O MÉDICO, A DOENÇA E A LITERATURA
Começo confessando que fiquei com
inveja do tema de Pedro Gabriel, que tem a ver com a saúde e a poesia, imaginem
que maravilha falar sobre como a poesia pode salvar as pessoas... Mas me coube
falar sobre médicos, doenças e a literatura. Fiquei muito tempo matutando sobre
como desenvolveria o tema e pensei em começar falando sobre “O alienista”, de
Machado de Assis. No dia 16 de maio próximo passado, fui convidada para falar
sobre esse importante autor e nem sei se deu certo, porque ele falava de coisas
meio que proibidas na sua época. E eu acho que na nossa.
Machado nasceu em 1839 e morreu em
1908, ou seja, no exato momento em que o Iluminismo tinha se casado com o
Positivismo. E o que significam essas bodas? Bom, o Iluminismo, lá por volta do
final do século XVIII, entre outras coisas, é uma espécie de laicização do
pensamento, é quando o Ocidente deixa de explicar os fenômenos naturais por
meio da Religião e passa a não só procurar respostas na RAZÃO, na LÓGICA e na
CIÊNCIA, mas também inaugura a mentalidade de que elas iriam dar conta de
explicar tudo.
Nesse contexto, algumas palavras
começaram a ser politicamente incorretas, como se diz hoje, e a não poder ser
ditas: “inexplicável”, “insólito”, “milagre”, “mistério”, “incompreensível”,
“inesperado”, “medo”... Vem daí, por exemplo, a literatura fantástica, que nasce
nesse momento – ela apresenta um personagem que acredita na lógica e é movido
por ela, mas enfrenta situações que não consegue entender, nem explicar
racionalmente.
Tudo isso acontece, porque uma das
funções da Literatura é falar o que não pode ser dito: o escritor legítimo é
alguém que, como se diz hoje, pensa fora da caixinha e por isso é sempre tão
incômodo; ditadores costumam não simpatizar com livros, principalmente os
literários, como se pode verificar ao longo da História.
Por sua vez, o Positivismo, de Auguste
Comte, é uma espécie de resumo da cosmovisão materialista, típica de muitos
pensadores do final do século XIX, como Darwin, Marx, Engels e Taine, os quais
olham o mundo privilegiando a experiência dos sentidos. Em outras palavras:
eles preferem a matéria, em detrimento do espírito.
Consequentemente, há, no final do
século XIX, um enrijecimento do pensamento ocidental, que prescreve a troca da
fé em Deus pela fé na Ciência. Na Literatura, aparece o tema do
anticlericalismo, e padres cometem crimes, mentem, são hipócritas... E nela a
Ciência ganhou uma força enorme – o escritor mais determinista do mundo é nosso
Aluísio Azevedo, que animalizou personagens e os colocou, mecanicamente, como
determinados pelo ambiente de uma favela nascente.
Machado, apesar de morar na periferia
do mundo, não caiu nesse modismo e fez a Ciência do seu tempo sair da boca de
dois personagens loucos.
O
primeiro era Quincas Borba, que estendia o Darwinismo à sociedade e o usava para
explicar as injustiças sociais; ele dizia que não havia nada de mais no fato de
que os mais aptos fossem os senhores, e os menos aptos fossem os escravos, que
cuidavam das galinhas, que seriam servidas no cardápio dos senhores. Explicando sua teoria do Humanitismo, usa a
estapafúrdia história dos dois exércitos: como não havia batatas para todos, é lógico que a guerra é inevitável;
então: o exército vencedor, diz o personagem na sua loucura, ficaria com as
batatas e poderia não só subir a montanha, porque estava nutrido, mas também
chegar ao lugar onde havia batatas para todos. Se não houvesse a guerra e a
eliminação de um dos exércitos, sequencia, todos morreriam. A famosa frase “Ao
vencedor, as batatas” resume, então, sua filosofia darwinista e cínica, que
justifica a guerra e os meios injustos com os quais alguns pretendem atingir um
fim (e, infelizmente, conseguem, às vezes).
O
segundo era Simão Bacamarte, um psiquiatra (na época, se chamava “alienista”)
que pretendia botar todos os seres humanos numa tabela e tinha escolhido sua
esposa de acordo com o que, visivelmente, parecia anunciar que ela cumpriria
bem o destino da maternidade – seios grandes ou quadril largo, algo assim...
Mas tudo no materialista e científico Simão falhou fragorosamente – brigou com
o padre, desentendeu-se com toda a cidade, cujos habitantes se rebelaram, sua
esposa nunca engravidou e começou a ter compulsão por compras, e ele mesmo
enlouqueceu, pois sua ideia reducionista e classificativa (ele pensava que poderia
facilmente identificar o louco, separando-o do são) mostrou-se impossível de
ser levada a cabo.
