SAUDAÇÃO AO 123º ANIVERSÁRIO da ALP
Prezados companheiros:
Embora eu tenha falado para a maioria de vocês há
pouco tempo, por ocasião de minha posse, é da tradição desta Casa que, nas
comemorações de seu aniversário, o último acadêmico que tenha tomado posse faça
uma breve saudação inicial. Correndo o risco de ser repetitiva e pedindo
generosidade, já que ainda permaneço no mesmo contexto pessoal e social que
gerou aquelas palavras, estou aqui cumprindo este rito.
Esta Academia Pernambucana de Letras e seu pertinente irmão mais velho,
que sempre a protegeu e até por muito tempo a abrigou, o Instituto
Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, nasceram na Praça da
Concórdia – ele, em 1887, e ela, em 1901 (está, portanto, esta Casa fazendo,
neste ano de 2024, cento e vinte e três anos). Depois de muito peregrinar,
desde a década de 70, a APL mora nesta sua sede, que é quase uma unanimidade –
muitos admiram a bela casa doada por governadores que está sob nossa
responsabilidade.
Mas há aqueles que questionam a existência de Academias de
Letras e a própria Literatura nos dias atuais. A esses é preciso responder com
responsabilidade e respeito. Primeiro, é preciso atentar para o fato de que a
Escola está começando a cortar relações com a Literatura, o que terminará, ao
que parece, por tirar a História da Literatura (a matéria que leciono) das
salas do Ensino Médio.
É urgente que se esclareça que não é a Literatura que
está ameaçada, ao contrário: bienais, feiras literárias, concursos literários
concorridíssimos, como o nosso mais recente, fãs clubes e seguidores de
escritores, resenhas no Youtube, adaptações de livros para o cinema, ofertas de
graduações e pós-graduações de escrita criativa em diversos estados brasileiros
comprovam que, mais do que nunca, há canais abertos para a apreciação e a
produção do texto literário. O que está em xeque é o ensino da Literatura.
A relação da Escola com a Literatura sempre foi bem
ambígua: elas se dão bem, exceto quando a segunda convida a imaginação a pensar
ordenações fora dos limites estabelecidos. E isso não é raro, diga-se de
passagem. Quando comecei a ensinar, o convite à leitura do livro “O cortiço”,
de Aluísio de Azevedo, por exemplo, promovia um verdadeiro pandemônio entre os
pais e avós dos meus alunos. Somada a outras questões contextuais nacionais e
globais, como a crença de que a simplificação traria maior compreensão, e a
infantilização de adultos, o tal “jardim de infância” global, como o chama Amós
Oz, essa ambiguidade tomou, recentemente, uma proporção tão forte, que se
constata um afastamento invisível e sistemático entre a Literatura e a Escola e
seus currículos.
Como acho que a população brasileira não tem
consciência do que está acontecendo, tenho exaustivamente denunciado e
analisado causas e efeitos dessa política (não creio que inconsciente por parte
de gestores) de verdadeiro apagamento das contribuições que a Literatura (e
todas as Ciências Humanas que lhe são atreladas) podem trazer para o tecido
social brasileiro.
O ENEM, por exemplo, nivela por baixo, é coerente com
as habilidades e as competências que ele mesmo estabelece como importantes –
apesar de, às vezes, nem linguísticas elas serem –, mas nem de longe é
cooperativo com o verdadeiro ensino de Língua Portuguesa, além de que, na
seleção randômica de textos para a confecção das questões sobre as habilidades,
apresenta mais memes, tirinhas e textos injuntivos do que literários – dentre
as 45 questões que apresenta todo ano a nossos alunos, apenas 4 ou 5 partem de
textos literários, o mesmo número das questões de Língua Estrangeira. Isso
significa que a Literatura é estrangeira em nosso país? Algo que parece escrito
noutra língua e de que, para facilitar o aprendizado, aos poucos, devemos nos
afastar?
