DISCURSO DE POSSE DE FLÁVIA SUASSUNA (CADEIRA 32 DA ACADEMIA PERNAMBUCANA DE LETRAS) 02 DE OUTUBRO DE 2023
Caros senhores:
Chego à cadeira 32 desta Casa, uma das mais antigas
Academias de Letras do país, com o coração aos pulos e andando, com cuidado, na
ponta dos pés: ela tem como patrono o imenso pesquisador Francisco Pereira
da Costa, que é uma espécie de Homero da História pernambucana, e como
primeiro ocupante o advogado e enorme historiador e professor universitário Amaro
Soares Quintas, pai da nossa querida acadêmica Fátima Quintas. Em seguida,
essa cadeira foi ocupada por meu primo torto Fernando Freyre, que lutou,
na Fundação Joaquim Nabuco e no seu Seminário de Tropicologia, pelo pensamento
interdisciplinar e internacional de seu pai Gilberto Freyre, ambos contribuindo
para um pensamento regional não subordinado ao separatismo, e por Abdias
Cabral de Moura Filho, de quem foi dito que “nunca vestiu a camisa de um
saber único”, tendo sido sociólogo, professor universitário e escritor.
Meu papel social não chegou a tanto – fui só uma
professora de Ensino Médio e prestei apenas o serviço de, na rede privada de
ensino do Estado, pelejar para contribuir com a formação de leitores
literários, em virtude de ter lecionado com amor e outros desastres (admito). E
nem sei se mereço a honra da companhia deles. Mas, com humildade e coragem,
como sempre tenho agido em minha vida, assumo a responsabilidade.
Foi diante das flores – algumas murchas, outras já
secas – que recebi quando de minha eleição para esta Casa e do meu aniversário,
que comecei a escrever estas palavras. Evidentemente, se sou capaz de me
lembrar da beleza fresca dos arranjos quando chegaram e da fugacidade de sua
duração, termino sendo armadilhada pelo tema da memória e das palavras e dos
símbolos por meio dos quais conseguimos guardá-la e evocá-la. Neste tempo em
que tanto vivemos e em que tanto tememos perdê-la, a memória é uma palavra que
arde demais; por isso, paradoxalmente, não podemos esquecê-la. E devemos voltar
a falar dela, sempre que possível, para aprendê-la.
Reconheço que, neste
assunto da memória, há dados na Biologia que não tenho condições de citar
ordenadamente, algo como a evolução do hipocampo e do córtex frontal que nos
tornou os seres capazes de criar a noção de tempo e, depois, de nos mover
dentro dele em viagens abstratas para frente e para trás.
O que intuo é que há uma
ligação indescritível desse processo evolutivo biológico com a criação da
consciência e da identidade, as quais nos fazem os seres exclusivos que somos.
Mas não só: por incrível que possa parecer, estas duas “palavras” (consciência
e identidade) nos levaram, em seguida, à colaboração, surgida devagar,
em paralelo, a partir da evolução do mecanismo de reconhecimento emocional dos
outros. Pelo que entendi, só muito depois nossa linguagem chegou, ou seja, esse
instinto gregário e cooperativo é a outra parte embrionária e formadora do que
nos tornamos, ao longo desse processo nem sempre claramente explicável de nossa
evolução.
Nossa memória não é um circuito facilmente
descritível, mas um sistema complexo, ao mesmo tempo biológico, psíquico e
social, e a sua evocação ainda hoje se mantém um mistério, até para a ciência
mais especializada.
De acordo com os
estudiosos, existem vários tipos de memórias: as declarativas, que são evocadas
através de palavras; as não declarativas, que são evocadas de outros modos; as
de curta e as de longa duração; as de trabalho e as sensoriais. Elas se
interligam de forma tão complexa que uma pode falhar, sem que ocorra o mesmo
com a outra.
A questão mais importante é que mesmo as mais nítidas
memórias que achamos que temos não são perfeitas, pois um tanto de perda
acontece durante o processo de consolidação.
Além disso, cada evocação implica um processo de edição dos fragmentos
disponíveis, reorganizados pelos outros tipos de memórias que existem, como a
do trabalho e suas funções executivas ou a emocional, as quais parecem otimizar
a memória, mas de fato não o fazem.