Voltando
ao tema de minha palestra, quero ainda esclarecer que a doença psiquiátrica foi
usada por Machado como uma metonímia, uma figura de linguagem com a qual se
fala de uma doença querendo significar todas as outras. E que outras conotações
saíram da pena do autor – a hipérbole ou exagero, a ironia... Com a linguagem
metafórica da Literatura, o autor, diferentemente de seus pares europeus,
questionou o Cientificismo de seu tempo e, por meio do riso, nos fez ver o
absurdo que é examinar uma pessoa apenas com os recursos da Ciência e da
Técnica.
A
tão propalada, urgente e tão desacreditada Humanização da Medicina é uma missão
de hoje tão ou mais difícil do que no tempo de Machado de Assis, já que estamos
vivendo uma valorização da Técnica e da Ciência tão grande quanto no tempo do
autor. Ou maior. Os médicos estão presos
a exames espetaculares, é verdade. E a protocolos que, seguidos, os livram da
Justiça, que hoje é uma forte mediadora das relações humanas.
Mas
a Humanização, sabe, a existência daquela troca de palavras, a história da
família, a tolerância de ouvir um paciente sem julgamento, de tomar
conhecimento de suas dores, seus sintomas, suas queixas... talvez seja o
caminho a ser seguido, até para saber qual exame deve ser prescrito.
Sei
que nada disso é fácil – outro mediador de nossas relações é o tempo e suas
urgências... E todo um sistema em que prevalecem a competição, a desigualdade de
oportunidades e renda, as engrenagens mercantilistas... Porém não me consta que
já foi mais fácil viver; como já disse em um poema, somos uma fábrica de fazer
novos tempos ao lado de novos desesperos...
Também
não me canso de dizer que não somos capazes de sobreviver só com realidade;
Nietzsche já dizia que “temos a Arte para não morrer de verdade”. E precisamos
imaginar mundos e seres humanos melhores... Às vezes a imaginação se distrai e
vira realidade...
Portanto,
estudar Arte – principalmente as narrativas do cinema e da literatura,
incluindo o teatro e a poesia – ajuda a educar a sensibilidade e ensina a
pensar com autonomia... O crítico português Jacinto Prado Coelho diz que a
literatura não foi inventada para ensinar nada, mas refletir sobre ela nos
ensina muito. Ler um romance, um conto, uma novela, um poema, ver um filme e
pensar, conversar, ouvir, trocar ideias... Tudo isso ajuda a gente a ser gente,
a compreender, a ser compreendida por quem nos cerca, a perdoar, a entender os
contextos em que as pessoas estão inseridas, que são sempre difíceis... Uma
quantidade enorme de clubes ou grupos de leitura estão, espontaneamente, sendo
formados pelo país, não sei se vocês já notaram... Eu e Mateus Rios fazemos
parte de um, ele funciona assim: decidimos em grupo de WhatsApp qual livro ler,
lemos a sós e, uma vez por mês, fazemos verdadeira questão de nos reunir para
conversar sobre ele.
Duas
histórias me ajudam a fortalecer essa sugestão de ler livros literários.
A
primeira aconteceu com meu filho Daniel, muito pequeno ainda, quando mostrei algo
que, na minha opinião, era bonito, e ele exclamou “mãe, eu ainda não sei
gostar”, o que comprova que até uma criança é capaz de entender que gosto e
tudo na vida são aprendizados...
A segunda aconteceu comigo quando outro filho teve uma doença gravíssima, com cujas sequelas ele e eu vivemos até hoje: foi a postura do infectologista que o atendeu. Esse médico me dizia que não sabia; que não tinha chegado a uma conclusão; que meu filho (na época, com 17 anos), às vezes, reagia como uma criança, às vezes, como um adulto; que, portanto, apresentava especificidades com as quais ele e todos os outros médicos não sabiam ainda lidar; também me consolava; se esforçava para me explicar o que estava acontecendo com exemplos da Literatura, para que eu pudesse compreender melhor aquele turbilhão de informações e termos técnicos que me assaltavam; chegava correndo quando necessário, mesmo na noite de Natal; era movido por um instinto bonito de salvar meu filho, quando outros médicos achavam que as sequelas seriam tantas que não valia a pena deixá-lo viver... Sua franqueza, sua humanidade, as contas que me apresentou... Quando eu disse que tinha notado que ele apresentara um valor pequeno comparado com o que tinha trabalhado, ele disse “naqueles dias, era seu filho o cliente que mais precisava de mim”...
