REFLEXÕES SOBRE LITERATURA, SAÚDE E MEDICINA
Começo afirmando que, a partir da segunda metade do
século XX, a História e a Medicina nos presentearam com um paradoxo: o positivo
aumento da longevidade e a consequente, mas negativa, morte do mundo a que a
gente pertence, antes de a gente morrer. De forma mais lenta, acho que isso
sempre aconteceu, pois somos seres históricos que transformam o mundo ao longo
do tempo. Entretanto constato que, recentemente, a velocidade com que essas
transformações acontecem aumentou muito e, paralelo a isso, vivemos mais.
Não
tinha sido capaz de escrever sobre o impacto que o fim do meu mundo causou em
mim; “fico muda quando mudo” é a frase que uso para pedir um tempo de silêncio
aos que me cercam e amam. Os convites sequenciados que médicos me têm feito
para fazer palestras me deram força suficiente para o esforço de escrever para
compreender e explicar, o que constitui uma das tarefas de minha
vida.
No começo do mês, pensando sobre o que traria dessa
vez para vocês, lembrei-me de um livro que li em 2015, cujo título é “Sobre
Alice”, do jornalista americano Calvin Trillin, que, como eu, justifica seu
relato dizendo que um escritor ou o jornalista têm o instinto (do qual não
podem fugir) de tentar encontrar sentido nos fatos que nos atropelam durante a
vida.
“Sobre Alice” é uma linda declaração de amor que o
autor escreveu sobre a sua esposa Alice Stewart Trillin, que morreu antes dele,
de problemas cardíacos decorrentes de um tratamento de câncer de pulmão a que
ela tinha se submetido 25 anos antes. Alice venceu o câncer (morreu, muito
tempo depois, da cura e não da doença em si), e a recuperação lhe rendeu a
chance de ver o casamento de suas duas filhas e de ajudar muitos médicos e
outros doentes a entenderem o que se passa com os pacientes em tratamento, por
meio de palestras e de um famoso depoimento escrito chamado “Sobre dragões e
ervilhas – uma paciente de câncer conversa com médicos”.
De acordo com Alice, os dragões do título eram uma
metáfora para o fato de que a doença era um monstro difícil de matar e podia ficar
à espreita e despertar quando menos se esperava; as ervilhas, outra metáfora
para as coisas que, a despeito do que se pode antever antes de adoecer, têm que
continuar iguais, como ir à feira, pagar as contas, perder entes queridos,
manter, minimamente, a própria identidade...
O câncer foi, na história de Alice, o que ela mesma
chamava de “concretização de nossos piores pesadelos”, isto é, às vezes somos
surpreendidos por acontecimentos incompreensíveis, de tão brutais. O que
fazemos dos episódios e de nós mesmos depois faz muita, muita diferença.
Naquele ano de 2015, eu disse que a compreensão disso torna cada um de
nós ainda mais responsável pelos outros: precisamos continuar fazendo esforços
para conviver em harmonia, pois o episódio, por bruto que seja, não traz com
ele passes de desculpas, nem justificativas para eventuais descortesias que
possamos cometer daí para frente. As pessoas, simplesmente, não têm nada a ver
com o fato, nem podem ser depositárias de nossa revolta com o lotérico caso que
ocorreu na “nossa” vida e não na “delas”. E mais: não querem ficar ouvindo
lamúrias... E mais: algumas são incapazes de, minimamente, entender o que
aconteceu... E mais: outras acham que, se aconteceu conosco, azar o nosso... E
mais: algumas não pensam sobre essas coisas, só vivem...
Um pouco calados, temos que seguir em frente com essa
razão (como diz a matemática) invisível que potencializa as coisas da vida...
O que acontece comigo é que mudanças, mesmo pequenas,
despertam a lembrança “do meu pior pesadelo” – a doença neurológica gravíssima
de meu filho do meio, que o transformou e a mim mesma em pessoas completamente
diferentes... E, sim, há as dificuldades mesmas da vida, que não param e se
somam, cotidianamente, ao acontecimento, numa equação com muitas incógnitas...
E muitas lágrimas... Se pais têm medo de morrer e deixar os filhos, o meu medo
é maior; se pais temem adoecer quando seus filhos são ainda dependentes, o meu
temor é mais longo; se pais acham difícil sustentar seus filhos, minha
dificuldade é maior; se pais acham penoso contratar cuidadoras e babás, a minha
pena é maior...
Não há muito o que fazer depois que um fato desses se
instala nas nossas vidas: às vezes, temos que apenas suportar enquanto ele
passa, como no caso de Alice; às vezes, temos que aprender a viver com suas
intermitências, como acontece nas recidivas antes da cura final; às vezes, ele
não passa nunca, como no caso de meu filho, que carrega, desde a fase aguda de
sua infecção, há mais de 20 anos, sequelas irremediáveis muito limitantes.
