quarta-feira, julho 08, 2026

INDIZÍVEL

 

Não morrem,

insistem

em viver e falar

numa ambígua língua

revelando

verdades íntimas

como a pele.

 

E eu pelejo

na decifração

enquanto

dou a eles

esta vida

que não têm.

 

Eles dizem

não de si

mas de mim

ainda havendo

entre nós

uma réstia de revelações

caladas e sigilosas.

 

Essas quase vidas

que camadas

são o que sou...

 

Os mortos

ainda andaimes

sustentam

seu sentido

no meu.

 

sábado, junho 20, 2026

OUTRO PESADELO

 “Cada criatura é um rascunho a
 ser retocado sem cessar.”
 (João Guimarães Rosa)

 

Feito uma tempestade,

arma-se o pesadelo:

rodam anjos, nuvens e redes

sob o comando do furacão.

 

Meu coração responde

num grito.

Acordo.

 

Revejo o escuro:

os anjos

(presos nas redes)

cospem acusações

na língua que divide.

 

Meu medo chora,

incapaz de esquecer os anjos.

 

Os anjos que têm a verdade.

quarta-feira, maio 20, 2026

PESADELO

 

Estou presa.

O barulho impede

a memória e o sonho;

minha canoa é cega.

 

Não há tempo:

os relógios quebraram-se

de apressados.

 

Algumas palavras

rasgaram a mordaça

e, por um instante,

tentam transfundir

a memória e o sonho

que falecem

ligados às máquinas

da gramática da suspeita.

 

Mesmo amarrada,

alcanço o leme,

mas não adianta:

a canoa perde-se,

a água entra,

a concha ferida

de minhas mãos

luta contra o sal.

 

Tudo arde, e eu grito.

Nada: só palavras presas

podem ser ditas,

e eu as desconheço.

O avesso

desse pesadelo

é a palavra fugida

deste poema.

 

segunda-feira, abril 20, 2026

A IMPRECISÃO HUMANA

            Sou uma poeta que, de vez em quando, escreve crônicas. Medianas, admito. Mas crônicas são isto: um assuntinho não agudo, mas suportável, que invade nosso pensar e que só se deixa controlar quando escrito. Acontece que escrever não o remove – ele fica ali, crônico, sem cura... Com recidivas intermitentes...

            As coisas crônicas resultam de uma combinação randômica de fatores genéticos, fisiológicos, ambientais e comportamentais: são efeito de predisposição familiar que se realiza (ou não) em virtude de uma arrumação específica de escolhas, experiências e erros.

No meu caso, passo meses ou anos sem escrever uma. Aí, sem querer, tropeço numa de alguém que mora longe, perdida num jornal virtual nos meandros labirínticos da internet, num card de algum grupo do WhatsApp... E me dá uma vontade ingovernável de também falar do assunto dela. 

Coitada da crônica... Ela vive agora assim: sem lugar, escondida, escorraçada feito um caramelo, sem eira, nem beira...

Pois bem: distraída, li uma crônica linda de José Eduardo Agualusa sobre a imprecisão humana que, na sua opinião, será o próximo grande luxo. Por meio de uma narrativa, como costumam fazer os escritores, narra a história de um rapaz que, desempregado, resolveu restaurar e vender máquinas de escrever e seus apetrechos. E, assim, achou um jeito de sobreviver.

Sua paixão por elas, Agualusa nos reporta, era tamanha que ele era capaz de destrinchar a história de cada uma delas – quem a tinha possuído; quem a comprara; por que alguém precisa usar uma (fiquei sabendo ali que médiuns preferem máquinas de escrever a computadores para as suas psicografias); qual a personalidade de cada uma e quais as diferenças entre elas.

A partir daí, o cronista começa a imaginar ideias: de pessoas que pudessem se enamorar de coisas imperfeitas, feito textos com erros ortográficos, fotos embaçadas de pessoas sem um pedaço da cabeça ou um braço, discos de vinil com pipocos, manuscritos com manchas de café, seres humanos com suas incoerências... 

