queremos revelar...
Que saibamos, como Tolstói, que podemos nos comportar sem amor com coisas, mas não com seres humanos, "assim como não podemos lidar sem precaução com as abelhas"...
Que, enfim, aprendamos que sexualidade é um mundo de partilha de emoções e prazeres; que desejo é amor e apetite, além de uma potencialidade enorme, ao mesmo tempo feminina e masculina; é partilha construída na procura e na tolerância do outro; é percurso de vida toda, que plenifica, constrói, alimenta; é vitalidade e afeto; é cada um de nós reinaugurando e festejando a vida, ao mesmo tempo que temos sede e fome de nós e do outro; é suplantar o bicho e a morte que carregamos; é lutar pela vida, pelo caminho; é brincar; é resolver dificuldades internas; construir apreço próprio; é ser...
Que, neste dia da mulher, sejam consideradas nossas idiossincrasias e sejam saciados nossos desejos, porque somos o outro, que merece escuta, perdão e amor.

18 Comments:

At 9:44 PM, Blogger Yuri Assis said...

flávia, lembra daquele velho conflito que a própria clarice lispector tinha com as palavras? aquele que reclamava de seu precário poder de expressão, levando-nos mais a usar imagens do que palavras propriamente ditas... é bem por aí que venho expressar o impacto de sua mensagem, que comunica a variados níveis do meu ser. mas vou resumir, vou usar palavras e deixar as imagens pra outros dias.
acho que o patriarcalismo ainda está muito em voga, a necessidade de delimitar o que é feminino e o que é masculino ainda é muito forte. e sou contra isso, acho importante ressaltar o que é humano e comum a todos nós, independente de sermos homens ou mulheres. e cuidar disso tudo. acho que vou lançar um movimento chamado "monóico" (risos), só pras pessoas prestarem atenção nesse aspecto da subjetividade humana. concordo em gênero, número e grau com a sua mensagem. e pra costurar o que eu disse com o que você disse, acho que combater o gênero muito delimitado, demais demarcado, demais rotulado é permitir a qualquer indivíduo uma viagem melhor dentro de si. tirando o rótulo de geléia sabor morango ou uva, talvez poderemos nos expressar melhor, cuidar do que há dentro de nossas almas com uma atenção mais dedicada, sem negar, sem reprimir, já que teremos características humanas e não masculinas e femininas.

bom, espero ter me expressado bem. no mais, meu lado aluno diz assim: PROOOOF, QUE SAUDADES DE VOCÊ. qualquer dia desses, passo aí, pra te visitar.

beijos, flávia

 
At 12:33 AM, Anonymous Jota said...

Você não apenas sonha, querida, como faz do teu sonho realidade ao disseminar seu ponto de vista.
Você constrói o mundo que você sonha e esse mérito você não pode negar.
Se não fui claro, cá estou a sonhar contigo.

Beijo
E não tardo a aparecer.
= D

 
At 12:35 AM, Anonymous Jota said...

Li o teu livro, Jogo das trevas.
Ele dói.

 
At 5:07 AM, Anonymous Anônimo said...

Clap, clap, clap !
(Luis Manoel Siqueira)

 
At 9:18 PM, Blogger Yslla Duarte said...

Que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo... Adorei isso.

Por que tentam nos transformar em meras máquinas?
Por que não temos o direito de questionar um sistema que só nos anula?
Por que somos tachados de loucos quando resistimos ao que a sociedade nos impõe?

Eu quero esse direito de sonhar... E mais: quero ter forças para lutar até a morte contra os grilhões da sociedade e contra os meus próprios grilhões.

Flávia, é verdade, a mulher é vista superficialmente pela sociedade. Mas o grande problema não está aí. Acredito que o pior é quando a própria mulher acredita que é superficial.

Não é brincadeira o que vejo por aí. Você trabalha com jovens e sabe: nem a própria mulher se dá ao respeito. Um exemplo clássico é esse tal de "ficar". É horrível ver os homens se gabando porque pegaram "x" mulheres, mas é pior ainda ver as mulheres dizendo o que deixaram os homens fazerem.

Se queremos ser amadas, respeitadas, acolhidas e por aí vai, precisamos mostrar o nosso valor, e não nos entregarmos aos braços desse sistema aniquilador. Mas parece que muitas mulheres estão dispostas a manter esse sistema de pé. Lamentável...

Um grande abraço, minha amada!
Fique na santa paz de Cristo!