Portanto a evocação, ao contrário de ser um retrato
fiel das informações guardadas, é, sobretudo, um processo criativo e, na minha
opinião, ligado aos mecanismos de manutenção da vida e à sobrevivência
psíquica. Isso acontece porque também somos capazes de inventar as famosas
“lembranças encobridoras” de Freud que, de fato, são a invenção de uma história
que apaga a verdade enquanto garante a nossa sobrevivência possível diante de
fatos dolorosos demais para serem lembrados perfeitamente. Ou porque gostamos
de brincar de reinventar as histórias que amamos, concedendo-lhes uma pitada de
autoria ou do que entendemos como beleza.
É claro que, na interpretação desses, às vezes, lindos
e comoventes acréscimos ou substituições, é preciso atentar para os traços
subjetivos, que são indissociáveis de todo esse processo de construção da
identidade, a qual é, na minha opinião, cerzida à aceitação da diversidade: é
que a verdadeira construção identitária não perde de vista nosso tutano comum.
Foi o psicanalista Contardo Calligaris que me ajudou a
pensar isto: um documentário jornalístico, ele disse, ensina a diferença, um
aprendizado, sem dúvidas, imperdível; mas a literatura, ele acrescenta, tem uma
“mágica complementar”: ela ensina a identificação. No seu raciocínio, ele
afirmou que, por meio da ficção, nós somos convidados a nos identificar com o
diferente – uma personagem de outra nacionalidade, de outra cultura, de outra
religião, de outro sexo... E, assim, a perceber que entre nós há algo além que
nos irmana. Por conseguinte, se há alguém que é como eu, embora esteja imerso
em outra cultura, more em outro país, tenha outra cor de pele ou tenha outra
orientação sexual, esse alguém merece usufruir dos mesmos direitos de que
usufruo. Porque é humano como eu.
É que a palavra “identidade” tem duas caras – uma
voltada para fora e para o fato de sermos idênticos a outrem, como o prova a
raiz da palavra; outra virada para dentro e para o fato de sermos seres
exclusivos. Certamente, essa segunda parte não tem nada a ver com etiquetas e
marcas que, de fato, nos afastam da prospecção subjetiva que é necessária para
a construção de nossa idiossincrasia.
Além de elementos como atenção, motivação, nível de
tensão, estado emocional, também interferem na gravação de nossas memórias os
sonhos, que começaram há pouco a ser compreendidos como uma maneira
ininteligível e surrealista de descarte de informações para a consolidação de
novas memórias.
Assim, não devemos confiar totalmente no arquivo de
nossas memórias, nem, consequentemente, em provas testemunhais e relatos de
experiências os quais, certamente, são uma edição cerzida com invenções ou
mesmo mentiras que precisam ser criticamente avaliadas e filtradas, embora
garantam a vida e seus meandros obscuros.
Entre tantos, o fato mais comovente é que a memória
precisa de partilha e aí entram as nossas palavras escritas e faladas e os
nossos cada vez mais fabulosos meios de comunicação.
A beleza compartilhada desses relatos de
experiências reais e mesmo das narrativas ficcionais literárias, televisivas,
radiofônicas e cinematográficas que dividimos uns com os outros e nos quais
repousam nossas dores, queixas e sublimações é capaz de movimentar em nós
aquilo de que realmente precisamos: generosidades, compreensões, amparo e
perdões nas nossas relações. Não podemos esquecer que Dostoiévski afiançou que
“a beleza salvará o mundo”.
Ou, em outras palavras: nossas tão inescapáveis
partilhas (vividas ou inventadas, não faz diferença) são uma espécie de arena
(talvez seja melhor a palavra “palco”) que inventamos para brincar de calçar o
sapato do outro e experimentar ser como ele. Ou de dizer ao outro como vemos o
mundo, inserindo nesse ato o afeto interferido. Ou de escutá-lo com atenção e
respeitosamente, o que não significa aceitar tudo o que ele diz.
A expressão “afeto interferido” me veio depois de
muito pelejar: uso-a tentando emitir a minha opinião de que o afeto de uma
pessoa não só intervém ou participa da alteração de outra pessoa, mas também
sofre uma mudança com a interferência dessa outra pessoa. Essa reciprocidade de
afetos que se interferem e se ferem e se transformam e amadurecem enquanto
cicatrizam são a minha metáfora para as palavras em movimento (como me
ensinou a psicanálise) que eu, como escritora e, principalmente, professora,
prescrevo como a verdadeira comunicação. Pois posso garantir que, para viver bem
com o outro, é preciso ouvi-lo, mesmo que ele diga o que não queremos ouvir.