Seguindo seu raciocínio, comecei a fazer uma lista de coisas maravilhosas que foram inventadas depois de um erro, ou por causa dele – penicilina, micro-ondas, viagra (!), raio X, marca-passo, cola Super Bonder, post it... A lista é enorme...

Então: como chegamos a essa massificação da perfeição em que estamos afundando, como num pântano de tristezas? Vozes monótonas; relógios exatos; mapas rigorosos; lentes versáteis; balanças impecáveis... Tudo manuseado por anjos que prescrevem comportamentos ideais; dietas com alimentos que não podem, de jeito nenhum, ser escolhidos; corpos que ficam presos entre números e algarismos; vigilância, julgamentos e censura de humoristas e expressões; uso e abuso de “slogans” que não são frases autorais, mas produtos baratos e industrializados que compramos nas gôndolas dos supermercados cujos corredores, como sabemos, guardam todos os nossos enganos e defeitos.   

Se prestarmos muita atenção, entretanto e felizmente, talvez constatemos que ainda continuamos enfeitiçados pelos tons e subtons inumeráveis das vozes que recitam poemas ou cantam ou tentam seduzir; ainda chegamos atrasados; nos perdemos; não enxergamos; ficamos acima do peso ou abaixo; compramos vinis, livros, máquinas de escrever; vamos depressa, mesmo sem saber para onde... Enfim, ainda somos atraídos pela diferença, pela exceção... E continuamos a sofrer de/com pequenas imperfeições...

Não nasceria dessas perfeições inatingíveis esse fascínio pelas impressões digitais, pela compreensão de que números torturados podem mentir, crimes horríveis podem acontecer e de que nossa humanidade não precisa só de produtos de limpeza, mas também de compreensão e de perdões sofridos e lavados de lágrimas e outros líquidos inomináveis?

Em vez de planejar e prescrever mais perfeições, talvez fosse melhor recuperar nossa humanidade (feito o rapaz recuperou as máquinas de escrever), moldando um mundo em que fosse possível compartilhar devagar medos, coragens, erros, acertos e perdões. E compreender que a pressa, a tal perfeição e o barulho repetitivo das máquinas estão nos afastando ao aumentar nossas injustiças e ao ressaltar nossas diferenças, tentando apagar nossas semelhanças.  

sexta-feira, março 20, 2026

“Hamnet: a vida antes de Hamlet”, de Choloé Zhao

            No começo desta semana, fui sequestrada por um aluno que queria porque queria que eu assistisse ao filme “Hamnet: a vida antes de Hamlet”. Ele me levou ao cinema e, inclusive, como o lorde inglês que sempre costuma ser, pagou a minha entrada. De acordo com ele, eu precisava, urgente e obrigatoriamente, ver o filme o qual era a minha cara e, em seguida, escrever um comentário.

O filme da diretora chinesa Choloé Zhao é uma adaptação do livro homônimo da norte-irlandesa Maggie O'Farrell. É muito bonito e é a minha cara mesmo.

Tenho um livro inteiro de resenhas de livros e filmes, mas confesso que não sei falar de enquadramentos, cortes, ritmo... – os elementos específicos do cinema – mas somente da história propriamente dita, porque fui formada pela literatura. Em minha defesa, posso afirmar que nem em relação aos livros, nem aos filmes me importo com o que agora chamam “spoilers”, porque tenho curiosidade de saber o que chama a atenção das pessoas que leram o livro ou viram o filme.

E gosto muitíssimo de comparar o que foi visto com o que eu mesma vi, para aprender sobre a pessoa que falou ou sobre mim mesma. Talvez isso tudo já estivesse intuído ou ligado, sem eu saber, com a ideia recente que me veio à cabeça das “palavras em movimento”: uma pessoa fala, outra retruca... E assim, sucessivamente, vamos, com palavras, serenando a violência entre nós.

