domingo, abril 01, 2007

Minha babel

O ano de 2007 me reservou uma surpresa: depois de dez anos, voltei a trabalhar numa escola. Esse retorno à minha origem me revela devagar um conjunto de sentimentos que estou, aos poucos, classificando para entender.
A primeira sensação é de incompreensão - meus alunos não parecem reconhecer em mim alguém de valor, depois de minha notável quilometragem. Na verdade, sinto-me uma intrusa que atrapalha o que eles gostariam mesmo de fazer, coisa que é imaginável e não é, ao mesmo tempo, que não se pode saber o que o outro quer sem ouvi-lo. E ainda não me dispus, vá ver que o problema está aí. Acho que teremos que negociar um bocado, já que não tenho certeza de que eles querem ouvir o que tenho que falar, mas, ao mesmo tempo, espera-se de mim que o consiga. E la nave va!
Não é de hoje que professores tentam e alunos resistem e, ao fim e ao cabo, proclamamos o êxito desse embate antigo como o homem, que é a seqüência de uma geração depois da outra, a mais nova ouvindo parte dos conselhos e construindo ela mesma sua história de erros e acertos, de erros e acertos, de erros e acertos...
Louvo a vida que corre, inclusive nesse diálogo absurdo de quem fala para quem não quer ouvir, sentindo-me uma ponte que liga o novo e o velho (não como gostaria que fosse, mas como meu tempo possibilita). E me entrego inteira a esse presente de que faço parte, até porque ainda acredito que o faço um pouco do meu jeito.
E gosto de errar e de tentar acertar; gosto de brigar pelo que acredito; gosto de ter dúvidas, raiva, frustração e vontade de recomeçar; gosto de me ver advogada do que sou; gosto de não saber; gosto de perder; gosto de prever ganhos que virão, porque estou viva e uma pessoa de verdade não desiste, já aprendi que difícil é diferente de impossível.
A segunda sensação é de pertencimento: estou trabalhando com amigos que fiz há muito tempo e, magicamente, reconheço-os ainda e sou recebida como tal. Ah! essas coisas fomidáveis e inexplicáveis que são os encontros!
Acho, inclusive, que eles são planejados e fico pensando na criatura esplêndida que traçou alguns desses laços na minha vida.
Fico imaginando o que se passou na vida deles e eles também devem pensar no que a vida reservou para mim, devemos trocar enredos nos próximos meses e eu vou gostar, que histórias são o modo primeiro que tenho de entender as coisas.
Reencontrá-los, ouvi-los repensando a utopia malograda de nossa geração... examinar onde fizeram concessões ou onde mantiveram suas posições... vê-los falando uns dos outros com sede de se compreenderem, se explicarem... escutar as histórias de que não participei... rir e ter vontade de chorar... saber que há ali histórias de dificuldades que passaram ou não, que vão passar ou não...
A terceira sensação vem das pessoas novas e do desafio de estar aberta para elas e seus mistérios inescapáveis.
Louvo o dinamismo de minha vida que me dá agora um começo cheio de gente para amar, conhecer, amar de outro jeito, do mesmo jeito; gente com quem me desentender, até para me entender...
Meu novo emprego é minha babel, lugar para onde me trouxe minha história de volta ou de ida (não sei bem), desafio que vencerei ou que me vencerá (também não sei), encontro, desencontro, aconchego, estranhamento, trajetória... Uma escola é como a máquina da vida...

14 Comments:

At 3:48 PM, Blogger Sofia said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 3:49 PM, Blogger Sofia said...

Ao ler o texto, o único pensamento que consigo formular, é de como é que existem pessoas que não conseguem ver o seu valor. como é que existem pessoas que fazem você se sentir intrusa, quando na verdade você é caminho, aberto, do pensar.

Ontem mesmo liguei para minha prima e perguntei sobre as suas aulas. Ela me disse que gosta das aulas mas que elas são cansativas, e que você não consegue controlar a turma, todos conversam e atrapalham. Ela disse que olha bem muito pra você, pois vê que você está decepcionada e quer mostrar que tem alguém que está ouvindo. Também me disse que ela acha que o problema é que quando você conta alguma coisa engraçada todo mundo ri e começa a conversar (Comentou sobre uma aula que você falou sobre muito cocô nas ruas da Europa...). Outra coisa que falou foi a famosa frase: “Flávia fala muito, não consigo prestar atenção”.