Inserir o conceito sociológico americano de “lugar de
fala” na análise dessas narrativas é impedir a experiência com o alheio e,
portanto, o esforço de afeto que nossa convivência sempre exige. A expressão
“esforço de afeto” é o título de um livro de crônicas de Elisabeth Bishop que
sempre uso para tentar transmitir minhas ideias acerca das funções da
literatura, da arte e da cultura. Eventualmente, não sejamos cegos, acertamos a
cumprir esse afeto – não por meio do derramamento de sangue das guerras, mas
das tais palavras em movimento.
“Memória”, “identidade”, “tolerância”, “invenção”,
“partilha de experiências e saberes e opiniões”, “lembrar”, “esquecer”,
“verdade” e “mentira”... são, portanto, palavras pertencentes.
É uma pena que nossa comunicação, uma decorrência de
toda essa teia complexa e bonita de criação de subjetividades e
intersubjetividades, em vez de ser efetivada com cuidado e compaixão e
generosidade, dadas as condições claudicantes em que sempre se move, seja
obrigada a se reduzir a uma expressão simplificada (que quase todos confundem
com mais eficaz) e que, ainda assim, nem sequer tem tempo de se completar, pois é
atropelada por um julgamento apressado,
parecido demais com a censura para ser aceito passivamente: antes mesmo que
terminemos de falar, já há quem diga que o que dissemos está errado e nem a
mais tênue desconfiança de que pode ser só diferente se configura. São os
efeitos das bolhas algorítmicas que nos sequestraram e viciaram a só ouvir o
que queremos e a só falar o que os pares da bolha querem ouvir.
Nessas redes socias, um sujeito indeterminado
(autodeclarado anjo e cheio de boas intenções, conhecido por um apelido
impronunciável e, portanto, irreconhecível) impõe as palavras com as quais a
comunicação deve acontecer nas redes sociais, e os seguidores (também chamados
de usuários) lançam mão dessas palavras mortas (também chamadas “slogans”), as
quais encarceram na impossibilidade a cooperação, a vinculação afetiva e a
invenção de novos equilíbrios... Não só: esse sujeito poderoso aproveita-se da
nossa fragilidade diante do bizarro e do cruel e nos transforma em partícipes
por compartilhamento da atmosfera labiríntica em que estamos imersos,
fortalecendo o que há de pior em nós.
Nesse contexto, infelizmente, está sendo fabricada,
nessas redes sociais, uma intolerância artificial, copiada do estrangeiro,
temperada com simplificações e “demissões subjetivas” (a expressão dessa vez é
de Lacan), a qual canaliza poder e dinheiro para o dono da plataforma no
primeiro mundo, à proporção que tira de nossas mãos a possibilidade de inventar
respostas autorais para o problema real cujas características já nem somos
capazes de enxergar bem, em virtude da infecção midiática polarizada e
simplificada em que estamos afogados.
Tudo isso é um resumo muito mal feito das
possibilidades de relacionamentos saudáveis e cooperativos que poderiam existir
entre nós, as quais, na vida real, felizmente, concretizam-se mais amiúde,
apesar das dificuldades.
Além disso, quem sofreu a colonização (e quer sair dela)
não pode aceitar passivamente esse trânsito internacional de ideias
aparentemente bem intencionadas (governança global, internacionalização de
territórios, sustentabilidade... são algumas delas, por exemplo) que continuam,
sim, a carregar interesses escusos e escamoteados. E que pretendem manter a
arquitetura política global intacta, confirmando imperialismos e sufocando
soberanias. Não é possível desligá-las de questões políticas quando se observa
que as dez regiões mais poluídas do planeta estão em países pobres ou quando
imagino quem será esse governador global – certamente nenhum habitante de
países periféricos.
Soluções e saídas não nascem do nada. Como diz nosso
querido Presidente Lourival Holanda, “toda invenção nasce de um inventário”.
E aí entra a missão desta Casa, em que neste momento tenho a honra de
entrar: não podemos abandonar o projeto
de construção − via cultura − de identidade pessoal e, por conseguinte,
nacional que, ao contrário do que hoje se espalha, ainda orienta todos os povos
da Terra: são fortíssimos os interesses nacionais que se travam no xadrez
planetário.