Não quero com isso dizer que estaremos, num futuro próximo ou distante, curados para sempre da violência, que ela é uma espécie de DNA tatuado na nossa mais profunda essência. Mas quero defender a tese de que nossas ficções (e as consequentes leituras, apreciações, críticas, comentários, opiniões, resenhas, trabalhos acadêmicos...) movimentam diálogos com os quais nos interferimos e, portanto, amadurecemos e evoluímos, se é que sabemos fazer isso. 

            O verbo “interferir”, recentemente percebi, é perfeito para ser usado nesse contexto, pois carrega dois significados: cada um de nós interfere na vida e na visão do mundo do outro, mas, ao mesmo tempo, dada a nossa natureza, nos ferimos nessa troca, que é atávica e inescapável. 

O filme é sobre o luto. Acho que quem não gostou dele não transferiu algo de si ou não pôde transferir algo de si para a situação de espectação (essa palavra – com “s” – não existe dicionarizada, mas acabo de precisar dela; refere-se ao substantivo de quem assiste a um espetáculo, o espectador; com “x” essa palavra significa aquele que está na expectativa de). Não ter uma experiência de luto é muito raro, já que todo ser humano, mais dia, menos dia, encontra-se com este tema dos mais difíceis e complexos de nossa trajetória histórica.

Eu mesma, aos quarenta e poucos anos, fui atropelada por um luto complexo e cheio de camadas: perdi um filho saudável que, depois de uma meningoencefalite, carrega até hoje pesadas deficiências motoras. Em outras palavras: eu perdi e não perdi um filho, ou estou num ponto da história da medicina que pôde salvar meu filho, mas não por inteiro, ou fui sorteada com um milagre inconcluso... Francamente, não tenho as palavras exatas, mesmo depois de vinte e cinco anos, para falar desse luto. Em resumo: digo que tive quatro filhos e perdi um, apesar de sentir que a frase não traduz direito o que se passou.    

Não sei se o luto da perda de um filho tinha, no final do século XVI (época em que o filme se desenrola), o peso que tem hoje: os iluministas do final do século XVIII que, de acordo com eles mesmos, eram iluminados, abandonaram aos montes seus filhos à morte ou à dificílima tarefa de viverem como bastardos e, na Rússia do final do século XIX, Tolstói me disse que as crianças morriam tanto, que só eram registradas com sete anos. Nossas ancestrais falavam de seus filhos mortos com mais naturalidade, elas diziam “tive 15 filhos, criei 10” como quem relata um acontecimento que era corriqueiro. E cujo luto precisava ser logo cumprido, pois era seguido por outra gravidez e suas dificuldades. 

Mas o livro, que não li ainda, e o filme são da década de 20 do século XXI, quando as pessoas têm um ou dois filhos e só muito tardiamente perdem pai e mãe, às vezes depois de terem se transformado em pais ou mães de seus próprios pais e mães... Ou seja: é preciso imaginar a experiência de perder o único filho ou um dos poucos filhos sem ter passado por nenhuma experiência de perda profunda antes. É sobre isto: a perda fundante, a que funda outra pessoa.

Quando se ficava órfão criança ou adolescente no século XVIII ou XIX, por exemplo, toda vida seguia outro destino e tinha que se estruturar, a pulso, uma outra pessoa – venda dos mais vulneráveis, orfanatos, abrigos, internatos, trabalho infantil, maus tratos, situações análogas à escravidão, casamentos arranjados noutro continente, toda sorte de violência já foi mencionada e elaborada com palavras, como efeito desse luto. Foi o que fez Charles Dickens, na Inglaterra (o país mais rico do mundo na época).

Mas isso tudo passou para a maioria das pessoas, embora ainda deva existir nos rincões de pobreza mundo afora onde, infelizmente, consentimos existir pobreza dentro da riqueza que já obtivemos no planeta.