Foi nossa relação humana e franca, atravessada pela palavra, que me fez suportar aquele verdadeiro calvário, que terminou na íntima constatação de que a vida exige de nós muita coragem, pois ela nos fere, aleatoriamente, com “exigências brutas”, como disse Drummond. E que estamos aqui para cuidar uns dos outros de várias formas. Cuidar pode significar ouvir, ser ouvido, curar, acompanhar paliativamente, apresentar limites, perdoar... Em resumo: cuidar é construir possibilidades de convívio e, portanto, de diálogo. As tais engrenagens materialistas podem atrapalhar, mas estamos aqui para vencer o desafio de conviver e não de inventar máquinas formidáveis de matar e ir para Marte.
Não
me parece que ficar nas redes sociais está ajudando a gente a desenvolver a
generosidade, que é sempre necessária nas relações humanas... Essas redes e seus
algoritmos não são inocentes: direcionam o pensar, o sentir e, portanto, o
falar da gente; empurram-nos uns contra os outros, e seus donos ganham muito,
muito dinheiro com as tretas, a intolerância, as agressões e os cancelamentos
em que somos armadilhados quando, enganosamente, pensamos nos comunicar através
delas. Elas não são democráticas, nem contribuem para o nosso entendimento uns
dos outros – dirigem nossas palavras não só para ferir o outro, mas para pôr em
dúvida os seus argumentos e suas razões. Dividem o mundo em dois e nos obrigam
a nos reduzir, pois levam oito bilhões de pessoas a pensar de apenas duas
maneiras. É a famosa polarização que, sem que percebamos, está nos empurrando
para ideias extremadas, que terminarão por nos jogar numa guerra – se é que já
não estamos nela.
Começa
a nascer sub-repticiamente a ideia de que é impossível conversar com quem pensa
diferente de nós. Ou seja: só é possível dialogar com quem diz o que queremos
ouvir ou com quem aplaude o que dizemos. Que mundo é este em que não há subtons
entre as cores? Que mundo é este que acusa quem não compactua com um dos lados
a que fomos reduzidos? Não é um mundo, mas um beco sem saída...
É
importante carregar um prisma, sabe? Um prisma é um objeto incômodo de carregar
nos dias que correm, mas é necessário fazer um esforço; todo amor, toda relação
exige um esforço. Esforço de palavra, eu acrescento. Por isso a literatura: ela
faz a mediação, permite que a gente calce o sapato do outro, pois passamos muitas
horas vendo a partir do ponto de vista do narrador, de cada um dos
personagens... Um escritor não é melhor do que ninguém, é apenas alguém que
maneja bem as palavras, cria para elas novos significados ou nos presenteia com
as palavras com as quais ele consegue falar dos sintomas e das dores de seu
tempo. Nesse contexto, quando os lemos e criamos grupos de discussão, vamos
entendendo melhor o tempo que nos coube viver e, fazendo adaptações, nós
conseguimos ser seres humanos em contato real, que é o remédio de que,
realmente, precisamos. Pensar que somos feitos para brigar ou que nossos
encontros são colisões sem sentido está nos mergulhando numa epidemia de
doenças emocionais e num redemoinho de suicídios de jovens que cedo demais
decidem desistir de seguir em frente.
Um
médico não é só alguém que decifra exames; é alguém que escolheu participar de
uma relação humana especial, feita na mistura de poder com cuidado, de um lado,
e medo e fragilidade, do outro. Um paciente, como o próprio nome o diz, diferentemente
de um aluno, não é um agente, tem que se submeter à coerção do tratamento; e um
médico tem de saber exercer uma ação, ao mesmo tempo efetiva e compassiva, sem
se deixar afetar demais... Tudo isso é muito humano e muito sutil e muito
difícil, eu sei. Sem o atravessamento da palavra, acho que nem possível é...
Não
sei o que dizer a vocês para terminar esta palestra... Como diz Guimarães Rosa,
viver é muito perigoso e, sem as mãos dadas, é impossível. Devemos resistir,
teimando na direção do diálogo e do perdão, que não são tarefas fáceis, com
certeza. As palavras têm duas roupas e, às vezes, elas ferem tão fundo que
“perdão” vira uma palavra insuficiente. Todo amor de verdade carrega uma gota
de ácido, como diz Drummond...
Então
peço a cada um de vocês aqui presentes que tenham coragem para resistir às
sereias desse sistema desigual, contemplando ricos e pobres com a mesma atenção
possível; que continuem a tentar (mesmo sem conseguir) equilibrar suas
profissões com a vida familiar; que não se abandonem às simplificações
ideológicas e partidárias; que tenham ânimo para enfrentar as complexidades
humanas e seus sintomas, lembrando que “complexo” não é difícil, é só algo que
tem de ser olhado por meio de muitos saberes; que os que são professores ou
tutores não desistam de ensinar com o exemplo humano, para que possamos
aperfeiçoar nossas relações.
Como já disse num poema, tentar lembra amar, que tudo explica entre erros e acertos.
Obrigada!