E não há consolo, apesar de muitas pessoas terem umas
ideias prontas que as blindam do medo da vida e suas tocaias: algumas pensam
que Deus não enviaria um fardo desses para elas, pois Ele sabe que elas não
suportariam; outras, que dizer a uma pessoa que outras têm problemas maiores do
que os dela é suficiente; outras, que Deus manda o fardo e o “como” carregá-lo;
outras pensam que se matariam, cometendo, a meu ver, uma covardia; outras
passam a vida inteira sem pensar nessas coisas difíceis, achando que a vida é
uma passagem festiva e sem problemas e que só algumas pessoas fazem confusão,
porque são confusas, como eu, conforme me disse, há algum tempo, um aluno meu.
E ainda acrescentou:
– Viemos ao mundo para comprar!
Eu lhe disse que Deus não teria uma ideia idiota como
essa, e até hoje não sei se ele pensa mesmo isso, ou se eu lhe disse alguma
coisa que o tocou tanto que ele se defendeu com essa “pérola” materialista...
Como gostaria de acrescentar raciocínios aos que fiz
em 2015, queria dizer que tanto as experiências de Calvin e Alice Trillin
quanto as minhas aconteceram dentro de hospitais e ao lado de sua população –
médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas,
fonoaudiólogos... e doentes. Na verdade, acho que um hospital é um lugar no
qual a vida de muitas pessoas muda, de repente, para uma outra parte e por isso
é preciso muita generosidade e muita delicadeza no trato com elas. Ou no de
quem é de lá de alguma forma (plantões, internatos, diretoria...).
Não
saberia, de jeito nenhum, ensinar a vocês como se mover na vida ou num hospital
(os dois espaços podem servir um como metonímia do outro). Mas acho que posso
afirmar que momentos de transição – aquilo que nem todos, mas uma quantidade
significativa de pessoas vive dentro de um hospital – são sempre muito
difíceis: usando metáforas, é a gente precisando caminhar sem mapas... ou
tentando se equilibrar com cada perna em um barco diferente... ou sendo vítima
de um terremoto que tira o chão de nossos pés.
Profissionais de saúde são testemunhas dessas
experiências radicais e intuo que é a própria humanidade do médico que pode
ajudar nessas situações, servindo de bússola, ou seja, quanto mais
profissionais de saúde sejam gente como toda a gente, mais conseguirão dar
conta da tarefa, apesar das dificuldades.
Foi o escritor inglês de origem indiana e islâmica
Salman Rushdie quem me deu as metáforas com as quais seguirei pensando: a vida é uma casa muito, muito grande, cheia
de buracos nas telhas, no chão; as paredes estão em condições ruins, ameaçando
ruir... Nela estão todos os seres humanos – parentes, amigos, amantes,
conhecidos, desconhecidos, desconhecidos perigosos... E a gente dentro daquela
casa, andando, andando, sem saber para onde, levando quedas e pancadas... De
repente, a gente se dá conta de que a casa não tem saída... No meio do pavor
dessa descoberta, constata-se que há alguns quartinhos onde existem vozes que
falam da casa... São os escritores (ou os artistas): pessoas que, dentro da
casa, falam dela para nos distrair do terror (é que algumas vozes são obscenas,
outras safadas, outras amáveis, outras engraçadas, outras tristes...) e dar
algumas dicas. No seu ensaio, Salman pede que imaginemos o que seria ficar
na casa sem a linguagem das artes, como esse espaço se tornaria ainda mais
assustador, sem a distração momentânea ou as direções mínimas apontadas... Ele
conclui: “tenho certeza de que, imediatamente, nos lembraríamos de que não há
saída!”
Talvez venha daí a explicação para o fato de haver
tantos escritores médicos, ou seja, na essência, o médico é próximo do
escritor, ou deveria ser: dentro da casa (ou da vida ou do hospital), o médico
devia guiar um pouco, usando não só a linguagem objetiva da ciência (que não
permite mais de uma interpretação), mas também a figurada da literatura.
A sensação de superioridade que alguns médicos têm é
um verdadeiro impeditivo para o percurso suportável nesse lugar aflitivo.
Durante a internação de meu filho, na fase aguda de sua doença, duas técnicas
de enfermagem me ajudaram em ocasiões diferentes: uma delas me contou uma piada
da qual não me lembro e que terminava dizendo que “alguns médicos pensam que
são deuses, e neurologistas têm certeza”; e a outra me disse que eu sossegasse,
pois os médicos costumam dar vereditos errados, uma vez que ela já tinha
presenciado milagres sem conta que os desmentiam, na UTI em que trabalhava. Com
as metáforas, elas me deram uma espécie de agasalho, ou seja, fortificaram a
possibilidade de eu continuar pensando que talvez aquilo que os médicos diziam não
se realizasse, o que terminou por acontecer.
Quando tento me lembrar do período daquela internação,
uma nuvem confusa parece atrapalhar tanto relato quanto lembranças: fui
bombardeada com suposições, veredictos e impressões que não se cumpriram. Portanto,
acho que poderia ter sido poupada de muito do que ouvi.