No nosso tempo, o luto fundante é o do filho, e o filme em tela é sobre esse luto – sobre um casal que perde uma espécie de filho único, o único homem, pois havia duas filhas – uma mais velha e outra “nascida na mesma hora”, como o próprio autor fundante inglês chamou os gêmeos. É preciso reparar que existem palavras para outros lutos (quem perde os pais é órfão; quem perde o companheiro ou companheira é viúva ou viúvo). Mas nosso tempo ainda não nomeou nem o luto do filho, nem do irmão, como é sussurrado no filme.

Sim, o filme é sobre William Shakespeare, sua mais famosa peça teatral, “Hamlet”, seu filho Hamnet (as duas versões do nome próprio corriam na época) e sua esposa Ana ou Agnes, também duas possibilidades correntes quando a língua inglesa estava no berço e foi quase que fundada ou fortalecida pelo escritor. Acho que posso acrescentar que a linguagem e o humano estavam sendo criados e/ou reescritos e/ou refundados e/ou reestruturados, naquele momento de profundas mudanças... Não estou bem certa... Ou errada...

No presente, outro tempo de avassaladoras mudanças, parece que precisamos voltar a esse passado para tirar lições para seguirmos... É que viver é feito dirigir bem: temos de olhar para frente por um vidro que é o maior de todos, na companhia dos outros, confiando nas suas prudências e antevendo e enfrentando as suas imprudências. Mas, eventualmente, precisamos olhar para trás, por espelhinhos à direita e à esquerda, para que escapemos de acidentes; o ponto cego, que existe, apesar dos retrovisores, é a morte – não precisamos focar nela, só saber que existe, a fim de saber o que é essencial.

Agnes, a personagem principal, simboliza a natureza e os saberes intuitivos e meio medievais que estavam, naquele tempo, começando a ser insuficientes para entender e explicar o mundo: somos apresentados a ela numa floresta, seu primeiro parto foi na floresta, ela conhece as pessoas pelo tato e entrega-se ao sexo de forma natural; ela era considerada ora órfã, ora filha de uma bruxa da floresta. Tinha uma visão recorrente de que ia morrer ao lado de dois filhos. E, por isso, sempre teme a morte da filha que quase morre durante o parto duplo. Como o filme se dá num momento de transição, começamos, aos poucos, sendo apresentados ao fato de que o jeito de Agnes já não dá conta de explicações: o segundo parto muito cansativo a teria levado se estivesse sem ajuda na floresta.

A natureza e os saberes populares começam a falhar naquele alvorecer da Idade Moderna começando a ser urbana, e testemunhamos suas intuições naufragarem – não foi sua filha que nasceu quase morta e parecia fraca (parece ser por causa dela que a mãe não acompanha o seu marido que trabalhava em Londres, uma cidade mais populosa e, portanto, mais perigosa) que morreu, mas seu irmão; sua força ligada à natureza e suas ervas não salvaram seu filho... E ela errou quando não considerou outros modos de viver – não naturais, mas racionais e intelectuais.

O fim do filme é belo, porque a experiência empírica da arte e do teatro, e seus mecanismos materiais e imateriais, ajudam Agnes, por meio das palavras, a ter uma visão mais completa: ela se abre à vivência diferente do luto do seu marido, naquela cena primordial do lindo teatro Globe... Agnes deixa seus saberes intuitivos serem atravessados pela razão e pela intelecção e ganha uma compreensão mais justa e completa do outro. E do mundo. Tudo isso num tempo em que a subjetivação estava engatinhando, filha do rearranjo dos novos sentidos que precisaram surgir...