Infelizmente esse é o perfil dos alunos de hoje. O jovem precisa ouvir e depois falar o que ouviu, discutir, se não, ele não entende o que foi dito. Ele está em uma fase de construção do pensar tão grande que não consegue pensar ainda. O pensamento do jovem se dá através da fala, dá troca de idéias, essas, acumuladas, vão fazer com que o jovem pense. O problema é que as nossas escolas nunca deram espaço para o jovem falar, questionar. Ele ouve e não entende, ouve e não entende, ouve e não entende. Depois de um tempo, ele desiste de ouvir, e não quer mais entender.
O professor de hoje, infelizmente, é aquele que abre a cabeça do menino e joga um livro, que não é triturado porque não existe um sistema capaz de triturá-lo. Cada menino aprende de um modo diferente, tem que existir uma aula que beneficie a maioria e não a minoria, o pensar do menino tem que ser trabalhado e mastigado em conjunto.
Os seus alunos já estão enquadrados nesse sistema. Eles já nem querem ouvir mais, pois não conseguem entender metade do que está sendo dito, se tentam ficam logo cansados, e qualquer outra coisa que aconteça (como uma piada de um colega, ou uma informação menos “pesada”, como falar de Ivete Sangalo) vai tomar toda a atenção que têm.

Eu não sei se consegui explicar o que penso por que esse é um assunto bem complicado. Passei um tempão para escrever isso, e acho que não está nada bom (tem muita coisa que pode ser dita ainda, você sabe muito mais do que eu). É bom saber que você, além de tudo, está gostando do desafio, eu acho que deve estar sendo difícil, mas muito interessante.

Aos poucos eu espero que eles comecem a ver você da forma que você merece ser vista.

Desisto, não consigo terminar o texto. Fico pensando, pensando e não consigo. Se escrever mais vou começar a falar da minha admiração por sua pessoa, e esses são outros quinhentos.

Sofia Sampaio

 
At 4:03 PM, Anonymous Leonardo Siqueira said...

Hai Flávia... aquele papo com você foi tão bom sabe?!

O tempo foi pouco, mas qualquer tempo que se passe com você será muito pouco!

Se bem que parece que seus alunos não acham isso ne? Hahahhahahahaha!



Você me fez pensar sobre essa escolha de vida que os professores fazem, esses dilemas entre o carrasco e o anarquista, entre o amigo e o inimigo, e principalmente entre o interesse e a falta de perspectivas. Confesso que não foi nada confortante te ouvir falar dessas agonias, fiquei tão angustiado quanto você.



Mas gostaria de lhe mandar energias de um inexperiente, que ainda não teve a oportunidade de encarar uma sala de aula e que, talvez por isso mesmo, pode emanar alguma esperança.

Acredito mesmo que nosso papel é enfrentar esses moinhos, numa cruzada por dias melhores, por pessoas mais humanas e uma sociedade mais amigável. E como Platão, a grosso modo (na verdade releitura total), falou... O problema com os homens é que eles acreditam muito nas suas verdades e não deslumbram a possibilidade de desbravar o novo, é difícil entende-lo!

(desculpe pela prepotência desse mero aspirante a aprendiz de professor querendo te ajudar!)



Um beijo para minha professora amada e inestimável...

Leonardo B. B. Siqueira
VIVA A VIDA!

 
At 11:43 PM, Blogger elayne said...

Professora Flávia, sinto muito por tudo o que tem acontecido. Ontem na aula a senhora contou um pouco da sua historia no contato, com os outros professores do NAP e a sua vontade de voltar as escolas, e me bateu um medo de que a senhora "desistise de nós", sou uma defensora eterna de exatas, mas suas aulas me fazem querer aprender, ter curiosidade pela literatura (sempre me dei muito bem com os livros) pela paixão que a senhora demonstra.
Hoje a senhora botou o endereço do blog no quadro e resolvi conferir o texto "minha babel" e já li quase todos os textos (que estao muito bons).
Peço que a senhora nao "desista de nós" e perdoe meus erros gramaticais...

um beijo professora.

 
At 7:53 PM, Anonymous Luiz Diego (1° E) said...

Eu já conhecia a senhora de nome (e pelo NE TV XD)
Mas quando a senhora entrou pela porta eu fiquei átono..."meu deus, é flávia suassuna" foi o que pensei.
como pretendo fazer artes cênicas as suas aulas são extremamente importantes pra mim. mas ninguém deixa a senhora dar aula u__u é foda.
pra mim é um enorme prazer te-la como professora (e amiga talvez)
nunca desista de fazer o que fazes tão bem
;*

 
At 7:58 PM, Blogger Renan said...