Mas, como numa cebola e suas camadas, há uma causa
originária para tudo isso: a Universidade começou a questionar o ensino da
História da Literatura, afirmando que os alunos estudavam Literatura, mas não
acessavam o texto literário, ou seja: com certa razão, a Faculdade de Letras
chamava a atenção para o fato de que se estudava um discurso sobre a literatura e
não a literatura. De fato, o texto literário, às vezes, na escola, tinha se
transformado num mero pretexto para o estudo da biografia dos autores, do
contexto histórico e da gramática normativa, embora isso se deva, talvez, mais
à falta de conhecimento de como fazer e de reflexão sobre para que fazer, o que
não confirma a ausência total dessas ferramentas na análise das obras.
O texto literário tem suas especificidades, é verdade.
E uma delas é a rede complexa de informações que tem de ser acessada para a sua
compreensão: o contexto em que a obra foi escrita e alguns pontos da biografia
de seu autor, por exemplo, são informações cruciais para se entender a obra,
até porque um dos objetivos da Literatura é elaborar tanto a realidade
circundante quanto a subjetiva. Nesse sentido, o conhecimento do contexto
histórico e de alguns pontos da biografia do autor são informações necessárias
para o entendimento do texto literário. A questão é de "cubagem".
Frutos de tudo isso, a quase morte da Crítica
Literária (cuja ação ofertava chaves de interpretação, sendo um GPS do leitor),
o julgamento sumário e o cancelamento de textos e seus autores são o mais novo
campo de atuação dessa verdadeira censura que, inclusive, propõe reescrever
textos errados para que se tornem certos.
Ora, o produtor de textos que pensa diferente de nós,
num tempo diferente do nosso, pensa diferente de nós e não errado, e a
circulação de ideias plurais e diferentes entre si é uma riqueza e não uma
inadequação apagável. Além disso, a habilidade de contextualização faz parte
das ferramentas irrenunciáveis do jogo da literatura. E da vida. E dos urgentes
esforços de afeto que precisamos conjugar. E do amadurecimento de ideias que
circulam entre nós.
Em seguida, é preciso atentar para o fato de que a
Literatura, como todas as outras artes, não se justifica apenas pela utilidade.
No entanto, a reflexão sobre ela, como assinala o crítico português Jacinto
Prado Coelho, já muito nos ensinou: ela mobiliza aprendizados sobre o idioma,
disponibiliza um cardápio de experiências de vida, não só traz lições de
sensibilidade e gosto, mas também cria capacidades de ver, fantasiar, sonhar e
criticar. Isso tudo não a confunde, evidentemente, com a Pedagogia, pois o
escritor se faz, se altera, vê, mostra e recria o mundo, trabalhando a
linguagem por ou de dentro e dando a ela marcas estéticas, o que pluraliza os
entendimentos e as interpretações. E, portanto, a criação de novas realidades
subjetivas e objetivas.
O leitor, consequentemente, experiencia a seu modo
esse conjunto de ações e, paulatinamente, se constrói, tendo com a obra uma
relação íntima, apenas mediada por professores e críticos, mas intransferível,
na medida em que enxerga, de certo modo, a realidade que o cerca e a
reconfigura também de forma autoral, pessoal e única.
Vozes poderosas demais defendem o ensino apenas das
Ciências da Natureza e da Matemática que, dizem elas, produzem riquezas e pagam
boletos. Infelizmente, essas ideias começam a reverberar nos currículos
escolares. A diminuição em curso da carga horária de Sociologia, Geografia e
Filosofia, por exemplo, mostra como é forte a ideia de que é uma espécie de
perda de tempo ou mesmo um perigo estudar as Ciências Humanas. Pois elas fazem
circular ideias demais, e só duas, contrárias entre si, devem existir.
Mas a construção processual e o fortalecimento cotidiano
de uma democracia, na minha opinião, se devem, de início, a uma “atmosfera
social” de reconhecimento de todos como merecedores de direitos iguais, embora
sejam respeitadas as idiossincrasias de cada um. É desnecessário lembrar que
não é na aula de Ciências da Natureza e de Matemática que pautas como essas têm
espaço para serem discutidas e elaboradas. Em outras palavras, o desleixo com
as Humanas, o enfraquecimento consequente dos movimentos sociais e a
simplificação do currículo e, portanto, da escola de nossos jovens
desestabilizaram profundamente o país. Não só: afastaram-no da busca por uma
distribuição de rendas menos escandalosa. Nesse contexto, governar se tornou
uma agenda apenas econômica que negligencia questões políticas e sociais.