 
At 9:02 PM, Anonymous Anônimo said...

FLÁVIA NO LUGAR DE LYA LUFT PLEASEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!!!!!!!!!!
FSUASSUNA FOREVEEEEEEEER

 
At 3:28 PM, Anonymous Anônimo said...

Flavia, realmente vivemos em uma sociedade onde há moldes para tudo. Essas ditaduras faz do homem livre ser preso. Preso a idéias, a esteriótipos, a falsas moralidades... e para quebrá-la é muito dificil, tanto que em pleno seculo XXI a mulher, mesmo com a indepencia garantida, sofre certos preconceitos.
Esse seu assunto postado nesse blog, me fez lembrar a poesia escrita por Ceicília Meirelles, que tem como titulo "Mulher ao espelho", onde ela fala sobre os diversos esteriótipos femininos e o quão esses eles são moldados contra a sua propria vontade.


"Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus,
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho."


Rafael Andrade

 
At 11:49 PM, Anonymous Anônimo said...

bom comentario , voCê tem: uma boa capacidade descritiva, analitica e de compreensão como um todo . A matéria e a revista da qual foi retirada essa reportagem que utilizou-se para fazer um comentário no seu blog , ela não tem um carater bem cientifico , além de usar dados com base em numero sem recorer a grande capacidade de analise teorica e experimental , trata os fatos como um ser que será o beneficiado e não pensa nos dois .O conceito de felicidade não estar no ato dos dois estarem felizes , pois li a algum tempo que quando se faz uma relação o homem tanto quanto a mulher são meios que buscam o prazer para cada um e a felicidade conjugal é o produto disso se for bem administrado . Infelizmente vivemos em uma sociedade que se baseia mas em numeros e não em dados empiricos que posteriormente podem virar uma tese .

 
At 5:11 PM, Anonymous Anônimo said...

Como se não bastasse: Um ser fragil,que tem trabalhar fora (mostrar que sou capaz), cuidar da educação dos filhos, cuidar de casa e tenho que ser ter moldes femininos definidos pela socidade.
ô minha querida, sonhar, idelizar nossas sentimentos e relizar.
Isso é que legal em você, tento com trilhar esse caminho......
Parabéns
Bjssss

 
At 1:15 PM, Blogger rita said...

Tia Pimpa, lembrei de você quando li este poema:

Mulheres

Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.

Elas brigam por aquilo que acreditam
Elas levantaram-se para injustiça.
Elas não levam "não" como resposta quando
acreditam que existe melhor solução.

Elas andam sem novos sapatos para
suas crianças poder tê-los.
Elas vão ao médico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.

Elas choram quando suas crianças adoecem
e se alegram quando suas crianças ganham prêmios
Elas ficam contentes quando ouvem sobre um aniversário
ou um novo casamento...

Pablo Neruda

Beijão, saudade!

 
At 1:13 AM, Blogger rita said...

Tia, recomendo o livro "Minhas Queridas" de Clarice Lispector e "A menina que roubava livros". Acho que você irá gostar de ambos. Beijo grande!

 
At 3:13 PM, Blogger Johnny L. said...

o espelho não mostra exatamente como vc é, ele mostra o inverso do q vc é. se vc olha muitas vezes pro inverso do q vc é, vc acaba inconsientemente dividido entre o q vc é, e o inverso do q vc é.
por isso q as mulheres são assim, meio confusas.

 
At 6:17 AM, Anonymous Anônimo said...

estava vendo o blog de uma amiga...e de repente sem querer..vi que ela tinha o seu blog adicionado no dela...poxa me lembrei de vc...assim...eu n esqueci n rsrsrs apenas pela distância e tempo.....raramente vc percorria meus pensamentos..ou melhor nem percorria(n que vc seja uma pessoa sem importância pelo contrário)mas qd as pessoas vivem momentos em que n existe mais ligação com determinada pessoa a mesma acaba sendo esquecida no sentido temporal da coisa e não sentimental.Bom só quero dizer que seu blog está cada vez mais lindo que eu gosto de vc...apesar de achar q vc ...ahh deixa isso p lá ...hunf acho q vc já gostou de mim pelo menos uma vez (isso que importa:)nunca deixei de gostar de tu..achei muito engraçado isso que você falou nesse texto porque essa semana que passou estva comentando com amigas sobre essa revista que por acaso eu tb vi numa banca e ficamos criticando o formato,as frases...a impressão que ela queria causar de: manual de sobrevivência e felicidade..muito bom Flávia espero que um dia agente possa se encontrar e vc fale um oi comigo até mesmo num supermercado ne srsrsrs?bjusss
felicidades sempre.