Essa cultura massificada a que cegamente a maioria se
entregou não é inocente: ela impede a formação de sujeitos; cria um mundo
infantilizado e cheio de gente (não cheio de pessoas) que não pensa e que
espera que um super-herói com superpoderes resolva os seus problemas com armas
cada vez mais potentes e não com palavras; e espalha a ideia de que todos os
países têm os mesmos problemas e as mesmas soluções. Ora: é claro que os países
pobres têm problemas específicos, inclusive causados pelos países ricos, os
quais continuam a dificultar, por meio desses falsos meios de comunicação, a
consciência (e, portanto, a solução) de todo esse processo, por meio de uma
espécie de cortina de fumaça global que impede que ideias diferentes ou mesmo
opostas possam caminhar juntas, gerando sínteses novas e surpreendentes.
Esse “jardim de infância global”, como o chama Amós
Oz, criado nos meios de comunicação atuais, inventou esses assuntos unânimes e
aparentemente puros e benéficos para todos; essa linguagem simplista, fixa e
higiênica; essas plataformas que não permitem dissenso, nem consenso; essa
polarização violenta, artificial e cegante; essa sensação de que é impossível
dialogar e reconhecer o outro na sua humanidade... Tudo trabalha no escuro
para, como sempre, manter privilégios de poucos, em detrimento da maioria de
nós. Aliás, o projeto de limpar nossas palavras nos afastará da linguagem
possível, sempre imperfeita, já que é ferramenta e tradução dos seres
imperfeitos que sempre seremos. E não só a colocará na voz inanimada das
máquinas, mas também a reduzirá, pois teremos receio e medo de procurar, por
tentativa e erro, novas palavras que traduziriam novas ideias.
Somos um país e um povo feridos pelos interesses
internacionais e não é seguindo cegamente as pautas e as visões estrangeiras
que resolveremos nossas desigualdades e especificidades sempre muito lucrativas
para eles. Assimilar o conhecimento produzido por eles (ou expor nossos
conhecimentos e saberes nas plataformas disponibilizadas por eles), sem fazer
as devidas adaptações e sem ter os devidos cuidados, tem nos afastado da
criação urgente de soluções originais para os nossos problemas reais. Não nos
esqueçamos de que os países hegemônicos lucraram muito com a escravidão e o
processo colonial, os quais deixaram uma ferida de difícil cura no nosso país. E
em vários outros: quem sabe ler entende que há marcas mais fáceis de serem
disfarçadas por serem invisíveis. Eles não são mais avançados do que nós, que a
História é bêbada e não um fio contínuo de progresso moral e ético, nem pensam
em nós quando espalham essas unanimidades, as quais, provavelmente, são a
solução para os problemas deles. Não nos esqueçamos de Nelson Rodrigues, que nos
disse que “toda unanimidade é burra”.
A treta das plataformas adia para nunca a nossa
compreensão dos verdadeiros culpados da situação em que estamos e das reais
soluções para os nossos problemas. Ela não cria o amparo de que tanto sentimos
falta, nem nos vincula ao outro como (de com força) desejamos. Não é entrando
em becos sem saída temáticos e apagando nuanças que suplantaremos os
nossos muros, nem é nos dividindo em milhares de grupinhos – uns rosnando contra
os outros – que iremos construir laços, dar as mãos e achar saídas e soluções
benéficas para a maioria do povo brasileiro. E para o desamparo que nos
persegue.
O escritor nigeriano Chinua Achebe declarou, na sua
obra, que a fragmentação é a primeira ferramenta da dominação ideológica e que
é urgente um “equilíbrio de histórias”, e sua conterrânea Chimamanda completou
que a história única é um perigo, pois, embora verdadeira, é criadora de
estereótipos e, consequentemente, de preconceitos.
Portanto, devemos não só lutar pela multiplicação de
relatos, mas também executar o esforço de escuta e depois de revide, para que,
em movimento equilibrado, nossas palavras nos ajudem a mudar o curso de
nossa História bonita mas assustadora de excludente. Evidentemente, não é
nessas redes que essa multiplicação se dará: nelas ninguém se dispõe a
aprofundar e todos se movem num esboço narcísico e mal feito de si mesmo e do
outro, o que impossibilita a criação de vinculações verdadeiras.
Essas pautas, felizmente, não pertencem só a mim: é
uma verdadeira felicidade ser acolhida por esta Academia de Letras, cuja missão
é feito a minha, que fica, então, fortalecida – guardar as palavras e as
histórias, não no sentido de esconder, mas no sentido de defender,
olhar, iluminar (e ser por elas iluminados), partilhar, ressignificar (e ser
por elas ressignificados), para que possamos seguir mais leves e
possíveis.
Vou tentar agora fazer deste texto uma prece...