A circulação de pretensos poemas com verbos no Modo
Imperativo sequenciados – estratégia usada pelos textos da propaganda – e o
sucesso de livros de autoajuda comprovam como a população ficou refém de
receitas prontas, que só enriquecem quem as produz, como o próprio nome
escancara (e ninguém percebe).
Esse ninho gerou e, junto com as redes sociais,
fortaleceu as“fake news” que, na minha opinião, não são notícias falsas mas
“slogans”, ou seja, a invenção de fatos que fortalecem apenas os dois modos
circulantes de pensar e apagam milhares de outras possibilidades. Até Jeff
Bezos, CEO da Amazon, já percebeu isso quando afirmou que “as redes sociais são
máquinas de destruição de nuances” que ameaçam a democracia, filha da
multipolaridade, e não da bipolaridade, eu completaria.
Evidentemente, se nem a Escola, nem a Universidade
querem relações com a Literatura, aumentou e muito o papel das Academias de
Letras no sentido de que elas têm de tomar para si a responsabilidade da guarda
do acervo literário e, portanto, cultural do país. E, numa sociedade como a
nossa, em que as diversidades são tantas, onde elas seriam elaboradas,
acolhidas e respeitadas?
Contra a crítica de que as academias não se concentram
mais apenas nas letras artísticas, é imperioso argumentar que as Ciências
Humanas também estão na linha do tiro e merecem a trincheira das Academias, por
vários motivos: porque também se utilizam da palavra, mas ainda ajudam a ver o
mundo e a interpretá-lo de várias perspectivas.
Além disso, caso se pergunte sobre o que se ensina
quando se ensina literatura, ver-se-á a ligação estrutural da Literatura com
todas as Ciências Humanas, pois a resposta, provavelmente, será “gramática,
filosofia, sociologia, antropologia, geografia, história etc.”. Não canso de
dizer que a Literatura é o cimento que cola as Humanas.
O prisma que se forma a partir de todas essas Ciências
Humanas trabalhando juntas nos ajudará a sair dessa polarização cega e bruta
que nos assaltou recentemente. Neste tempo simplista e cheio de ódios e tretas,
esta Academia não deve desistir de guardar, vigiar, debruçar-se sobre esse
complexo acervo, não no sentido de paralisá-lo, mas no de estudar, melhorar,
defender, inventariar, enfatizar e recriar... Sem nunca esquecer que nasceu na Concórdia, que é irmã da democracia, ou seja, também é filha da multipolaridade
e não da bipolaridade. E sem nunca se deixar seduzir por completo pelas
discussões identitárias atualmente em curso, que, infelizmente, em detrimento da
literariedade, distorcem os rumos próprios da literatura por meio de pautas e
“slogans” que lhes convêm, mas que, sobretudo, mutilam a polissemia e a
gratuidade, o verdadeiro DNA da Literatura.
Erico Verissimo talvez me ajude a concluir este texto
– num livro de memórias chamado “Solo de clarineta”, ele contou uma história,
como costumam fazer os escritores: quando ele era ainda um rapaz, um médico
pediu-lhe para segurar uma lâmpada, enquanto dava pontos num homem que a
polícia tinha ferido. Quando ficou adulto e se tornou escritor, essa metáfora
serviu-lhe para saber qual a sua função, ou seja, um escritor (eu diria os que
lidam com a palavra) é alguém que segura uma lâmpada, para iluminar a realidade
de seu mundo, evitando que prevaleça a escuridão, propícia aos facínoras e
ditadores. Finaliza dizendo que, se não tivermos lâmpadas elétricas, devemos
acender tocos de vela ou riscar fósforos, repetidamente, como um sinal de que
não desertamos.
Pois bem: nós, desta Casa, devemos continuar pelejando,
mesmo com as mãos queimadas, que a integridade da palavra é a garantia da nossa
integridade. E, se alguém pensa que isso não merece cuidado, é porque precisa
ouvir outras palavras, mais outras, mais outras... que mais clarifiquem, mais
clarifiquem, mais clarifiquem...