domingo, junho 08, 2008

Outra despedida

Uma vez um aluno meu se aproximou de mim e perguntou:
− O que você é de Marcos Suassuna?
− Filha, respondi.
− Veja o que eu trouxe para você ver!
E me entregou uma coleção de receitas médicas escritas com uma letra firme que eu bem conhecia, enquanto acrescentava:
− Teu pai foi pediatra de minha mãe; quando ela era pequena, teve uma doença grave e teu pai a salvou... Por isso estou aqui... Acho tua letra tão parecida com a dele... Foi minha avó que guardou essas receitas...
Eram muitas; na verdade, havia ali todo o percurso de uma infância e suas inescapáveis injunções: leitinhos, sopinhas, analgésicos, dietas, antibióticos...
Sem as receitas, ao longo desses anos todos em sala de aula, isso aconteceu inúmeras vezes e sempre me emocionou muito – ver assim tão concretamente a justificativa da seqüência milagrosa das gerações e revisitar em mim as marcas fortes de meu pai.
No último dia 15 de maio, ele partiu. Tinha 86 anos, uma vida completa e a maior de todas as fortunas – o reconhecimento. Seus pares e seus incontáveis clientes referem sempre sua inteligência, sua perspicácia nos diagnósticos, seu desprendimento e sua dedicação. De fato, ao longo de minha infância e de minha adolescência, nunca o vi faltar ao trabalho, nem deixar de atender emergências a qualquer hora do dia, da noite, da semana.
Os gregos antigos costumavam dizer que, para saber se um homem foi feliz, é preciso esperar o fim. Então: meu pai foi um homem afortunado. Teve uma mãe formidável, oito irmãos próximos quando foi necessário, uma esposa bela e mansa, cuja logística compensou sua falta de jeito com a vida prática, e cinco filhos.
Foi mais recluso e calado do que sociável, teve, como todos, fragorosas derrotas, mas, principalmente, foi triste, de uma tristeza mais desesperada que melancólica.
Sua inteligência serviu a outros, não a ele. Seus dilemas, suas ambivalências, suas dores sem remédio e seu silêncio duro e confuso criaram em torno dele um tufão de renúncias e sofrimentos perigoso.
Mas foi um pai acertado. Deu a sustentação, foi até o fim porto seguro e registrou, com certeza e força, cada um dos filhos, fazendo-os membros pertencentes a uma família.
Reconheço-o no amor que sou capaz de sentir pelos meus próprios filhos; na força que tenho para enfrentar as dificuldades de minha própria vida; na habilidade que sempre arranjo para me sustentar e aos meus filhos; na minha resistência à futilidade e à superficialidade; na minha escolha clara do que sou, mesmo quando isso me traz prejuízo e dor.
A bem da verdade, o resultado final me traz mais ganho que perda: seu governo deixou-me uma base de valores preciosos que, junto com a mansidão de minha mãe, fazem de mim o que sou.
Essa ordem triste e difícil me construiu e norteou minhas escolhas que, aliás, foram livres e puderam ser privadas. Meus segredos, ausências, silêncios nunca me foram cobrados. Até o final, pude dar a meu pai o que pude dar. Nem mais, nem menos. Como ele me ensinou – o que ele não me deu, ele não pôde me dar. Pronto. Assim, duro e mudo.
João Guimarães Rosa tem um conto bonito que sempre me ajudou a compreender o meu pai: a história de um homem que, a certa altura da vida, resolveu viver não nas margens tradicionais de um rio, mas dentro de uma canoa, “perto e longe de sua família dele”, numa terceira margem. A história é contada por seu filho, que não dá conta de entender aquilo e sofre anos a fio, sem de todo poder seguir sua própria vida, conectado que permanece àquela realidade incompreensível.
Eu sou esse narrador de uma história tão parecida com a minha que me assusta: meu pai esteve sempre numa margem difícil de compreender – cercado de peixes, galos, peças de xadrez e outros objetos sem lógica entre si, viveu num ponto da geografia social com meridiano e sem paralelo. O meridiano lhe deu certa habilidade à sustentação material, herança antiga que tornou a falta de paralelo sempre menos aflitiva, apesar de difícil.
A topadas e quedas sem mão, fui aprendendo e aceitando essa geografia única e especial, meu pai, na sua canoa de tristeza, vivendo numa distância intransponível de mim e de si, minha vida correndo a seu largo...
Lá... acolá... ele pôde estar ao meu lado e, devagar, fui aprendendo a crescer e a tirar de mim mesma o necessário, por meio de suas lições caladas.
Ao contrário dos personagens, no fim, ele não me chamou para mais me confundir. Foi passando devagar e totalmente para a sua terceira margem e pareceu não ter sentido meu último beijo nem ter ouvido meu pedido de força para o último passo.
Seu repouso também foi meu: sua canoa agora é o rio.
Um rio é uma vida limpa que nasce, a gente nem sabe onde... ele passa, às vezes se turva... tanta gente vive daquela água... a gente nem sabe avaliar... depois ele deságua no mar.
Tem gente que não sabe ver o rio dentro do mar... Mas há uma mágica nas correntes marinhas que alimenta o ciclo do tempo e que faz meu coração funcionar...
A teimosia da onda que molha os pés dos meus filhos é parte da água incansável que adia, sem explicar. E que carrega consigo parte do rio perdido.