Flávia...
Eu como representante de turma lhe pesso perdão!O pessoal não tem idéia de o quanto está se desvalorizando uma professora tão competente como você o é!Eu adoro as suas aulas,é como se eu fosse algum personagem de alguma historia importante em um determinado estilo de época!Eu li o seu texto (Minha Babel) e vi o quanto vc esta insatisfeita com a recepção que está acontecendo.Mas eu espero com sinceridade que isso mude,geralmente é uma fase de adaptação de um colegio pra outro,não sei...quando eles perceberem o seu valor,com certeza mudarão!Eu amo Literatura,ler,porque é através dessas obras que podemos conhecer toda uma época,toda uma cultura.E tendo uma professora igual a você,nem encontro palaras pra descrever o prazer proporcionado pela literatura!
Um beijão! e ate a próxima aula!

 
At 8:07 PM, Blogger Sofia said...

Duas coisas:

1. Não dê expectativas a alguém, que se não é, nunca será. ESPECIALIDADE é algo que não existe.

2. Hoje eu aprendi que eu me acho igual a você. Todas as coisas que você fala do seu passado, de certa forma, são as mesmas coisas que eu falo ou penso. Sério mesmo. Só que, eu descobri uma pequena/grande diferença. Você é plenamente feliz sendo de um planeta que gera exclusão. Eu, sinceramente, não acho tão divertido, apesar se ter quase toda certeza que somos do mesmo planeta, como “preferir ficar em casa e ler a sair”!
O mundo é realmente incrível, eu achava que nunca encontraria uma pessoa como você, e veja só que surpresa! Eu nem sei como dizer, e tenho certeza que você não entende, mas é assim, sabe?
Ser de outro planeta me faz ter uma amiga só, uma-amiga-só, também me faz ser vista, pela minha própria família, com olhares diferentes do que se consideraria um “olhar familiar”. Ser estranha nem sempre é legal, mas é bom ver alguém como você, que adora isso! *Observação: você ouvir todo dia da sua família e dos seus amigos que você é estranha, também não ajuda.

Pronto, o ponto 1 completa a primeira oração do texto, mesmo que seu encaixe seja um pouco trabalhoso.

Sofia Sampaio

 
At 9:51 PM, Anonymous Karina Cavalcanti (aluna do cursinho) said...

Professora, eu não concordo com voce(e espero que não comente isso na sala...),pois acho que, proporcionalmente à maioria dos professores, voce tem muito mais alunos que a admiram, valorizam e querem escutá-la do que o contrário.Enfim, deve achar maravilhoso( e sei que acha) o fato de para voce ser um "laboratório" o que para a maioria dos professores é martírio e perda do significado dos seus sonhos e convicções.
Finalmente, obrigada por desenvolver trabalhos tão valiosos e belos como os deste blog.

 
At 10:24 PM, Blogger Yuri Assis said...

Flávia:
persevere nesse seu embate com os alunos; eu tenho certeza que se vc não vencer na totalidade, os poucos que se renderem vão germinar frutos vigorosos.
Boa sorte e tudo de bom nesse seu novo emprego, mta luz, mta paz, bastante discernimento, enfim.
Já diz Leonardo Boff, em seu livro "Caos e Cosmos na construção da Realidade": é através da desordem que nos reconstruímos e nos reorganizamos em torno de nós mesmos e das pessoas ao nosso redor. Creio que necessitemos de situações críticas e embaraçosas para fazer rodar essa grande engrenagem da vida.

Um grande bjo
seu aluno (do cursinho) quase-poeta (hehehehehe)
Yuri.

 
At 2:51 AM, Blogger Sofia Sampaio said...

Veja só que maravilha, eu estou tão viciada em Blogs que acabei fazendo um ... sei que não vai dar em nada, mas está no ar!

O link é:
http://sampaioesofia.blogspot.com/

 
At 7:21 PM, Blogger Fernão said...

queria eu que a senhora fosse professora do meu colégio...

 
At 11:46 AM, Anonymous luis manoel siqueira said...

Professora, aceite um conselho: Muito cuidado com os alunos. Eles se lembram mais dos professores, pelo da vida, do que os professores deles.

 
At 1:40 AM, Anonymous Rosário said...

Flávia, querida
quando o restante dos alunos descobrirem o tesouro que têm, por ter você como professora, algum tempo terá passado; eles lamentarão não terem acordado para isto antes e uma coisa é certa: QUEM ENTRA EM CONTATO COM FLÁVIA SUASSUNA fica tão rico, que você será lembrada por eles como uma pessoa INESQUECÍVEL !!!
Saudades, amiga

 
At 7:11 PM, Anonymous Priscila said...

Flávia,
fui sua aluna ano passado e em 2005, agora já estou na faculdade. Posso te dizer que suas aulas foram importantíssimas não só para o vestíbular, mas para toda minha vida.
Tenho muito carinho por você!qualquer dia passo lá no curso para um abraço, e uma conversa!
um brande beijo minha professora querida!

 

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