Obrigada, Choloé, Maggie e Emanuel. Pensar sobre a vida, as palavras, os silêncios e sobre como, noutro tempo, o amor e a arte (com suas sugestões simbólicas e suas brechas) ajudaram a organizar o caos e preencher o vazio, criando novos caminhos, novos sentidos, novas palavras e, portanto, novas compreensões, me ajuda a não desistir de buscar novos sentidos, caminhos e palavras neste labirinto em que estamos, ameaçado por novas e ainda inexplicáveis inteligências.  


A Emanuel Sarinho, a quem prometi a resenha. 

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

PALAVRA AOS FORMANDOS DO TERCEIRO ANO DO ENSINO MÉDIO DO SABER VIVER

Prezados alunos:

            Fiz questão de estar aqui hoje para me despedir de vocês com a profundidade e deferência necessárias; estamos juntos há três anos e tenho por vocês um apego todo especial – nesse tempo, tive outros empregos aos quais não  me adaptei e quero deixar claro o que constituiu para mim e para vocês todo esse tempo, todo esse aprendizado e toda essa experiência.

            Primeiro quero agradecer pela compreensão: vocês acertaram a ser acolhedores de minha diferença. Eu tenho apenas um irmão que é zootecnista e trabalha na área rural; por causa disso, ele tem um vocabulário que pertence ao conjunto das palavras, digamos assim, agro. Uma vez, ele queria comprar uma calça exatamente igual a outra que ele tinha e, chegando à loja em que tinha feito a compra com a roupa velha em mãos, exclamou:

Quero uma calça dessa mesma raça.

Pois bem: ele diz que sou “apartada”, usando um termo desse seu léxico próprio. Na área rural, usa-se essa palavra para dizer assim: “esse touro precisa ser apartado, os bezerros estão apartados”. Isso quer dizer que o touro precisa ser separado do resto do rebanho, sabe? Ou os bezerros estão separados das vacas. 

De fato, sou “apartada” da maioria – por ser mulher, mãe solo de três filhos (inclusive um deficiente), por ser idosa, por trabalhar com literatura, por ser espiritualista, por ser escritora e mais outras apartações inumeráveis.

Isso que aconteceu entre nós é uma riqueza que vocês construíram dia a dia, e eu espero que vocês não percam, de jeito nenhum.

A maioria de nós não nota, mas estamos (os que são motivados pelo bem e que nem sempre fazem tudo certo) construindo a utopia da diferença, depois que a utopia da igualdade falhou, tanto em 1789 quanto em 1917. Temos o privilégio de ter, desde meados do século XX, cada vez mais aperfeiçoados meios de comunicação e de transporte a nosso dispor, e isso nos deu a oportunidade de ir e vir mais. E ir e vir é um de nossos direitos mais básicos, pois nossa humanidade carrega a marca da busca que não para.

Então: estamos nos deslocando mais de um país para outro e, aqui no Brasil, houve uma mobilidade social quase impensável na Europa, por exemplo. Ou seja: agora temos diante de nós o desafio de viver com quem é diferente de nós na escola, na academia, no prédio e (vocês vão ver) na universidade e na vida profissional.

O tema da tolerância é difícil, porque, para praticá-la, é preciso conviver minimamente bem com o diferente. Sobre isso é bom não esquecer o que Gandhi afirmou: não precisamos entender o que toleramos.

É claro que sabemos que a tolerância tem limites e paradoxos. E que as bolhas das redes sociais nos impedem de ir em frente com mais rapidez: elas, de forma sistemática, aproximam iguais, e, sem perceber, nós nos acostumamos a falar para quem pensa como nós e a ouvir sempre o que pensamos, o que cria uma dificuldade de convivência com pessoas que não pensam como nós.

Mas o que quero dizer é: se vocês acertaram a fazer comigo e uns com os outros, nesses três anos, provavelmente acertarão a fazer a seguir na profissão e na vida de vocês.

Na verdade, Gandhi me perdoe, acho o verbo “tolerar” bonitinho... Lindo é o verbo “amar” para o qual a minha religião tanto chama atenção. Vocês sabem que sou católica, mas sabem também que, quando me perguntam qual a minha religião eu respondo:

Sou católica. Mas só Deus sabe...

