sábado, agosto 12, 2006

Retratos da vida, de Claude Lelouch

Revi recentemente o “Retratos da vida”, de Claude Lelouch, e tomei três sustos.
O primeiro foi me lembrar como o filme é tocante, como costumam ser as histórias interrompidas pela guerra que a Europa não cansa de contar e que acordam na gente aqueles imperativos de suplantação escondidos no mais recôndito de nós mesmos e que acessamos quando tudo parece perdido.
Na verdade, usando Drummond, uma guerra é daquelas “exigências brutas” da vida depois das quais nunca mais somos os mesmos. E esse filme vai contando aos poucos as escolhas de várias personagens diante da situação extrema de uma guerra que envolveu o mundo todo e que despedaçou para sempre as certezas do século XIX.
É que o século XIX construiu uma espécie de esperança na matéria, na ciência e na tecnologia. E essa certeza ruiu com a chegada dessa guerra, que nos mostrou que a ciência e a técnica são uma faca cuja lâmina pode também ferir.
O século XX sabe dessa faca fria que ceifou tantas vidas e tantos sonhos e é por isso que quem sofreu essa guerra em carne viva ainda precisa muito falar sobre suas seqüelas.
O “Retratos da vida” pega esse tema duro que destruiu não só os parâmetros do século XIX, mas também o que podia restar de pureza e complacência nas relações humanas e o desenvolve de maneira lúcida e embebida de poesia.
Ao fundo, ouve-se o “Bolero de Ravel”, que dá uma sensação bipartida entre abismo e salvação, já que ele parece sempre recomeçar, verbo inescapável quando uma guerra finda. Recomeçar de outra forma, para ser mais clara, pois a guerra muda tudo. Visto a roupa de quem sobrevive e sinto remorso por estar viva, ou responsabilidade por ter em minhas mãos “o legado de nossa miséria” ou da nossa fortuna para transmitir.
O “Bolero de Ravel” também nos ajuda a ver como todas as histórias são iguais... e diferentes, nos tons, nos volumes... Algumas vidas são mais leves; outros de nós temos vidas densas e pesadas... O tempo é uma mola espiralada de voltas semelhantes ou diversas?
Os mesmos atores fazem o papel de avô, pai e filho, às vezes, recontando essas nossas histórias entrelaçadas ou dizendo de outra forma como somos o desejo de nossos ancestrais e não somos, ao mesmo tempo, porque também somos o que queremos ser. Cada um de nós tem uma história única que, atrelada à de outras pessoas, exige ser narrada.
O segundo susto é de inveja do cinema, que é capaz de mostrar num segundo uma página inteira de exaustiva elaboração lingüística. O “Retratos da vida” é único naquilo que o cinema tem dele mesmo – imagem pura, às vezes sem palavras, que traduz tudo. O DNA do século XX é a imagem, e revejo perdida a palavra como tradutora desse tempo. Minha vingança é este papel e este lápis baratos com que escrevo este texto.
O terceiro susto foi o pior: onde ficou perdida, entre a década de oitenta e hoje, a esperança na arte como ponto de encontro e porta de saída? Como ousamos esquecer que nossa humanidade, que dispõe do que nos humaniza, nos move uns para os outros e uns pelos outros, como os círculos concêntricos do “Bolero de Ravel”? Como fomos aos poucos nos perdendo uns dos outros e da idéia de que há um “algo” que planeja nossos encontros? Que maldita ampulheta prendeu e sufocou em sua areia a idéia da arte como caminho que nos faz saber ser, fazer o que somos – abrigos uns dos outros?

6 Comments:

At 12:24 PM, Anonymous clara fonseca [ salpicada de canela ] said...

Lindo lindo, linda!
beijao.

 
At 2:17 PM, Anonymous Anônimo said...

Flávia
você disse tudo aquilo que este filme sempre despertou em mim, e eu não sabia
Obrigada por isto !!!
abraço carinhoso
Rosário
(ainda não sei como entrar com senha)

 
At 12:11 AM, Anonymous juliana lapa said...

flaviaaa!!! to lendo seu blog!!!! adorei como adoro tudo o que a senhora faz!!! (me refiro a seus filhotes..um mais lindo que o outro!!!)hehehehehe!!!!!
bjos enormeees!

 
At 8:32 PM, Anonymous Eline Farias said...

Flávia!! Amei suas colocações! O q não é uma novidade já q sou sua aluna e AMO suas aulas. Só acho q quem apenas lê os seus textos está perdendo a melhor parte de vê-la falando pessoalmente: a sua convicção, o seu positivismo...Você é uma grande artista Flávia! Já pensou em fazer um Talk Show falando sobre como não somos guinus?
BJS

 
At 10:11 AM, Anonymous LUIS MANOEL SIQUEIRA said...

Excelente artigo. Sim, esquecemos que somos abrigo uns dos outros. Estamos todos irremediavelmente perdidos numa floresta escura chamada INSENSIBILIDADE.

 
At 4:03 PM, Blogger Lígia said...

Adorei seu post. Seu blog. Virei fã!

Abraços, e obrigada!

 

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