Entendo, perfeitamente, que os médicos se sentiam meio
que obrigados a me preparar para o pior, já que achavam que meu filho iria
morrer “dentro de um ou dois dias”, como me foi dito várias vezes. No entanto,
de forma geral, eu merecia mais cuidado: naquela longa internação, meu filho
estava num limbo entre a vida e a morte, e eu era uma mãe amorosa que perdia o
filho aos poucos. E que, ao fim e ao cabo, não o perdeu de todo.
As recentes notícias da tragédia do Rio Grande do Sul
me deram a expressão “fadiga por compaixão” com a qual agora posso falar sobre
o que talvez aconteça dentro dessa casa chamada hospital: há um equilíbrio
muito difícil entre a compaixão e a exaustão na área de saúde e, ao contrário
do que se pensa, também deve haver compaixão em direção aos profissionais da
saúde; é recíproca a relação de humanidade necessária nesse, digamos, encontro.
Entretanto, se o médico se coloca acima de seu
paciente, numa posição estapafúrdia de superioridade, como ele espera merecer
sua cota de compaixão? Na verdade, o médico que se coloca nessa posição se
recusa a participar desse jogo de afetos tão humano − a confluência de erros e
acertos, amores e dificuldades que resume a vida de todos nós.
Além disso, com certeza, pode-se esperar,
escolhendo-se a Medicina, uma remuneração que dará condições de vida muito
acima da média. Mas é preciso atentar para outros pontos: o custo social da
formação e, portanto, o troco que a sociedade brasileira precisa que seja dado.
E as próprias necessidades da população do país. Todos temos de procurar ter
mais do que apenas dinheiro; ter só dinheiro é uma forma ridícula de pobreza.
É urgente a busca de explicações, sentidos, propósitos
(que antigamente eram dadas pela Religião ou pela Tradição), os quais são
procuras também cruciais para que nós, embora presos nessa casa caindo aos
pedaços que é a vida, ou o mundo ou o hospital, cumpramos as tarefas a que viemos
ou que, cegos e enganados, escolhemos...
Acrescento
que ler livros literários treina a gente a ler, reconhecer, desdobrar e, claro,
acertar a usar a linguagem polissêmica que, antes de tudo, dá ao leitor ou
receptor o direito de ter acesso à informação, no ritmo que lhe convier ou que
lhe for possível. Ou seja: em livros, a
informação não chega nem em grande e rápida quantidade, nem desorganizada como
hoje.
Não
compreendo como coincidência o fato do encontro de duas gerações; na verdade,
acho até que há um sentido em todo encontro – de amantes, de parentes, de
amigos, de vizinhos, de aluno e professor, de médico e paciente... A gente pode
não se dar conta disso... Guimarães Rosa diz que “quando nada acontece, há um
milagre que não estamos vendo”... Eu talvez acrescentasse “milagre que a gente
não sabe ver”, pois estamos perdendo a habilidade de ver o invisível...
Tanta
coisa bonita pode acontecer entre pessoas, e a gente só tem a ideia de
competir... E, portanto, de simplificar para ganhar... Nossas relações
políticas, por exemplo, estão nos dividindo entre bons e ruins. Shakespeare, no
século XV, já sabia que isso não é verdade...
Finalizo
esta palestra dizendo que o mundo em que fui formada morreu, mas eu ainda estou
aqui, não sei bem para quê... Se bem que eu jamais deixaria de escrever e falar
se convidada a fazer isso, uma vez que essa é a minha tarefa.
Todos
cometemos erros desastrados e devemos seguir em frente, tentando fazer melhor.
O nosso melhor pode não ser suficiente, mas é o que, esfolados, conseguimos.
Diferentemente de como nos comportamos nas redes sociais, precisamos levar em
conta, como no Direito, a tal da “presunção da boa fé”. Pensei isso,
recentemente...
Meu
terceiro filho vivia me perguntando “e se eu não tivesse nascido?” Eu lhe
respondia que eu seria incompleta, que a família seria menor... Mas ele
continuava a repetir a suposição. Um dia, ele chegou perto de mim todo contente
e disse: “eu já sei: se eu não tivesse nascido tinha uma coisa desmantelada no
Universo”.
Então:
espero ter cumprido a tarefa de levantar pontos que façam sentido para vocês;
espero que cada um de vocês compreenda qual coisa desmantelada do Universo
depende de vocês para ser consertada, porque isso é uma direção; espero que
vocês entendam que há muita coisa invisível e calada que se passa entre nós,
seres humanos, e que ninguém veio ao mundo para apenas ganhar dinheiro. Nosso
espírito está fraquinho, com problemas graves de segurança alimentar... Mas ele
existe, e acredito que a felicidade tem mais ligação com ele do que com a
matéria (essa é uma das poucas certezas que tenho). Ao fim, é isto: nunca vi
uma pessoa ser, realmente, feliz sozinha. Então se trata de conjugar verbos
simples – amar, repartir, cuidar, tentar, falhar, consertar, resistir... Entre
erros e acertos... Isso somos nós...