Tivemos conversas hilárias, sérias, profundas, acho que errei, acertei, provoquei... O mesmo pode ser dito em relação a vocês... Gostei de ouvir vocês, às vezes, não gostei... Acho que aconteceu com vocês a mesma coisa... Em resumo: vivemos juntos, aprendendo, tentamos, não desistimos de nos entender.

De forma geral, estou aqui para pedir a vocês que continuem fazendo tudo isso: que não desistam, que teimem na direção do diálogo, que escutem, pensem, analisem e, depois, emitam opinião, não se eximam de participar da discussão de temas sociais. É assim – tentando, escutando, falando, retomando, perdoando, repensando que nos curamos dos ferimentos que a nossa convivência sempre faz, porque interferimos na vida e nas ideias do outro e este interfere nas nossas. Ou seja: nós nos ferimos uns aos outros, isso é inescapável. Mas nossas palavras são capazes de curar esses ferimentos.

Não caiam na armadilha da simplificação: somos diferentes uns dos outros, todos somos diferentes, e a diferença é uma riqueza, não uma dificuldade. A simplicidade da linguagem não é um caminho; se fosse assim, no trânsito não haveria brigas e acidentes perigosíssimos como há.

Somos complexos; portanto continuem estudando, lendo, discutindo, trocando ideias, divergindo, convergindo... Aperfeiçoem a capacidade de dialogar. 

A globalização criou “uma comunhão de destinos”, como diz Edgar Morin, e essa complexidade não pode ser enfrentada com simplismos e com a linguagem rápida e cheia de ordens da publicidade. Discordem quando alguém falar junto de vocês, que nossas relações mais importantes são as econômicas. Isso não é verdade, e vocês tiveram nesses três anos experiências suficientes para saber disso. 

As palavras são nossas mais importantes ferramentas – elas podem ferir, é verdade. Mas, principalmente, elas servem para, com elas em movimento, a gente pensar, escrever, comentar, concordar, discordar, guardar, relatar experiências, estabelecer limites, leis, ultrapassá-los sem ameaçar a vida... Quando elas se movimentam numa sociedade, as armas perdem seu sentido e podemos brigar sem que nosso sangue se derrame.

A palavra dita, buscada, escrita, sonhada, desejada, ouvida, partilhada... é, como diz Mia Couto, a única roupa que temos contra a violência com a qual insistimos em viver e que nos vitima cotidianamente. Basta de repetir erros que já cometemos no passado, por preguiça de ler, pensar e discutir com respeito e profundidade.

O filósofo tcheco Vilém Flusser opõe dois conceitos: discurso (que seria uma pessoa falar sem querer ouvir) e diálogo (ao contrário, uma pessoa que seria capaz de se modificar por meio do que a outra lhe diz, embora não perca de vista suas próprias opiniões e referências). Não é com manchetes simplórias que daremos conta de nossas complexidades. Nem com slogans. Nem com bolhas algorítmicas de ideias. Nem com criação pelo avesso de simplistas versões contrárias às de quem pensa diferente de nós. Nem com partidos, talvez, como comecei a pensar recentemente.

A verdade é um diamante cheio de ladinhos e vivemos num tempo que exige o acolhimento de todos. Não há só um caminho, nem só uma versão.

Precisamos ir na direção de um futuro que fale a língua da tolerância, da empatia e da inserção de todos. Esse idioma só poderá ser inventado se o exercício da palavra tomar o lugar das armas. E o diálogo tomar o lugar do discurso. O nome disso é utopia, eu sei. Mas ajuda a caminhar.

E vocês, pelo que vi, já começaram a falar essa língua. Pratiquem-na, não desistam dela. Eu estarei de olho em vocês. Obrigada por tudo. E parabéns!

terça-feira, janeiro 20, 2026

PALAVRA AOS FORMANDOS DO QUINTO ANO DO SABER VIVER

Boa noite a todos!