 
At 8:45 PM, Anonymous Anônimo said...

flaaaaaaavia! veja esse video, 'vale a pena'!

http://www.youtube.com/watch?v=wqKl_EOUbnE

 
At 11:52 PM, Anonymous Anônimo said...

Poxa! Vi seu link no blog de um assim escritor e poeta como você...Que bom desembarcar aqui! Depois tantas coisas já ditas aí nas outras postagem me resta apenas: que beleza, Flávia!
Andréa Alcantara

 
At 8:07 AM, Anonymous Adriana Magalhães said...

Que linda homenagem ao dia da mulher, Flavinha!

Seu post me lembrou a 2 coisas, a primeira foi uma frase (encontrei-na no orkut da minha prima e ela não pôs o nome do autor, então, infelizmente, desconheço) que diz: "Se as coisas são feitas para serem usadas e as pessoas para serem amadas, por que amamos as coisas e usamos as pessoas?"... achei genial, sem mais comentários.

A segunda coisa é um post de uma amiga que, por sinal, li agora pouco: "Bom mesmo é mulher de verdade. E daí se ela tem celulite? O senso de humor compensa. Pode ter uns quilos a mais, mas é uma ótima companheira de bebedeira. Pode até ser meio mal humorada quando você larga a cueca no meio da sala, mas adora sexo. Porque celulite, gordurinhas e desorganização têm solução (e, às vezes, nem chegam a ser um problema). Mas ainda não criaram um remédio pra futilidade.
Nem pra dela, nem pra sua."

Acho que isso diz tudo né?

Beijus!! :*****

 
At 9:53 PM, Anonymous Anônimo said...

Querida Flávia, somente agora pude me ater sobre seu texto e fruí-lo com uma leitura decente. É fato que recai sobre a mulher, desde muitos anos, mas contemporaneamente de maneira mais ‘exata’, uma ditadura de beleza e desejos predefinidos. Faço mea culpa. Admito que sou um instrumento de reprodução desse imaginário tirânico. Avaliando friamente, vejo que procuro, no meu horizontes afetivo de possíveis , as mulheres que preenchem, pelo menos parcialmente, tais ditames da estética. Como o poetinha diria, as feias que me desculpem, mas beleza é fundamental. A questão central, todavia, é: que beleza é essa hoje? A radicalização de alguns cânones da representação do belo feminino mostram claramente o que Renato Janine Ribeiro chamou de ‘a sociedade da desmedida’. O belo sempre foi procurado insistentemente em todos os tempo. Mas qd essa busca leva a morte narcísea de várias pessoas, hoje a anorexia, temos uma doença social. E seu texto retrata muito bem isso. O belo é importante, mas ele é apenas uma medida do bem-estar e da felicidade estética. Basta pensarmos em outros termos. Dois livros escritos com a mesma fonte, com o mesmo numero de páginas e com a mesma capa promovem mesmo furor na consciência do leitor? Assim, embora saiba que porto meu instinto masculino e minha noção arraigada de beleza culturalmente determinada pela sociedade do espetáculo, insisto, por discernimento, na busca do conteúdo, na busca do que é único, do que nunca se repete. Do que faz alguém ser especial para nós. Essa é a essência do “encontro”, para usar o conceito do sociólogo italiano Francesco Alberoni. O ‘encontro’ só se concretiza no momento da comunicação integral, não mediada, mas imediata. Além de virtual, real. Nem sempre há o “encontro”, mesmo havendo beleza em abundância. Na grande parte dos casos, num mundo marcado pela desconfiança e medo, a beleza apenas sela uma expectativa de rápida despedida que cancela tempo necessário para o ‘encontro’. O encontro arrebata, e aproxima definitivamente. Porque a ligação é anímica, sedutora, comunicativa como só ela é capaz de ser. Como vc escreveu, citando Adélia Prado: ‘erótica é a alma’. E é mesmo. Essa é a essência. Embora não seja percebido pelos olhos, de fato.
Romero Maia.

 
At 10:59 AM, Anonymous Anônimo said...

Oi, Flávia!

Parabéns pelo texto. Compartilho a mesma angústia .
Um beijão
Mônica Soares

 

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