Que tenhamos fôlego, nesta Casa, para continuar
preservando e aumentando e revisitando e reconfigurando o patrimônio cultural
nacional, a fim de que consigamos, como povo, enxergar a rota que precisamos
percorrer para sair deste labirinto sufocante em que estamos nos afogando.
Que criemos coragem para enfrentar os tiros das
estátuas e os mapas sujos de sangue que nos são ofertados e que, na verdade,
indicam caminhos que nunca nos beneficiam.
Que saibamos diferenciar com clareza as expressões
“autoproteção”, “soberania” e “impulso imperialista”.
Que aprendamos a ser delicados e serenos nos embates
necessários e urgentes, pois há, na verdade, entre nós uma encruzilhada de
ideias variadas. E compreensíveis. Esse barulho e essa infecção midiática estão
nos sequestrando do foco no essencial e estão nos prendendo no acidental e
acessório.
Que possamos perdoar e ser perdoados – e não
cancelados – quando, com ou sem intenção de ofensa, usarmos as palavras que
temos e o tom que nos é possível para discutir assuntos difíceis e dolorosos.
Sem sombra de dúvidas, não existe isto de palavras certas ou erradas, nem
existe alguém que possa decidir qual é qual: não me parece possível lavar erros
e preconceitos e inventar novos caminhos e amparos sob vigilância e violência
policial.
Que nos disponhamos para o estudo, já que ideias novas
não nascem da ignorância, mas do esforço do inventário da tradição, seja ela
universitária ou cultural.
Que compreendamos que a vitimação nas redes sociais e
a cultura de massa e a do cancelamento não vão nos tornar agentes construtores
de soluções para os nossos problemas. Elas podem até ser muito lucrativas para
alguns, mas são muros que nos dividem e cegam. E não nos ajudam a construir os
sujeitos que precisamos ser para pensar e executar ações efetivas a nosso
favor.
Que enxerguemos que entendimento não é a
coerção da corrente principal e mais poderosa de ideias. Mas o resultado do
diálogo ou das palavras em movimento.
Que desconfiemos daqueles que nos dizem que o Bem e o
Mal são facilmente identificáveis e entendamos que o lado certo da História é a
dúvida, pois a escrevemos com a matéria imperfeita de que somos feitos.
Que acertemos a criar novos espaços em que movimentar
palavras – nas empresas, nas escolas, nas universidades, nas faculdades, nesta
Academia e em todas as outras, nos teatros, nos cinemas, no rádio... – para que
o sangue e o ódio que circulam entre nós sejam amenizados. E a baixar o volume
das músicas sem qualidade e das tretas com que nos divertimos em bares,
restaurantes e nas redes sociais, a fim de que aperfeiçoemos nossas conversas,
repartindo ideias e pontos de vista.
Que possamos abandonar a polarização bipolar do século
passado a qual se debate no aperreio do próprio afogamento, na minha opinião, e
sejamos capazes de seguir o farol de um mundo multipolar, cheio de nuanças, o
qual fale várias línguas e democratize as ferramentas de inserção.
Empoderamento e cidadania não são produtos que possam ser presenteados, mas uma
construção subjetiva e processual que cada um de nós tem de enfrentar.
Enfim, termino este texto afirmando a utopia da
convivência. Drummond tem razão quando diz que a ciência só está fazendo
cavalinhos que nos levam a toda parte, mesmo sem caminho. Nossa estrada deve
ser o outro – por meio do equilíbrio de nossas palavras em movimento,
evidentemente –; deve ser a vereda da peleja do diálogo, da tarefa difícil do
estar junto e separado ao mesmo tempo; do propósito da paz, sempre um projeto
processual de que não podemos desistir, nem insistir de incerto jeito, como diz
João Guimarães Rosa, ou seja, é imperativo atentar para os fanatismos do Bem
que se enroscam na tal cortina de fumaça dos atuais meios de comunicação. É
muita pobreza resumir nossas relações à geração de riqueza... É muita covardia
não pensar depois de escutar e não tentar entender antes de falar... É muita preguiça
inventar narrativas (como se diz hoje) barulhentas que cancelam e tentam travar
a circulação de ideias plurais.
Tudo isso é muito utópico, eu sei. Mas é muito
perigoso não proteger as flores frágeis das quais Drummond já falou e que
costumam nascer no asfalto, apesar de tudo. Ou não abrir janelas para que
pássaros aflitos que se batem em paredes possam voltar a voar. Esta Casa a que
agora tenho a honra de pertencer conte sempre comigo para cuidar de flores e
pássaros e para reafirmar o seu valor.
Obrigada.