20 Comments:

At 3:42 PM, Blogger Zezinho Pindaiba said...

Nossa, muito lindo seu texto. Consegui sentir daqui o amor que você sente pelo seu pai,você me passou que não só sente amor de filha pelo seu pai, mas também um amor de amiga.

Adorei!!!
Beijos

 
At 10:40 PM, Anonymous Anônimo said...

Diante de uma emoção grande, fico sem palavras ... e vc me emocionou demais ...
rosário

 
At 11:45 PM, Anonymous Izabella Lucena said...

Flávia,
como é que pode? Como é que você pôde misturar tanta dor com tanta beleza?
Só alguém como você (gênio) poderia juntar amor e abandono,distância e presença determinantes e, com tanta verdade, nos contar o milagre de uma vida tão plena, tão densa. Não conheço sua história, sua família, como Manoel, mas foi isso tudo que senti. Que saiu numa mistura de lágrimas de dor e perda e de beleza e grandeza.
Que amor maduro e inteiro!
Deus lhe abençoe muitíssimo!
Um beijo com muito amor,
Bella

 
At 10:06 AM, Blogger Thelma said...

Tu contas a vida como ela é (a tua vida)...e eu choro lendo tuas linhas e emoções. Posso sentir teus sentimentos. Um abraço forte, bem forte, minha quase-gêmea.

 
At 1:12 PM, Blogger Clarissa às claras said...

Flávia,como sempre, você me emociona.
Adoro seus textos. Sempre acabo aprendendo coisas novas, absorvendo um pouco de você.
É um privilégio poder ter convivido contigo e ainda conviver, mesmo que não fisicamente, por meio das palavras, dos sentimentos, dos aprendizados.
A emoção aflora.
Sinto pela sua perda.Sinto um pouco, pelo menos, do que você sente.
Espero que esteja bem.
Beijão, professora.
Clarissa (prima de Samarone)

 
At 10:03 AM, Anonymous Anônimo said...

Cara Flávia Suassuna,

Meu nome é Thais Lima e eu trabalho no Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária - CENPEC (www.cenpec.org.br).

Estamos desenvolvendo um trabalho de pesquisa e construção de um Banco de Dados Nacional de Avaliadores para um programa bastante conhecido no campo da cultura e literatura.

Durante o processo de pesquisa, realizado em publicações impressas e eletrônicas, localizamos informações sobre sua atuação e acreditamos que sua experiência poderá contribuir com o processo de seleção de projetos inscritos nesse programa.

Gostaríamos de fornecer-lhe maiores informações e convidá-la para integrar esse Banco de Dados. Assim, peço a gentileza de que você entre em contato comigo: thaislima@cenpec.org.br

Atenciosamente,

Thais Lima
CENPEC - Educação e Cultura

 
At 11:41 AM, Anonymous Anônimo said...

Sabe, Flavinha, poucas pessoas quando crescem conseguem ser grandes. Você, sempre foi pra mim um referencial. Alguém "grande" , que cresceu e escolhe cotidianamente continuar crescendo... És linda.
Próprio essa semana lembrei de meu pai, quando juntos caminhávamos de mãos dadas à beira de um canal, na brincadeira de ensinar-me o equilibrio em caminhos esteitos...
Acho que seu pai também fez isso com você. Isso é o "mal" dos bons pais.
Um beijo enorme cheio de saudades. Sua ex aluna e colega de trabalho,
Paula Soares

 
At 7:52 PM, Anonymous Anônimo said...

Chorei.

 
At 8:17 PM, Anonymous Anônimo said...

Chorei, obrigada.

 
At 12:37 AM, Anonymous Anônimo said...

Intenso e muito comovente. Diz muita coisa. É curioso como eu, você e o Manoel temos pais muito, muito parecidos. Não sei se é uma geração que está desaparecendo, levando consigo seus valores e princípios monolíticos, incompreensíveis para os dias em em vivemos. Sim, eles são muito parecidos. E seus filhos também.

Viajo ao alto sertão da Paraiba, e de lá, no meio das pedras, responderei os e-mails com calma.

Beijo.

Luis Manoel Siqueira

 
At 5:55 PM, Anonymous Anônimo said...