        Estamos vivendo tempos difíceis e maravilhosos, ao mesmo tempo: por um lado, muitas transformações ocorrem muito depressa, e isso dificulta nossas relações; por outro, estamos inventando curas para diversas doenças e podemos nos comunicar rapidamente com pessoas que estão muito. muito longe de nós por meio de aparelhos telefônicos formidáveis. O nosso maior desafio hoje é saber usá-los, pois uma de suas características é que eles nos capturam e roubam o nosso foco.

Durante o tempo em que eu eduquei os meus filhos, tudo também era custoso (sempre é difícil educar), mas não era tão difícil de conseguir, porque, em cada casa, só havia uma televisão e tínhamos de negociar o tempo todo o aparelho e o canal. Essa negociação, sem dúvida, era uma espécie de diálogo que exigia olho no olho, presença, fala, discussão...

Como todo diálogo é difícil (temos de lidar com posições e pensamentos diferentes dos nossos, com tons de voz que se alteram, com lágrimas...), tudo nos treinava para viver, na medida do possível, uns com os outros e para entender a nós mesmos. É que, às vezes, nos surpreendemos com as palavras que saem das bocas, pois nossa linguagem tem um lado inconsciente e, portanto, surpreendente. 

Outra diferença: quando eu era de idade de vocês, tinha mais tempo livre para ler o que me fosse indicado pela escola e o que eu quisesse; a escola não tinha o turno integral, e o lazer era todo menor – não éramos tão demandados para vermos shows, streamings, jogos on line, filmes...

Não estou dizendo que o passado era melhor do que o presente, de jeito nenhum. Toda geração vem diferente e sem bula, e a convivência é sempre muito difícil.

O ponto é a palavra e seus poderes. A linguagem oral é um instinto para a quase totalidade das pessoas; a escrita é sempre mediada, ou seja, alguém tem que nos ensinar a ler e a escrever.

A escrita nos ajuda a organizar ideias; registrar informações; expressar ideias de forma mais clara e, portanto, a facilitar a aprendizagem, a colaboração e o pensamento crítico; nos auxilia a preservar o conhecimento e a cultura e permite interação entre pessoas que estão separadas no tempo e no espaço. Quando não estamos bem, psicologicamente, o profissional da saúde mental nos pede para falar e/ou escrever sobre o que pensamos e sentimos. É nesse longo caminho de palavras, entre certas e erradas, que nos achamos.

Mas estamos vivendo num verdadeiro tsunami de opiniões e de distrações que roubam o nosso foco e nos soltam dentro de um verdadeiro labirinto: estamos perdendo a capacidade de hierarquizar e nos concentrar por um longo tempo. E isso está nos fazendo perder privacidade e qualidade nas nossas relações sociais presenciais.

Acontece que não estamos produzindo mais nem melhor, estamos só adoecendo...

Queria terminar dizendo que estou muito orgulhosa do lançamento do livro de vocês e que, na minha opinião, isso constitui um ato político muito importante nos dias de hoje. Teimar em ler e escrever é uma resistência e um posicionamento social admirável e necessário, quando tudo empurra a gente para simplificações e falta de capacidade crítica.

Espero que vocês continuem a percorrer essa trilha aberta pelo Saber Viver e pelos seus mediadores – nossos professores – que escolheram uma profissão difícil e pouco valorizada. Mas perseveram a favor de vocês, podem acreditar nisso.

Esses caminhos são para poucos e eleitos. Tenham coragem de continuar neles. Lembrem-se de que os pontos de chegada são importantes, mas nós do Saber Viver acreditamos que a travessia, o modo como seguimos é muito importante também. Ou talvez mais...

E o caminho da palavra, do diálogo, da negociação, do respeito pelo diferente é o melhor caminho, mesmo que ele seja mais difícil. Parabéns!