FLÁVIA, TU É UMA PESSOA DIVINA!
ENTROU NA MINHA VIDA ASSIM, TÃO POR ACASO.. DENTRO DE UM CURSINHO DE PORTUGÊS UMA MULHER TÃO INUSITADA QUE ENSINA A SEUS ALUNOS, ACIMA DE TUDO, O QUE É A VIDA. BEIJOS
TU TENS MINHA ADMIRAÇÃO
O TEXTO É LINDO E SINCERO.
BEIJOOOOOOS

 
At 7:45 PM, Anonymous Dimas Lins said...

Flávia,

Eu, que já escrevi tanto sobre perdas e despedidas, diante da tua, me calo.

Ao invés de dizer as minhas próprias palavras, prefiro fazer uma tradução livre do poema Funeral Blues do poeta inglês, Wystan Hugh Auden:

Parem todos os relógios, cortem o telefone,
Previnam o latido do cachorro com um osso suculento,
Silenciem os pianos e com os tambores abafados
Tragam o caixão, deixem vir o cortejo.

Deixem os aviões gemendo em círculos acima de nós
Rabiscando no céu a mensagem: ‘ele está morto’.
Ponham laços de crepe em volta dos pescoços brancos das pombas de rua,
Deixem que os guardas de trânsito vistam luvas pretas de algodão.

Ele era meu norte, meu sul, meu leste e oeste,
Minha semana de trabalho e meu domingo de descanso,
Meu meio-dia, minha meia-noite, minha conversa, minha canção;
Pensei que o amor duraria para sempre: eu estava errado.

As estrelas não são necessárias agora; apaguem todas elas,
Empacotem a lua e desmontem o sol,
Esvaziem o oceano e varram as florestas;
Pois nada agora poderá vir a ser bom.


Abraço fraterno,

Dimas

 
At 6:17 PM, Blogger InformAÇÃO said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 10:21 PM, Anonymous Anônimo said...

Flávia, acho não tem que não se emocione, è muito profundo,
Mil bjs

 
At 11:48 PM, Anonymous Inez Rodrigues said...

Flavia
Sou Inez a mãe de Flavia, acabei de falar com ela, por isso estou aqui,
as 3.37 da manhã, nesse Além Mar
estou por demais emocionada com o texto, e feliz em te reencontrar.
Beijos

 
At 11:48 AM, Blogger Magna Santos said...

Flávia, não é a primeira vez que entro aqui, mas faz tempo. Fui descendo a barra de rolagem e me deparei com esta despedida. Normalmente, quando me deparo com algo tão lindo, guardo silêncio, como a reverenciar a beleza e o sentimento. Mas, a internet tem dessas coisas que faz também nos sentirmos em falta se o silêncio é mantido. Por isso estou passando aqui, meio que nas pontas dos pés. Sei que já faz tempo que escreveste este texto, porém o sentimento dele deve ser atual. Eu sei, porque também o sinto. Os pais são marcas nas nossas vidas, que o tempo aprofunda ao invés de apagá-las.
Fique com Deus!
Beijo.
Magna

 
At 11:14 AM, Anonymous Ítalo M. R. Guedes said...

Tocante, um dos mais bonitos textos "eulogiosos" que já li, dentro ou fora da rede. Elogiar a beleza do texto pode parecer uma desconsideração para com sua dor, de então ou de agora, mas não. A beleza está inclusive na eficiência com que você transferiu a dor que então sentia. Torno-me desde já seu admirador.
Cordialmente,
Ítalo Moraes Rocha Guedes.

 
At 12:18 PM, Anonymous Edson Nunes said...

Seu texto me lembrou esta canção:

"Na ribeira desse rio
ou na ribeira daquele
passam meus dias a fio
nada me impede, me impele
me dá calor ou dá frio

vou vendo o que o rio faz
quando o rio não faz nada
vejo os rastros que ele traz
numa sequência arrastada
do que ficou para trás

vou vendo e vou meditando
não bem no rio que passa
mas só no que estou pensando
porque o bem dele é que faça
eu não ver que vai passando

vou na ribeira do rio
que está aqui ou ali
e do seu curso me fio
porque se o vi ou não vi
ele passa e eu confio"

Obrigado pela delicadeza, generosidade e coragem de seus textos. Como diz outra canção:
"Que será de nós, se estivermos cansados da verdade e do amor?"

Um abraço saudoso,
Seu ex-aluno (20 anos atrás...)

 
At 11:57 AM, Anonymous Anônimo said...

Quanto amor, doçura e delicadeza.
Estou admirada.
Sou sua fã!

 
At 9:25 PM, Anonymous Anônimo said...

Lindo. Tão belo quanto todos os outros que vi hoje, e me emocionaram tanto.

Maria Auxiliadora Rodrigues

 

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